Quando a Noite Chama Teu Nome - Por Clayton Zocarato
Quando a Noite Chama Teu Nome
Conto saudosista filosófico baseado na canção
do grupo Survivor The Search Is Over de
1984.
Havia algo nos anos 1980 que parecia
eterno — talvez fosse o som metálico das guitarras ecoando nos rádios de pilha,
talvez o brilho imperfeito das luzes de neon refletidas nas poças depois da
chuva, ou talvez fosse apenas a forma como o coração adolescente acreditava que
tudo, absolutamente tudo, podia durar para sempre.
Eu não sabia na época, mas era ali, entre
fitas cassete rebobinadas com caneta e tardes preguiçosas de domingo, que você
se tornaria a minha busca infinita — e também o meu nunca.
A primeira vez que ouvi aquela
música, senti algo diferente. Não era só melodia, era como se alguém tivesse
traduzido em som aquilo que eu ainda não sabia dizer. Falava de procurar sem saber exatamente o quê, de andar em
círculos emocionais até perceber que aquilo que sempre buscamos talvez já
estivesse diante de nós. Mas a juventude tem pressa — e a pressa não enxerga o
essencial.
Você estava encostada no muro da
escola, o vento brincando com seu cabelo como se já soubesse que ali havia
poesia. Eu, fingindo desinteresse, carregava dentro do peito um turbilhão de
perguntas que jamais tive coragem de fazer.
Nosso amor começou assim: sem começo
claro, sem declaração, sem promessa. Apenas
aconteceu — como uma música que começa antes mesmo de percebermos que estamos
ouvindo.
Havia tardes em que caminhávamos sem
destino, falando sobre qualquer coisa que evitasse o assunto principal: nós. E,
ainda assim, tudo nos levava de volta ao mesmo ponto.
Era como se estivéssemos em uma
jornada silenciosa, uma busca compartilhada, onde cada gesto dizia mais que
qualquer palavra.
Eu me lembro de pensar, mesmo sem
compreender totalmente, que havia encontrado algo — ou alguém — que dava
sentido à inquietação que sempre me acompanhou.
Mas o tempo, esse escultor
invisível, não molda apenas memórias bonitas. Ele também afasta, transforma,
distorce.
E nós, tão jovens, acreditávamos que
sentimentos eram suficientes para sustentar o mundo. Não eram. Nunca foram.
A despedida não teve dramaticidade.
Não houveram lágrimas cinematográficas nem promessas desesperadas. Apenas o
afastamento gradual, como uma estação de rádio que vai perdendo o sinal. Um dia
você ainda estava ali; no outro, já era lembrança.
E eu fiquei — não exatamente
esperando, mas também incapaz de seguir plenamente.
Foi então que a música voltou.
Dessa vez, ela soava diferente. Já
não era apenas sobre encontrar algo, mas sobre reconhecer que a busca pode ser
uma ilusão persistente. Que às vezes caminhamos tanto, olhamos para tantos
horizontes, apenas para descobrir
que aquilo que procurávamos estava em um momento que deixamos escapar.
Havia uma espécie de revelação
silenciosa na melodia, como se dissesse: o fim da busca não é vitória — é
consciência.
E eu entendi, tarde demais.
As noites começaram a mudar depois
disso. Existe uma saudade específica que só chega quando o mundo desacelera,
quando o silêncio se instala como um visitante inevitável.
É nesse momento que a memória ganha voz. E a
sua voz, mesmo anos depois, ainda encontra caminhos para me alcançar.
A saudade da noite não é apenas
lembrança — é presença ausente. É sentir você em tudo que não está mais aqui.
No som distante de uma música antiga, no cheiro da chuva no asfalto, na forma
como certas palavras ainda carregam ecos seus. É como se o passado se recusasse
a ser apenas passado.
E, curiosamente, nunca deixei de
procurar.
Mas a busca mudou de significado. Já
não era mais sobre encontrar você fisicamente, cruzar uma esquina qualquer e
reviver o que fomos. Tornou-se algo mais sutil, mais filosófico.
Passei a procurar você nas ideias,
nas sensações, nos fragmentos de mim mesmo que só existiram porque você esteve
ali um dia.
Houveram outras pessoas, claro!
Outros rostos, outros risos, outras tentativas de recomeço. Mas nenhum deles
carregava aquela estranha sensação de destino interrompido.
Porque o que tivemos não foi apenas
um amor adolescente — foi uma pergunta que nunca encontrou resposta
.E talvez seja isso que mais dói. Não
o fim, mas a incompletude.
Às vezes me pergunto se você também
ouve aquela música em noites específicas, se também sente esse leve aperto no
peito ao perceber que certas histórias não terminam — elas apenas continuam
dentro de nós, em silêncio.
Existe uma espécie de eternidade nas
coisas que não se resolvem.
E então volto à ideia inicial: a
busca.
Talvez a vida seja exatamente isso —
um constante procurar por algo que, no fundo, já vivemos em algum momento.
E o verdadeiro aprendizado não está
em encontrar novamente, mas em reconhecer o valor do que já foi. Há uma
sabedoria melancólica nisso, uma beleza que só o tempo revela.
A música dizia, em sua essência, que
depois de tanto procurar, chega um momento em que percebemos que o que
procurávamos sempre esteve ali. Mas ela não falava sobre o que fazer quando
esse “ali” já não existe mais. Essa
parte, descobrimos sozinhos.
E eu descobri da forma mais humana
possível: sentindo.
Hoje, quando a noite chega, não
resisto mais à saudade. Não tento afastá-la nem transformá-la em algo menor.
Aceito sua presença como quem aceita
uma antiga companheira de viagem. Porque,
de certa forma, ela é tudo o que restou de você — e também tudo o que ainda me
conecta àquele tempo em que acreditar parecia suficiente.
E há noites, raras, em que permito a
mim mesmo uma esperança silenciosa. Não necessariamente de reencontro literal,
mas de algo mais profundo — como se, em algum ponto do universo, as versões
jovens de nós dois ainda estivessem caminhando juntas, ainda sem saber que
iriam se perder.
Essa esperança não dói. Pelo
contrário, ela acalma.
Porque me faz pensar que talvez o
amor não precise de continuidade para ser verdadeiro. Que talvez ele exista
plenamente no instante em que acontece, independente do que vem depois.
E que algumas histórias não foram
feitas para durar no tempo — foram feitas para durar na alma.
E você durou.
Ainda dura.
E sempre durará.
Assim, sigo vivendo entre o presente
e esse passado que insiste em respirar dentro de mim. Não mais como alguém que
busca desesperadamente, mas como alguém que compreende.
A busca terminou — não porque
encontrei novamente, mas porque finalmente entendi. Entendi que você foi o destino
e também o caminho.
E que, às vezes, isso precisa ser
suficiente.
Mas, mesmo com toda essa
compreensão, confesso: quando a noite cai e o mundo silencia, ainda olho para o
vazio como se, por um instante improvável, você pudesse surgir — trazendo
consigo aquela versão de nós que nunca teve a chance de aprender a dizer adeus.
E nesse instante, breve e infinito,
a busca recomeça.
Mas
houve uma noite diferente.
Não começou como as
outras. Não havia melancolia imediata, nem aquele peso suave que costuma
anteceder a saudade.
Era apenas mais uma noite comum, dessas que
passam despercebidas, até que algo — sempre algo — muda o curso silencioso das
coisas.
Foi a música.
Ela tocou novamente, como fazia às
vezes, escapando de algum lugar improvável — um rádio distante, talvez um
vizinho, talvez o próprio passado atravessando as paredes do tempo. E, por um
instante, tudo parou. Não o mundo, mas aquilo que dentro de mim ainda corria.
Dessa vez, porém, não senti a
ausência.
Senti presença.
E isso me assustou mais do que
qualquer lembrança.
Porque não era você como memória,
nem como saudade. Era você como possibilidade.
Como se, depois de tantos anos, a
vida resolvesse devolver uma pergunta que eu já havia aprendido a não
responder.
Saí para caminhar.
As ruas estavam vazias, iluminadas
por uma luz amarelada que fazia tudo parecer antigo — como se os anos 1980
nunca tivessem ido embora completamente, apenas se escondido sob as camadas do
tempo. Cada passo parecia ecoar dentro de mim, não como deslocamento, mas como
retorno.
E então eu vi.
Não foi um choque. Não houve
surpresa dramática. Foi, estranhamente, natural. Como reconhecer uma palavra que você não dizia há décadas, mas nunca
esqueceu.
Você estava ali.
Diferente, claro.
O tempo não pede permissão para
mudar as pessoas. Mas havia algo intacto — talvez no olhar, talvez na forma
como o silêncio nos envolveu sem constrangimento.
Por um momento, nenhum de nós falou.
E isso disse tudo.
Porque ali, naquele espaço suspenso
entre o passado e o presente, não havia necessidade de explicações, nem de
justificativas, nem de perguntas sobre o que poderia ter sido.
Tudo isso já tinha perdido a
urgência.
O que restava era outra coisa.
Algo mais simples.
Mais verdadeiro.
Você sorriu primeiro — não com
nostalgia, mas com reconhecimento. Como quem encontra não o que perdeu, mas o
que, de alguma forma, sempre carregou consigo.
E então eu entendi algo que nunca
havia compreendido antes.
A busca não termina quando
encontramos alguém.
Ela termina quando deixamos de procurar
no tempo errado.
Nós não éramos mais aqueles
adolescentes. E, pela primeira vez, isso não parecia uma perda. Parecia
liberdade.
Conversamos pouco.
Não por falta de assunto, mas porque
as palavras já não precisavam sustentar o que sentíamos.
Havia uma serenidade nova, algo que o amor
jovem não conhece: a ausência de expectativa.
E talvez seja isso que transforma
tudo.
Porque, naquela noite, não houve
promessa de reencontro futuro, nem tentativa de reconstruir o que fomos.
Não tentamos reviver — apenas
existimos, ali, como duas linhas que voltaram a se cruzar sem a obrigação de
permanecer unidas.
Antes de ir, você disse algo
simples.
Que também havia ouvido a música.
Sorri.
Algumas coisas não pertencem ao
acaso.
Quando nos despedimos, dessa vez
houve consciência. Não de perda, mas de completude. Não de fim, mas de ciclo.
E, pela primeira vez em tantos anos,
ao voltar para casa, a noite não trouxe saudade.
Trouxe paz.
A música ainda ecoava, mas agora com
outro significado. Não mais como uma busca interminável, nem como lembrança de
algo perdido.
Mas como um reconhecimento tardio de
que certas histórias não precisam continuar para estarem inteiras.
Deitei-me sem aquela inquietação
antiga.
E entendi, finalmente, que você não
era mais a ausência que me acompanhava.
Era a presença que me formou.
E isso, de alguma forma silenciosa e
definitiva, encerrou tudo.
Ou talvez tenha sido apenas o
verdadeiro começo.
Possui graduação em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista (2005) - Unicep - São Carlos - SP, graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (2016) - Ceuclar - Campus de São José do Rio Preto – SP, Técnico em Comércio Exterior pelas Faculdades Eficaz, e atualmente cursa Serviços Jurídicos e Notoriais na Unimar. Escrevo regularmente para o site www.recantodasletras.com.br usando o pseudônimo ZACCAZ, mesclando poesia surrealista, com haikais e aldravias..Formado Especialista em Medina y Arte com ênfase em Gilles Deleuze e Equizoanálise onde é também pesquisador do Centro de Medicina y Arte de Rosário – Argentina, sendo o primeiro brasileiro a atuas nesse centro de pesquisa. Especialista em Ensino pela Ufscar, especialista em Psicopedagogia Institucional pela Fundepe – Unesp, Especialista em História da África pela Faculdade de Minas Gerais.
· Email: claytonalexandrezocarato@yahoo.com.br
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· Facebook: https://www.facebook.com/clayton.zocarato/
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