O Poço da Saudade – Melancolia sem fim da falta de alguém, que não tem fim. - Clayton Zocarato
Há
uma ausência que não se pode nomear, um vazio tão vasto e profundo que consome
tudo o que antes era inteiro, como uma chama lenta e incansável que arde no
âmago do ser.
Aquele que ama, quando perde o objeto de seu
amor, não apenas sente a falta — ele se torna falta. Torna-se um fragmento
disperso na vastidão do tempo, uma sombra que vagueia em busca de um eco que
não mais ressoa.
A saudade é esse monstro invisível
que devora silenciosamente, transcendendo a razão e dilacerando a alma em sua
mais pura essência.
Não há lógica que sustente a dor;
ela escapa às leis do entendimento e se instala como um fantasma inapelável. E
é nesse espaço entre a razão e o desespero que habita o ser dilacerado pelo
amor perdido.
Ele, um espectro do que foi,
senta-se à beira do abismo que a ausência criou dentro de si.
Cada lembrança é uma flecha doce e
amarga que atravessa seu peito, e o ar que respira pesa como uma sentença de
tormento eterno.
Não há consolo na memória, pois
mesmo as imagens mais belas carregam o veneno da separação, e, assim, o passado
se transforma em uma prisão dourada, cujas paredes são feitas da própria
nostalgia.
Não é a perda do outro que mais o
fere, mas a impossibilidade de escapar daquela dor que parece fundar a própria
existência.
A mente tenta fugir, ergue muros de
racionalidade, mas a alma, indomável e ferida, insiste em dilacerar esses
limites. A saudade não é simples ausência: é um ser voraz que habita o
silêncio, sussurrando verdades que ninguém deseja ouvir.
Ele se pergunta, noite após noite,
se é possível amar sem sucumbir a essa ruína interior. A dor torna-se quase
tangível, um peso que aprisiona o coração numa rede invisível.
A cada batida, a lembrança revive, e
o sentimento de estar incompleto se transforma em seu único estado permanente.
É como se o amor tivesse se metamorfoseado em uma fera que, devorando seu
próprio alimento, consome a própria essência do que ama.
No íntimo desse sofrimento, a
filosofia sussurra suas verdades trágicas: o amor, em sua forma mais pura, é o
encontro com o infinito, e a perda, o confronto com a finitude de tudo que é
humano.
É um paradoxo cruel, pois amar profundamente é
aceitar a possibilidade da dor mais aguda, e talvez essa dor seja a prova
definitiva de que o amor existiu, mesmo que agora reste apenas a sombra dele.
Ele reconhece que a saudade não tem
forma nem nome; é uma força que transcende a carne, que não se limita aos
sentidos. Está impregnada na própria estrutura do ser, como uma cicatriz que
nunca fecha, um ferimento aberto que pulsa com a passagem do tempo. E nesse
pulsar incessante, o ser se dissolve entre o desejo de esquecer e a
impossibilidade de deixar partir.
O mundo segue indiferente ao seu
tormento.
Pessoas caminham apressadas, vozes
se perdem no vento, e ele permanece ali, preso ao seu silêncio melancólico,
onde a saudade não é apenas lembrança, mas uma presença constante, quase um
companheiro de existência.
É um amor que transcendeu o encontro
físico e se tornou um estado do ser, uma espécie de transcendência trágica que
ele não consegue abandonar.
No entanto, há uma beleza triste
nessa condenação.
Porque amar assim, ainda que seja
sofrimento, é testemunhar a profundidade do que significa ser humano.
É abraçar a fragilidade e a eternidade num só
instante, é aceitar que o vazio pode ser tão vasto quanto o céu, e que mesmo o
mais devastador dos abandonos contém um eco de esperança.
Ele permanece, então, envolto nessa
atmosfera de saudade e de devoção interna, um ser que perdeu seu equilíbrio,
que navega sem bússola em mares de desolação.
E, ao final, compreende que talvez a
única forma de sobreviver a esse amor seja aceitar sua inevitabilidade,
permitindo que a tristeza, em sua infinita melodia, continue a tocar como um
canto fúnebre e doce dentro de si.
Porque, afinal, não há outro modo de
amar profundamente senão aquele que, um dia, nos destrói para nos reconstruir
em novas formas de sentir, de ser e de existir — mesmo que, por vezes, isso
seja apenas o eco silencioso de uma saudade que devora o ser.
O silêncio que lhe envolve é mais
que ausência de som: é a densidade de um espaço onde se acumulam as partículas
da solidão, tornando cada instante um fardo quase insuportável.
Ele percebe, com uma lucidez
dolorosa, que o vazio dentro de si não é simplesmente a falta do outro — é o
esgarçamento da própria alma. A saudade, então, não é uma emoção passageira, um
suspiro fugaz.
É uma entidade viva, que respira
dentro dele, que cresce e se multiplica, corroendo o âmago de seu ser com uma
lentidão quase cruel.
Cada pensamento sobre o que foi e o
que poderia ter sido, é como uma chuva fina e constante, molhando a pele com
lágrimas invisíveis que não encontram descanso. E nesses momentos, ele se confronta com a mais profunda
das verdades: a ausência não se preenche, ela apenas se torna parte de quem ele
é, uma sombra eterna que o acompanha mesmo quando a mente tenta se distrair,
mesmo quando o corpo se cansa de esperar.
A mente, tentando se salvar desse
mar revolto de emoções, constrói muralhas de racionalidade.
Ele tenta entender, analisar, encaixar o
sofrimento em categorias lógicas — afinal, a razão sempre foi seu porto seguro.
Mas o que é a razão diante do desespero? É
uma vela pequena e trêmula que mal consegue iluminar a vastidão negra da
saudade. E, então, ele sente a inevitável derrota do intelecto diante da
voracidade do coração.
O coração, esse órgão que pulsa como
um tambor de guerra e de festa, agora bate no ritmo lento e constante da dor. E
essa dor, tão profunda quanto antiga, não é mera reação — é um estado
ontológico.
Ele não é mais simplesmente alguém que sofre;
tornou-se o próprio sofrimento personificado. A ausência do outro se
cristalizou dentro dele, tornando-se uma presença mais concreta do que a
própria realidade tangível.
No silêncio das noites
intermináveis, quando o mundo adormece e resta apenas a respiração
intermitente, ele mergulha nas águas turvas da memória. Relembra o riso, o
toque, o olhar que um dia incendiaram seu universo. São imagens que queimam,
tão doces e amargas quanto a fruta proibida.
Ele sabe que essas lembranças não são refúgio,
mas cárcere. E, ainda assim, não consegue libertar-se delas.
O paradoxo é cruel: desejar esquecer
para não sofrer e, ao mesmo tempo, não conseguir deixar de alimentar aquela
saudade que é como um vício.
É como se cada tentativa de afastar
a dor a fortalecesse, tornando-a mais pungente, mais intensa. É uma guerra
interna que o esgota, um ciclo que não se rompe, uma espiral descendente para
um abismo sem fundo.
E é nesse abismo que ele percebe a
essência da condição humana. Somos todos, em algum momento, reféns desse
sentimento que não se explica nem se controla.
Amar é abrir uma ferida profunda, e a saudade
é o sangue que escorre, constante e implacável.
Não há cura nem remédio que apague a
cicatriz; só resta aprender a viver com ela, transformando o sofrimento em uma
espécie de conhecimento que transcende o superficial.
Ele compreende, então, que a saudade
é também uma forma de resistência — a prova de que aquilo que foi amado, por
mais que tenha partido, continua a existir em algum lugar dentro de nós.
É um elo invisível, uma ponte feita
de memórias e emoções que desafia o tempo e a ausência física. É, talvez, a
mais pura expressão da imortalidade do amor.
Mas essa imortalidade não vem sem
preço. Ela cobra um tributo amargo, que é a fragmentação do ser. Ele sente que
está diluído, como se partes de si se perdessem no éter da lembrança, enquanto
outras se arrastam na escuridão da solidão.
E nesse estado limítrofe entre o ser
e o nada, a tristeza se transforma em melodia, uma canção lenta e hipnótica que
embala sua alma inquieta.
E assim, ele permanece, prisioneiro
de sua própria essência, navegando pelas correntes tortuosas da saudade que o
devora. Não há esperança de cura, nem promessa de esquecimento. O que resta é
apenas o convite silencioso para aceitar a dor como parte do amor, como seu
preço inevitável e sagrado.
Porque, no fim das contas, amar é
isso: permitir que o outro nos destrua e, paradoxalmente, nos faça eternos.
E mesmo que essa eternidade seja feita de
saudade, de um vazio que nunca se preenche, ela é a prova definitiva de que, em
algum momento, fomos completos — e que, mesmo na ausência, continuamos a se ao
menos, um ser que ama e sofre.
Possui graduação em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista (2005) - Unicep - São Carlos - SP, graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (2016) - Ceuclar - Campus de São José do Rio Preto – SP, Técnico em Comércio Exterior pelas Faculdades Eficaz, e atualmente cursa Serviços Jurídicos e Notoriais na Unimar. Escrevo regularmente para o site www.recantodasletras.com.br usando o pseudônimo ZACCAZ, mesclando poesia surrealista, com haikais e aldravias..Formado Especialista em Medina y Arte com ênfase em Gilles Deleuze e Equizoanálise onde é também pesquisador do Centro de Medicina y Arte de Rosário – Argentina, sendo o primeiro brasileiro a atuas nesse centro de pesquisa. Especialista em Ensino pela Ufscar, especialista em Psicopedagogia Institucional pela Fundepe – Unesp, Especialista em História da África pela Faculdade de Minas Gerais.
· Email: claytonalexandrezocarato@yahoo.com.br
· Instagram: Clayton.Zocarato
· Facebook: https://www.facebook.com/clayton.zocarato/
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