Nínive - Guerras, Violência e Memória Cultural.


Nínive - Reprodução
Nínive, a cidade bela

Nínive era uma cidade excessivamente grande, localizada na margem oriental do rio Tigre, na antiga Assíria, um grande amontoado de vários vilarejos ao longo do Rio Tigre. Atualmente, onde ficava, existe a cidade moderna de Mossul no Iraque. Os montículos antigos de Nínive estão localizados num nível da planície perto da confluência do rio Tigre e Khosr (afluente do rio Tigre) com uma área de 1800 acres cercada por uma muralha de 12 quilômetros. Esse espaço extensivo inteiro é hoje uma imensa área de ruínas sobreposta em partes pelos novos subúrbios da cidade de Mossul. Nínive era uma cidade importante para as rotas comerciais cruzando o Tigre. Ocupava uma posição central entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Índico, unia, por sua localização, o comercio do Oriente e do Ocidente. Seus portões recebiam as riquezas oriundas de várias cidades e assim, tornou-se uma das maiores cidades daquela região.

História e fundação

A cidade de Nínive. Reprodução
Ilustração moderna do site Archaeology Illustrated
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Há escritos do período helenístico e posteriores que atribuem a fundação de Nínive ao rei Ninus. Aparentemente Ninus era Ninrode, personagem bíblico descrito como o primeiro poderoso na Terra. Era filho de Cuxe, neto de Cam e bisneto de Noé. Pompeu (político e militar romano) dizia que “... Ninus, rei da Assíria, mudou as antigas maneiras moderadas de vida pelo desejo de conquistar. Ele (Ninus) foi o primeiro que fez guerra contra seus vizinhos...”. O historiador grego Diodorus refere-se a Ninus como “... o mais antigo dos reis Assírios...”. Foi Ninus quem criou as táticas de guerras deixando aos reis posteriores Assírios seu legado para que estes aperfeiçoassem. No século XVIII a. C. foi mencionada como centro de adoração da deusa Ishtar, culto que foi o responsável por transformar Nínive em uma cidade importante e famosa. Mais tarde, a estátua da deusa, por ordem expressa do rei Mitani, foi enviada ao faraó Amenófis III do Egito no século XIV a.C. Naquela época, Nínive havia se transformado em vassala do reino de Mitani que durou até meados do século XIV a.C. logo depois Nínive foi capturada pelos reis assírios originários de Assur.


Guardiões dos Portões de Nínive - Reprodução
Não há evidência que comprovem que monarcas assírios tenham construído o que quer que seja em Nínive durante o segundo milênio a.C. Os registros apontam que antes dos reis Salamanaser I e Tiglate-Pileser I, nada foi acrescentado ou construído em Nínive. Somente após a ascensão desses dois que verificou-se construções e expansões dentro e fora do espaço ocupado pela bela cidade. Salamanaser I e Tiglate-Pileser I eram construtores ativos em Assur e o segundo construiu Calah Numrud (a Kalakn bíblica) entre o rio Tigre e as Cordilheiras de Zagros e deu-lhe o status de Capital do Império Assírio. Somente com a chegada dos reis neo-assírios, principalmente Assurbanipal, Nínive registra uma considerável expansão. Desta forma, sucessivos monarcas posteriores construíram novos palácios e templos para os deuses Sin, Nergal, Shamash, Nabu e para deusa Ishtar. 


Palácio de Senaqueribe I em Nínive
Na realidade, Nínive, tornou-se uma cidade admirável no governo de Senaqueribe I por volta de 700 a. C. Foram construídas novas estradas, quadras, parques e o famoso “Palácio sem Rival”. Tal palácio fora edificado ocupando aproximadamente 500 metros de dimensões com 22 metros de altura dotado de 80 salas com esculturas e uma grande quantidade de tabuletas de argila contendo escrita em caracteres cuneiformes. 160 milhões de tijolos foram utilizados nesta construção sem contar os blocos de calcário. Suas principais entradas eram decoradas por imensas figuras de pedra em portas que pesavam umas 3 toneladas e se faziam notar majestosamente entre elas leões alados e touros com cabeça de homem. 
Existiam também 3000 metros de painéis de pedra entalhados em baixo relevo, que incluíam registros pictóricos documentando cada passo da construção, incluindo o entalhe das estátuas. A grande maioria de tais estatuas pesavam entre 9 a 27 toneladas. Compunham o acervo do palácio construído por Senaqueribe, esculturas de pedra nas paredes mostrando cenas de batalhas, empalhamentos (Empalhamento: método de tortura e execução) e cenas de seu exército mostrando os despojos de guerra. Neste tempo a cidade de Nínive tinha uma área total de aproximadamente 7 km e 15 portões grandes para adentrar as suas muralhas e um sistema com 18 canais que abastecia a cidade com água das colinas próximas. As várias sessões de aquedutos erigidos pelo rei Senaqueribe foram descobertos recentemente em Jerwan, cidade distante 65 km de Nínive. Chama atenção a magnificência da obra e as escritas cuneiformes mandadas entalhar nos blocos que formam os canais. Em Nínive vivia aproximadamente de 100 a 150 mil habitantes, população três vezes maior do que a da Babilônia, dando-lhe a projeção de umas das cidades mais populosos da época.  


O declínio

Ruínas das Muralhas de Nínive - Reprodução
A grandeza de Nínive teve uma duração pequena. No ano 633 a.C. o império Assírio já dava mostras de seu declínio e Nínive foi a principal vítima deste declínio. A primeira investida contra Nínive foi em 625 a.C. organizada pelos Medos, depois este mesmo povo aliou-se aos caldeus e sussianos, promovendo uma nova investida em 612 a.C. Nínive foi arrasada até o chão, nenhuma de suas belezas ficaram em pé. Seu povo foi massacrado ou expulso. O Império Assírio acabou, Medos e Babilônios dividiram suas províncias entre si.




Escavações em Nínive - Reprodução
A destruição de Nínive trouxe a desolação para o local permanecendo desocupado por séculos até o Império Sassânida ocupá-lo. Em 627 a. C., Nínive volta a ser notícia devido a um combate entre o Império Sassânida e o Império Romano do Oriente que fora travado nas proximidades da antiga cidade. Desde a conquista árabe em 637 a. C até os tempos atuais, coube a cidade de Mossul (Iraque) na margem oposta do rio Tigre se tornar a herdeira do local onde ficava situada a antiga cidade de Nínive. Escavações arqueológicas encontraram muitos esqueletos que não foram enterrados, testemunhas das batalhas que se sucederam a destruição de uma das mais belas cidades do mundo antigo.




Ilustração do palácio assírio com base em escavações.
(Coleções digitais da biblioteca pública de Nova York - CC BYND 4.0) - Divulgação


Rei Neo assírio Assurbanípal

Assurpanípal - Reprodução 
Assurbanipal foi o último grande rei da Assíria. No seu reinado (668/627 a.C.), o Império Neo-assírios incluía a Babilônia e por um pequeno período dominou o Egito. Assaradão (713/669 a.C), pouco antes de morrer, entregou aos filhos dois reinos. Para Assurbanipal a Assíria e para Samassumauquim a Babilônia. Assurbanipal ocupou o trono e foi logo tratando de organizar sua primeira campanha militar contra o Egito. Seu exército penetrou o Egito até Mênfis e Tebas. Mas Assurbanipal tinha um problema familiar para resolver. O irmão, Samassumauquim, que não havia concordado com herança do pai, pois queria o reino assírio, resolveu rebelar-se, contando com ajuda de chefes babilônios e árabes, declarando guerra ao seu próprio irmão. Assurbanipal era um cara muito inteligente e ávido pelo conhecimento. Havia estudado sobre reis e povos antigos, principalmente sobre Ninus e sua tática de guerra. O rei assírio, transmitiu e treinou seu exército as táticas estudadas e aperfeiçoou, criando uma verdadeira “máquina de guerra” humana. O exército assírio era muito temido na região, principalmente por não fazer prisioneiro e de utilizar métodos de torturas para que seus inimigos sofressem até a morte. Depois de esgotadas as negociações, Assurbanipal mandou seu exército cercar a Babilônia. Soldados babilônios investiram contra os assírios, mas não tiveram êxito. Os aliados de Samassumauquim e seu exercito dispersaram deixando-o em maus lenções diante do inimigo. Numa atitude desesperada ou talvez para evitar que seu irmão se apossasse do reino que ele havia renegado, o rei da Babilônia, incendiou seu palácio encontrando a morte ali mesmo. 
Ruínas das Muralhas de Nínive - Reprodução
Resolvidos problemas familiares, Assurbanipal apontou a direção de seu exército para o reino do Elão, devastando toda a região, saqueando sua capital, templos e profanando túmulos. A família real do Elão foi executada sumariamente, riscando o reino do Elão definitivamente do mapa histórico.  

No auge do Império Assírio de 640 a 626 a.C que Assurbanipal encontrou a morte (626 a.C). Os filhos Assuretililani e Sinsariscum o sucederam, mas muito pouco se sabe sobre esses dois, porém foi nos reinados deles que a Assíria perdeu todo seu prestígio e poder.


A Biblioteca de Nínive

Biblioteca de Nínive com todas as
escrituras no Museu Britânico
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A Biblioteca de Nínive ou Biblioteca de Assurbanipal, continha uma coleção de milhares de tabuletas em argila, papiros e outros, contendo textos em escrita cuneiforme sobre vários assuntos. Lá se encontrou a famosa Epopeia de Gilgamez. Apesar do tempo, a Biblioteca de Nínive ainda é considerada a primeira de toda a nossa história, foi encontrada em 1849 pelo arqueólogo britânico Sir Austen Henry Layard (1817-1894) e fundada pelo assírio Assurbanipal no século VII a.C.




Acervo

Representação moderna da Biblioteca de Nínive
Autor Desconhecido
Foi encontrado em seu acervo uma coleção com mais de 22 mil tabuletas de argila, contendo textos em escrita cuneiforme, alguns escritos nas línguas suméria e acádia. Há nestes textos registros sobre geografia, matemática, astrologia, medicina, religião, leis e até manuais de exorcismo como também pressagio e relatos de aventuras.

Infelizmente, Devido à manipulação descuidada do material original, muito do acervo da biblioteca está irremediavelmente confuso, o que torna impossível para os estudiosos o discernimento e a reconstrução de muitos dos textos originais, embora algumas placas tenham sobrevivido intactas. Registros
do Museu Britânico apontam 30.943 tabuletas de argila em toda a coleção da Biblioteca de Nínive.

Se todos os fragmentos menores, que na verdade pertencem ao mesmo texto, fossem reunidos adequadamente, provavelmente a biblioteca poderia chegar à contagem de 10.000 textos originais. Os documentos da biblioteca original, incluem também rolos de couro, placas de cera e até papiros, podendo conter, talvez, um volume muito maior do conhecimento do que foi avaliado a partir dos textos de barro sobreviventes nas tábuas cuneiformes.



Foto - Divulgação

Cultura

Os achados arqueológicos na Biblioteca de Nínive, mostrou-nos que as civilizações mesopotâmicas tinham grande devoção pela escrita, haja visto que possuíam escolas para os chamados escribas, que gozavam de grande prestígio social. Os babilônios costumavam dizer que “a escrita é a mãe da eloquência e o pai dos artistas”.

As três mais importantes obras literária da Mesopotâmia são a Epopeia de Gilgamez que conta a histórias do rei da cidade de Uruk e sua busca pela imortalidade, o Enuma Elish, o conto da criação do mundo e The Erra Epos que trata de uma conversa entre dois deuses com um querendo colocar a culpa no outro devido suas ações ter levado o desaparecimento do povo chamado de “cabeças negras”, epíteto dos Sumérios. Aliás todas estas obras foram escritas na Suméria. Ainda há textos que revelam a criação de Adapa, o primeiro homem criado na Terra e outras como a intitulada “Pobre Homem de Nippur”, uma das cidades sumérias. 

O fato é que se Assurbanipal não tivesse esse afã pela leitura e conhecimento de outras culturas, se não tivesse criado a Biblioteca de Nínive, dificilmente íamos descobrir civilizações como a dos sumérios e outras que foram catalogadas, traduzidos e escritos em outros idiomas sem deixar de conservar os originais.

Um breve histórico

O soberano da Assíria, Assurbanipal, era um grande interessado por literatura. Isso fica evidente quando ele ocupa o trono após a consolidação de seu reinado. Então, ele volta toda sua atenção em saciar seu apetite por cultura. Mandou seus escribas para Assur, Babilônia, Cuta, Nippur, Acade, Erech e outras tantas cidades, para que estes recolhessem ou copiassem todo e qualquer documento escrito em tabuletas de argila, couro, pergaminho e outros, sobre quaisquer assuntos correntes da época ou não. O material recolhido, e não era pouco, foram trazidos ao seu palácio em Nínive, onde ele ávido, imediatamente, os estudou. Acrescentou copias bilíngues em copias em argila na escritura cuneiforme e logo depois catalogadas por assuntos e arquivadas em sua biblioteca. Assurbanipal era conhecido por ser um homem inteligente e estudioso, mas era muito cruel com seus inimigos. Ele chegou a usar de ameaças para obter materiais literários para sua biblioteca.

Alexandre, o grande quando conheceu a Biblioteca de Nínive ficou de queixo caído e incentivado pelo que via, inspirou-se a escrever sua biografia, mas o grande guerreiro morreu antes de dar asas a sua inspiração. Porém, Ptolomeu, amigo e sucessor de Alexandre, supervisionou o inicio da construção da Biblioteca de Alexandria, intento, muito provável, influenciado pela Biblioteca de Nínive.

Apesar de Nínive ser totalmente destruída em 612 a.C, o grande incêndio que destruiu o palácio devastando a biblioteca, acabou contribuindo para conservar as tabuletas de argila, pois estas foram cozidas pelo calor e chamas do referido incêndio. Infelizmente este não foi o mesmo destino de outros materiais composto por outras matérias prima, tais como couro e placas de cera. Mas, o que foi conservado, e não foi pouco, já nos foi de grande valia.

Em meio a violência e táticas cruéis de guerra criada e transmitida por Ninus, fundador de Nínive, surgiu o desejo pela cultura, onde criou-se uma biblioteca para que esta nos deixasse uma memória cultural mostrando-nos o dia a dia e acontecimentos que se sucederam naquelas épocas. Infelizmente o que o homem constrói com uma mão, destrói com as duas e Nínive foi mais uma testemunha do avassalador poder de destruição do homem.

 

Fontes:

Um vídeo veiculado pelo site "debabilônia.info", mostra uma concepção em 3D de como era a cidade de Nínive. Vale apena conferir a matéria e ver este vídeo. Vocês vão se apaixonar...

Site: https://debabilonia.info/ninive/ 

Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=XzFySIllqk8&feature=emb_title


http://eueabibliaponderandoosfatos.blogspot.com/2014/10/a-linda-cidade-de-ninive.html

https://www.google.com/search?q=Palacio+sem+rival+ass%C3%ADrio&tbm=isch&ved=2ahUKEwiKkPjSvvjtAhWNAbkGHbaOBVgQ2-cCegQIABAA&oq=Palacio+sem+rival+ass%C3%ADrio&gs_lcp=CgNpbWcQDFCarQRY3sMEYPLTBGgAcAB4AIABygGIAcsIkgEFMi41LjGYAQCgAQGqAQtnd3Mtd2l6LWltZ8ABAQ&sclient=img&ei=EujtX4q_BY2D5OUPtp2WwAU&bih=640&biw=1350

https://pt.wikipedia.org/wiki/Assurban%C3%ADpal

https://pt.wikipedia.org/wiki/Biblioteca_de_N%C3%ADnive

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ninrude

https://en.wikipedia.org/wiki/Diodorus_Siculus

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pompeu

https://www.wikiwand.com/pt/N%C3%ADnive

http://lounge.obviousmag.org/matchbox/2012/09/o-tesouro-dos-assirios.html

https://www.thinglink.com/scene/754347879459454978

http://terrarara.com.br/terrarara/geofisica/atmosfera/surgem-evidencias-de-que-uma-antiga-superpotencia-politica-falhou-devido-a-mudanca-climatica/


 

 


 





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