UM MISTÉRIO... QUEM FOI "A RAINHA VERMELHA"

Numa manhã de abril de 1994, a jovem arqueóloga Fanny Lopes Jimenez, cumpria suas tarefas de retirar ervas daninhas e entulhos da quase desaparecida escadaria do Templo XIII em Palenque. O Templo XIII foi construído pelos Maias próximo ao Templo das Inscrições, um edifício destinado a guardar os restos mortais de seu Grande Rei, Pacal Votan, “O Guerreiro Sagrado”, descoberto em 1949 pelo arqueólogo Alberto Ruz Lhuillier. Pacal foi um rei e um exímio guerreiro que reinou em Palenque dos 12 anos de idade até sua morte aos 80 anos em 683 d.C. Deu grande renome a Palenque liderando campanhas militares que levou a história de seu povo a ser registrada em glifos (significa 'eu gravo'. Usado para designar qualquer signo entalhado ou pintado, a exemplo dos glifos da própria escrita Maia contando sua história, como também, dos hieróglifos egípcios).

O trabalho de limpeza realizado pela arqueóloga tinha o objetivo de estabilizar a estrutura e

evitar possíveis futuras deteriorações da escadaria. Mas, a vida as vezes nos apresenta situações boas ou ruins, porém, para ocaso da arqueóloga, parece ter sido muito bom. Vistoriando seu trabalho de alguns metros de distância do local onde o havia realizado, a jovem arqueóloga avistou uma pequena fenda com o tamanho de alguns centímetros, mais ou menos escondida por um certo tipo de argamassa. Como a característica principal de um(a) arqueólogo (a) é a curiosidade, Fanny passou mão de um espelho e foi verifica o que era aquela pequena abertura no solo e acabou vendo algo como uma estreita passagem refletida no
espelho. Então, chamou seus colaboradores e de posse de uma lanterna dirigiu o foco para dentro da fissura encontrada, onde viu que, a passagem refletida pelo espelho, tratava-se de um estreito corredor de aproximados seis metros de comprimento. Pelo que via, constatou que estava vazio, sem entulhos e dava caminho para outro corredor com ângulos retos, desembocando em outros dois corredores, onde se podia visualizar uma grande porta aparentemente selada. Fanny mal podia conter sua excitação, pois acabara de descobrir uma
subestrutura desconhecida abaixo da superfície do Templo XIII.

Aquele sítio arqueológico havia sido descartado pelos pesquisadores por entenderem que, após a descoberta do túmulo de Pacal, nada mais havia a ser descoberto por ali. Fanny tratou de conseguir autorização do diretor do projeto, Arnoldo Gonzales Cruz, para explorar o local. Assim, no dia seguinte, juntou sua equipe e partiu para dar início as escavações. Removeram as pedras e entraram na passagem. O grupo, tendo Funny a frente,

subiu pela abertura com a sensação de alguém que entrasse por um “túnel do tempo”. Passos quebraram o silencio de séculos e ecoavam por antigas paredes que datavam mais de mil anos. Logo em seguida, encontraram uma galeria com 15 metros feita com grandes blocos de pedra calcária que mostravam três câmaras, duas laterais completamente vazias e uma central que havia sido fechada propositadamente por obra de mãos humanas,  conservado ainda os traços de pigmentos preto do estuque usado. A referida galeria tinha as extremidades de suas entradas completamente seladas. O arco Maia guarnecia e era a base da construção dos altos tetos. Chamava a atenção do grupo explorador, o telhado em forma triangular terminado com grandes pedras. Haviam indícios de rituais realizados em frente a câmara selada, devido aos restos de carvão encontrados no piso.   

O Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH) que comandava a equipe arqueológica para fins de manter o patrimônio cultural do México, sentiu que aquela descoberta era de suma importância. O Templo XIII beira ao Templo das Inscrições, pirâmide mais alta de Palenque e, como já dissemos,  o monumento fúnebre de Pacal (K’inich Janaab Pacal), “O Guerreiro Sagrado”. Quando, em 1952, o arqueólogo Alberto Ruz Lhuillier escavou o túmulo de Pacal, revelou-se ao mundo o primeiro enterro Maia real numa pirâmide com sua riqueza em jade, tigelas e cerâmicas datadas entre 600-700 d. C.

Transposto a parede selada da galeria central, abriu-se diante dos olhos de todos, um sarcófago esculpido num único pedaço de pedra medindo 2,40m de comprimento por 1,18m de largura. Chamou a atenção do grupo não só a visão do sarcófago e sim o que havia ao lado do mesmo. Encontrou-se os cadáveres de uma criança com a garganta cortada e o de

uma mulher, cujo o coração havia sido removido.

Os Maias adoravam vários deuses, seus rituais religiosos eram de grande importância para eles. Acreditavam que sem estes sacrifícios, seus deuses e o universo poderiam desaparecer. Tais deuses, também preservavam a existência do mundo espiritual. Além dos sacrifícios humanos, ofereciam flores e alimentos para acalmar as tantas divindades. O sacrificado poderia ter seu coração extraído, ser executado à flechadas ou afogado em um rio. Durante alguns rituais,

a cabeça do sacrificado era arrancada e utilizada para a prática de um jogo que representava o movimento e a importância dos astros na manutenção do equilíbrio universal. As vítimas eram escolhidas entre escravos, inimigos de guerra ou uma virgem. Os cadáveres encontradas pela equipe de exploradores, eram a representação  exata da manifestação horrenda de um dos rituais praticados pelos Maias.

Através de um pequeno buraco na tampa do sarcófago, visualizaram que no interior estava cheio de joias de jade. Então, nas primeiras horas do dia 1 de junho de 1994, utilizando o mesmo método hidráulico usado por Ruz para abrir a urna mortuária do rei Pacal alguns anos atrás, a equipe girou lentamente a tampa de pedra calcária monolítica. A remoção da tampa do sarcófago, liberou um forte odor de cinábrio (o cinábrio é um composto de mercúrio e enxofre com forte cor vermelha, usado para preservar os restos humanos), obrigando a equipe a usar máscara. Porém, também revelou, que ali havia um esqueleto deitado de

costas, os ossos completamente cobertos pelo mineral. A maneira como estava disposta a múmia, era uma forma real de sepultamento que não se via 14 séculos. Na caveira um diadema liso com contas de jade redondas, vários fragmentos verde-vivos adornavam o crânio. Jade, pérolas, conchas e agulhas de osso rodeavam o esqueleto. Haviam colares, carretéis de orelha e pulseiras enfeitando o corpo sepultado. No peito contas chatas de jade, lâminas de obsidiana, três pequenos machados de pedra calcária cobriam a pelve.

Era, sem dúvida, um sepultamento da realeza Maia que se transformaria na maior descoberta arqueológica nos últimos 40 anos antes de 1994. Fanny, a arqueóloga, presumiu que aquela múmia era do sexo feminino e, provavelmente, uma rainha. A importância da descoberta de um túmulo de uma provável rainha Maia, foi um feito grandioso em todos os tempos. Enviado pelo Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH) do México, o antropólogo físico Arturo Romano Pacheco, após examinar a múmia, concluiu que se tratava realmente de uma mulher. A história aponta rainhas ligadas diretamente ao rei Pacal, como por exemplo, sua avó Yohl Ih’nal, sua mãe Sak k’uk, sua esposa Tz’aakb’u ahau e sua nora K’inuuw Mat, sendo que a última ainda não se encontrou informações de que tenha reinado.

Mas quem era a mulher sepultada na tumba do Templo XIII?

Por muitos anos perduraram as dúvidas da mulher batizada de “A Rainha Vermelha”, porém

com o passar dos novas tecnologias e materiais proporcionaram exames mais apurados e chegou-se as seguintes conclusões: 1 - Tinha estatura de 1,54 metros. 2 - Faleceu entre 50 e 60 anos. 3 - Tinha o crânio deformado, com uma testa achatada, para seguir os padrões de beleza da sociedade Maia. 4 - Sofria de osteoporose. 5 - Sinusite crônica e 6 - Teve filhos. Além disso, na sua tíbia esquerda, encontraram um casulo de larvas de vespa. Acredita-se que, quando morreu, estaria bastante debilitada. Seus dentes indicavam que não nascera na região de Palenque. Sofria de tártaro, abscessos e cáries e sua dieta baseava-se em carne, característica que mostra que fazia parte da alta sociedade. No Entanto, não foram estas descobertas que revelaram a identidade de quem representava a” Rainha Vermelha”. A arqueóloga Fanny López Jiménez, investigou e leu por várias vezes, relatos dos arqueólogos Alberto Ruz e Jorge Acosta referente as grandes descobertas no Templo XIII e no Templo das Inscrições no período compreendido entre as décadas de 50 e 70.

“Não entendi como é que foi possível eles me terem deixado tal presente, o que na verdade não me desagradou nem um pouco”, disse Fanny na época.

Ela já havia tomado conhecimento das mulheres que cercavam a vida do rei Pacal. Sabia que a localização do sarcófago encontrado no Templo XIII ficava ao lado do Templo das Inscrições, perto do rio Usumacinta, em Chiapas. Este fato era uma comprovação de que a mulher ali sepultava só podia se tratar de alguém do alto escalão dos Maias. Certamente não poderiam ser a avó, a mãe ou a nora que estavam sepultadas naquele na tumba, só podia ser a esposa de Pacal, mãe de seus dois filhos, K’inich Kan Bahlam II que o sucedeu no reinado e K’inich K’an Joy Chitam II que reinou por aproximados 10 anos em Palenque.


 As desconfianças da arqueóloga foram corroboradas após os exames de DNA feitas pelo arqueólogo Carney Matheson da Universidade de LakeHead, em Ontário, cujo as conclusões apontavam que não haviam relação de parentesco entre Pacal e a mulher encontrada naquele sarcófago. Assim descartou-se a possibilidade de ali está sepultada a avó ou a mãe do referido rei. Mas, ainda não se podia afirmar que se tratava de sua esposa, a rainha e mãe de seus filhos Tz’aakb’u ahau. Os exames feitos nos cadáveres encontrados ao lado do túmulo da “Rainha Vermelha”, concluíram que a mulher sacrificada tinha entre 20 e 30 anos e que foi vítima do ritual macabro dos Maias entre os anos de 620 e 680. Estas datas são correspondentes ao tempo em que viveu a “Rainha Vermelha”.

Resta ainda uma esperança para revelar ou consolidar a identidade verdadeira da referida rainha. Esta esperança será concluída com exames de DNA entre o cadáver da esposa de Pacal (Rainha Vermelha) com os cadáveres de seus filhos, porém, quando seus túmulos forem encontrados. Certamente estão em solo mexicano esperando pela curiosidade, visão e mãos de um incansável arqueólogo ou arqueóloga. Só o tempo nos informará quem foi ou quem é “A Rainha Vermelha”.

 

 

Fontes: Bbc News Brasil, zap, INAH

Fotos: Instituto Nacional de Antropologia e História - México 

Pesquisas e Texto:

Renato Galvão

Artista Plástico

Escritor, Poeta

e Colunista do JA
 

 

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