A Revitalização em Teresópolis é a Construção de Uma Cidade Delirante


A Revitalização em Teresópolis é a Construção de Uma Cidade Delirante.


Por Marcos de Oliveira Silveira 


Texto originalmente produzido para o Coletivo Ponto de Luz  - estando o mesmo alinhado e respaldado pelo Movimento pelos Povos Originários e pelo Fórum Municipal de Cultura.

 Email: marcosolivsilv@outlook.com



O “Terê Tão Bela” é anunciado como uma política de transformação urbana que busca resgatar a identidade e o sentimento de pertencimento do teresopolitano. Para isso, o programa é dividido em seis eixos de ação, sendo o “Renova Terê” e o “Revitaliza Terê” os mais voltados para a transformação do espaço urbano. Enquanto o primeiro busca readequar a paisagem através do resgate visual de uma suposta identidade inglesa, o projeto "Revitaliza Terê" tem como proposta “(…) ações relacionadas ao redesenho urbano, à recuperação da paisagem e às intervenções (…)” no que se refere ao mobiliário urbano da cidade [1].


Uma das definições mais comuns de revitalização se refere ao processo de dar nova vida a algo ou alguém. No entanto, na perspectiva científica, o Doutor em Geografia pela UNICAMP, Marcelo Antonio Sotratti, escreve para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) que o termo gerou grandes discussões no Brasil. Sotratti nos lembra que a “(…) revitalização claramente sugere uma conotação de exclusão dos usos e de grupos sociais que ocupavam tais áreas antes da implantação dessa estratégia”.


No entanto, diante das diferentes conotações que a revitalização pode assumir, Sotratti destaca que o termo geralmente ganha o sentido da refuncionalização dos espaços urbanos quando está associado a estratégias de planejamento. Por sua vez, a refuncionalização “(…) consiste no processo de transformação de funções de elementos arquitetônicos de um determinado processo histórico pretérito” [2]. Como vimos no primeiro parágrafo, a revitalização em Teresópolis está atrelada a uma política de planejamento, portanto, podemos compreendê-la sob o ponto de vista da refuncionalização.


Ao contrário do que se possa imaginar, este processo não ocorre de forma verdadeiramente democrática, já que não é possível desvincular o caráter desigual do atual modelo de planejamento urbano brasileiro. Segundo Fernanda Sánchez, autora do livro “A Reinvenção das Cidades para um Mercado Mundial”, 1- os espaços capturados pelas relações de produção capitalista são destinados ao consumo através da reestruturação urbana que pode ocorrer através de operações vinculadas ao turismo ou ao lazer. Em outras palavras, a cidade paulatinamente se torna um produto a ser consumido.

Dentre as diferentes formas que a reestruturação urbana pode assumir, Sánchez destaca que quando o urbano e a arquitetura são voltados ao espetáculo, o consumo transitório dos espaços pode chegar ao extremo de transformá-los em “(…) clichês superficiais de uma ideia de cidade”. Assim, se a cidade é usada como mercadoria, ela passa a ser vendida através de uma tática de marketing que “(…) vende a revitalização, a face pública da gentrificação, como renascimento da cidade, como capaz de trazer benefícios para todos os habitantes da cidade, sem diferenciação de classe” 

[3].Este processo de revitalização perverso que se apresenta de forma mistificada tem alguns de seus aspectos negativos ressaltados pela geógrafa Ana Fani: “Assim, a revitalização é, antes de mais nada, um processo de revalorização do solo urbano que muda o uso do espaço pela imposição do valor de troca, expulsando aquele que não está apto a pagar por ele […] em que a demolição dos lugares familiares para a produção de novas formas urbanas se realiza aprofundando a segregação […] também produz a assepsia dos lugares, pois o ‘degradado’ é sempre o que aparece na paisagem como o pobre, o sujo, o feio, exigindo sua substituição pelo rico, limpo, bonito; características que não condizem com a pobreza” [4]. Ou seja, a revitalização é um processo que tende a mercantilizar os lugares resultando na exclusão social e aprofundamento das desigualdades.

Em Teresópolis este processo ainda possui uma peculiaridade, pois ao contrário do que é anunciado, não existe o resgate da identidade e do pertencimento da população local. O programa privilegia supostos colonizadores ingleses, promovendo o apagamento do protagonismo das populações pretas, indígenas e de outros grupos na formação socioespacial do município. Ainda, a falta de identificação dos teresopolitanos com o programa fica 2 evidente com as recentes manifestações da população e contestações de grupos e associações como o Movimento Popular pelos Povos Originários, grupo que surgiu a partir do Fórum Municipal de Cultura, o Coletivo Ponto de Luz e o Planeja Terê. Além disso, o Conselho Municipal de Políticas Culturais deliberou que o evento festivo nomeado "InglaSerra" não deve ser atrelado à identidade de Teresópolis por entender o caráter cultural multifacetado da formação do município [5].

Desta forma, podemos destacar que o programa “Terê Tão Bela” possui uma face mistificada. O verdadeiro objetivo é reforçar o consumo capitalista do espaço urbano através do turismo que, por sua vez, é orientado a afirmar uma “origem europeia” diante de um contexto regional em que Teresópolis possui maior dificuldade para assumir esta identidade em comparação com os municípios vizinhos – Petrópolis e Nova Friburgo. Assim, além das consequências estruturais que a revitalização impõe, em Teresópolis o processo já nasce como uma fábula que resultará em uma cidade delirante – ou seja, apartada da realidade da própria população.

Teresópolis é um município centenário e completará 131 anos no próximo aniversário. É preciso lembrar, no entanto, que a história deste lugar começou muito antes dele ser concebido como município. Os caminhos para além do Dedo de Deus foram primeiramente traçados pelos povos originários, e posteriormente, muito do que foi construído deu-se graças à força dos trabalhadores escravizados. Assim como o Brasil, e ainda que sob muitas injustiças, a nossa cidade nasceu da diversidade e não apenas da branquitude. Por estes motivos, não é possível permitir uma revitalização que substitua este passado legítimo por uma tara eurocêntrica, uma visão delirante que prefere buscar qualidades em outra nação a olhar para as que estão presentes no seio do seu próprio povo. No fim das contas, valorizar a nossa raiz tipicamente brasileira seria, na realidade, o nosso verdadeiro diferencial turístico. Referências:

[1] PMT. Terê Tão Bela: Identidade e Pertencimento (Programa). 2022. Disponível em: https://teresopolis.rj.gov.br/teretaobela/. Acessado em: 28 mai. 2022.

[2] SOTRATTI, Marcelo Antônio. Revitalização. In: REZENDE, Maria Beatriz; GRIECO, Bettina; TEIXEIRA, Luciano; THOMPSON, Analucia (Orgs.). Dicionário IPHAN de Patrimônio Cultural. Rio de Janeiro, Brasília: IPHAN/DAF/Copedoc, 2015. (verbete). ISBN 978-85-7334-279-6.

[3] SÁNCHEZ, F. A reinvenção das cidades para um mercado mundial. Chapecó: Argos, 2003. (p. 46, 497, 490).

[4] FANI, Ana. O Espaço Urbano: Novos Escritos Sobre a Cidade. São Paulo: FFLCH, 2007. (p. 89).

[5] Fórum de Cultura de Teresópolis (Facebook). Conselho Municipal de Políticas Culturais de Teresópolis se manifesta sobre o Inglaserra. 2022. Disponível em: https://www.facebook.com/photo/?fbid=436021738535454&set=a.386284320175863. Acessado em: 15 jun. 2022.


Por Marcos de Oliveira Silveira 


Texto originalmente produzido para o Coletivo Ponto de Luz  - estando o mesmo alinhado e respaldado pelo Movimento pelos Povos Originários e pelo Fórum Municipal de Cultura.

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