Mais Difícil Que Isso (conto baseado na canção do “Could It Be Any Harder”, do The Calling). por Clayton Zocarato
Mais Difícil Que Isso (conto baseado na canção do “Could
It Be Any Harder”, do The Calling).
Era 2002, mas parece mentira quando
eu falo assim hoje, em 2026, com tudo tão rápido, tão digital, tão descartável.
Naquele tempo, a gente esperava a música tocar no rádio com o dedo pronto pra
apertar o REC da fita cassete. E foi numa noite dessas, meio sem querer, que “Could It Be Any Harder”, do The
Calling, entrou na minha vida — e junto com ela, a Leila.
Eu tinha dezenove anos, um Discman
riscado, um All Star surrado e um medo enorme de sentir demais. Amar, pra mim,
sempre foi coisa perigosa. Mas naquela época a gente ainda acreditava que amor
podia ser puro, mesmo doendo.
Conheci a Leila na lan house do
bairro. Olha isso. Lan house. Ela tava brigando com o computador porque o MSN
não conectava. Cabelo preso de qualquer jeito, camiseta larga, um sorriso meio
torto quando me pediu ajuda. Eu ajudei sem saber muito, mais na coragem do que
na técnica.
Quando funcionou, ela comemorou como se
tivesse ganhado na Mega-Sena. Ali eu já tinha perdido.
A gente começou simples. Conversas
longas no MSN, status com indireta, letras de música no nick. Ela me mandou aquela do The Calling numa madrugada
qualquer, dizendo:
“Essa
música dói bonito.”
Eu respondi:
“É
tipo amar sem saber se vai sobreviver.”
Nos encontrávamos aos sábados,
depois que eu saía do trampo temporário e ela da aula. Nada de celular com
internet.
Era ponto marcado e confiança. Às
vezes eu chegava cedo só pra ver ela dobrando a esquina. O coração batia tão
forte que parecia querer sair correndo antes de mim.
O amor que a gente viveu não tinha
pressa. Tinha cuidado. Tinha silêncio confortável. Tinha mãos dadas e olhos
falando mais que boca. A gente sentava na calçada, dividia fone de ouvido, e o
mundo ficava pequeno. Era só nós dois e aquela música repetindo, como se
dissesse que amar daquele jeito talvez fosse o máximo — e o limite — do que um
ser humano aguenta.
Leila acreditava num amor limpo,
quase ingênuo. Dizia que amar era escolher ficar, mesmo quando dava vontade de
fugir. E eu, todo quebrado por dentro, aprendi com ela que pureza não é falta
de desejo, é excesso de verdade.
Mas 2002 também era um tempo duro.
Não tinha muito futuro garantido. A gente crescia rápido demais. As contas, as
escolhas, os medos iam apertando. Eu queria proteger a Leila do mundo, mas mal
dava conta de mim. E amar, quando é puro demais, dói dobrado.
Teve um dia que brigamos feio. Nada
dramático. Só o peso das coisas não ditas. Ela
chorou quieta, eu fiquei mudo. No rádio do quarto dela, a música tocou de novo.
E ali eu entendi: às vezes o amor chega num ponto tão alto, tão verdadeiro, que
qualquer passo em falso vira queda livre.
Mesmo assim, a gente ficou. Porque
desistir parecia mais difícil do que continuar. Amar até o último grau de
pureza é isso: escolher sentir tudo, mesmo sabendo que pode quebrar.
O tempo passou. A vida levou cada um
pra um lado. Não teve vilão, não teve traição. Só o mundo sendo mundo. Hoje,
quando escuto aquela música, ainda dói bonito. Mas dói com gratidão.
Porque eu amei. De verdade. Como se
não houvesse depois. E talvez não houvesse mesmo.
E se alguém me perguntar hoje se
poderia ser mais difícil do que aquilo, eu respondo sem pensar:
Não. Porque mais puro que aquilo,
impossível.
Ou pelo menos era o que eu acreditava…
até o dia em que a Leila voltou.
Não voltou dramaticamente, dessas
cenas de filme. Voltou do jeito que sempre foi: simples, inesperada, real. Uma
mensagem curta no WhatsApp — ironia do tempo — dizendo só: “Sonhei com você. Ainda lembra de mim?”
Lembrei como se nunca tivesse
esquecido. Como se ela nunca tivesse ido embora de verdade. O coração, mais
velho e cheio de cicatrizes, bateu igual ao de 2002. Ridículo. Bonito.
Assustador.
A gente marcou de se ver. Café
pequeno, desses que tentam ser modernos, mas ainda cheiram a passado. Quando
ela entrou, o mundo deu aquela travada clássica. O tempo não foi gentil com nós
dois, mas foi honesto. Linhas no rosto, histórias nos olhos. Ainda assim, o sorriso torto era o
mesmo. E quando ela me abraçou, eu soube: tem amores que não pedem licença pra
voltar.
Conversamos por horas. Sobre tudo e
sobre nada. Sobre o que fomos, o que não conseguimos ser, e sobre o quanto a
vida exige que a gente endureça.
Ela me contou dos amores errados, eu
contei dos meus quase. Rimos de como éramos dramáticos. Do MSN, das lan houses,
das músicas que pareciam escritas pra gente.
Em algum momento, o silêncio chegou.
Mas não era desconfortável. Era aquele silêncio antigo, conhecido. Aquele que
só existe quando duas pessoas se reconhecem mesmo depois de anos.
Ela perguntou se eu ainda acreditava
naquele amor puro. Eu pensei antes de responder. A vida tinha me ensinado a
desconfiar das coisas muito limpas, muito intensas.
Mas olhando pra ela ali, entendi que
pureza não é ingenuidade. É coragem.
Saímos andando pela cidade. Tudo
diferente, tudo igual. As pessoas mais apressadas, os olhares mais vazios.
A gente parecia deslocado no tempo, como se
ainda estivesse preso num refrão dos anos 2000. Em uma vitrine qualquer, uma
rádio antiga tocava baixo. E como se o universo tivesse senso de humor, lá
estava ela: Could It Be Any Harder.
Leila sorriu. Eu senti o peito
apertar.
— Ainda dói bonito — ela disse.
— Dói — respondi. — Mas hoje dói de
outro jeito.
A gente se beijou ali mesmo. Sem
plateia, sem pressa. Não foi explosivo. Foi profundo. Um beijo de quem entende
o peso do tempo. E naquele instante eu percebi: o amor mais puro não é o que
começa perfeito. É o que sobrevive ao que tentou destruí-lo.
Mas não romantizo. Não foi fácil.
Decidir tentar de novo exigiu enfrentar fantasmas, medos antigos, inseguranças
novas. Tivemos conversas duras. Choramos. Tivemos
vontade de desistir. Amar, naquele ponto, era quase um ato político contra o
cinismo do mundo.
Só que agora éramos adultos. E
diferente de 2002, a gente escolheu ficar. Não por medo de perder, mas por
vontade de construir.
Hoje, às vezes, sentamos no sofá,
cada um no seu celular, e alguém coloca uma playlist antiga pra tocar. Quando
aquela música aparece, a gente se olha e ri. Ainda dói um pouco. Mas agora a
dor não separa — ela lembra.
Porque amar até o mais elevado grau
de pureza não é viver sem feridas. É olhar pra elas e decidir, todos os dias,
que valeu a pena.
E talvez seja isso que aquela música
sempre quis dizer.
Não que amar seja difícil demais.
Mas que, quando é verdadeiro, a
gente aguenta.
Mas o tempo, esse cara insistente,
nunca deixa nada intacto por muito tempo.
Tentamos. E isso precisa ficar
claro. Tentamos com tudo que tínhamos. Só que algumas coisas mudam de forma
irreversível, mesmo quando o sentimento continua ali, firme, resistente, quase
teimoso.
Amar depois de ter vivido demais é
diferente de amar quando se acredita que o mundo cabe inteiro dentro de duas
mãos dadas.
Leila carregava sonhos novos. Eu
carregava cansaços antigos. Não era falta de amor. Era excesso de vida.
As pequenas diferenças começaram a
aparecer nas coisas simples: horários, planos, silêncios que já não encaixavam
tão bem. Antes, o silêncio era abrigo. Agora, às vezes, era distância. E
ninguém era culpado. Isso doía mais do que qualquer briga.
Uma noite, ela colocou a música pra
tocar de novo. Aquela. Sempre ela. O quarto estava meio escuro, luz da rua
entrando pela janela, e a letra parecia mais dura do que eu lembrava. Talvez
porque agora a gente entendia cada palavra.
Leila sentou na cama, respirou fundo
e disse aquilo que eu já sentia, mas não tinha coragem de falar.
— A gente se ama… mas não do mesmo
jeito de antes.
Não era uma sentença. Era uma
constatação. O amor ainda era puro, mas não era mais jovem. E amor maduro
também sabe a hora de não insistir.
Ficamos ali, abraçados, chorando
baixo, como quem segura algo precioso sabendo que vai precisar soltar. Não
houve gritos. Não houve promessas vazias. Só verdade. Daquelas que machucam,
mas não traem.
No dia seguinte, ela foi embora
cedo. Deixou um bilhete simples na mesa da cozinha: “Obrigada por me amar do jeito mais honesto que alguém já me amou.”
Guardei o papel como quem guarda um
pedaço de si.
Hoje, às vezes, quando a música toca
em algum lugar aleatório — rádio, playlist perdida, memória — eu paro. Não dói
como antes. Não machuca. Ela apenas lembra. E lembrar também é um jeito de
amar.
Aprendi que o amor levado ao mais
elevado grau de pureza não é o que dura pra sempre. É o que não se corrompe. O
que não vira rancor. O que não se transforma em indiferença.
Leila foi meu amor mais verdadeiro.
E talvez justamente por isso, não precisava ser eterno.
Alguns amores existem só para provar
que a gente é capaz de sentir tudo.
E isso, no fim das contas, já é mais
do que suficiente.
E, por um tempo, isso bastou.
Bastou saber que aquele amor existiu
de verdade, sem truque, sem jogo, sem a pressa estranha que hoje todo mundo
chama de intensidade.
Bastou aceitar que algumas histórias não
continuam, mas também não acabam. Elas
só mudam de lugar dentro da gente.
A vida seguiu, como sempre segue,
meio sem pedir permissão. Voltei à rotina, ao trabalho, aos dias iguais. Às
vezes, no meio da correria, eu me pegava lembrando da Leila em detalhes
pequenos: o jeito que ela franzia o nariz quando ria, a mania de apertar a
ponta da manga quando ficava nervosa, o silêncio confortável que a gente
dividia sem esforço.
Nada disso doía. Era como revisitar uma casa
antiga que ainda guarda cheiro de café.
Demorei pra entender que o amor mais
puro não exige presença constante. Ele se acomoda.
Ele vira referência. Vira régua.
Depois da Leila, eu nunca mais aceitei menos do que a verdade. Nunca mais
confundi carência com afeto, nem barulho com sentimento.
Teve outros amores, claro. Alguns
bons, outros nem tanto. Mas nenhum deles precisou competir com o que ficou pra
trás. Porque o que a gente viveu não era sombra. Era base.
Num fim de tarde qualquer,
caminhando pela cidade, ouvi um garoto cantarolando aquela música. Fone
pendurado no pescoço, voz baixa, distraída. Sorri sozinho. Pensei em como o
tempo é engraçado. A canção continuava ali, encontrando gente nova, criando histórias
que eu nunca vou conhecer.
Naquele momento, percebi que
finalmente tinha chegado ao último estágio daquele amor.
Não a saudade, não a dor, não a tentativa de
reviver. Mas a gratidão limpa. Aquela
que não pede nada em troca.
Leila não voltou. Eu também não fui
atrás. E, estranhamente, isso não parecia perda. Parecia respeito. Pelo que
fomos. Pelo que nos tornamos.
O amor levado ao mais elevado grau
de pureza não grita, não prende, não insiste. Ele
ensina. E depois solta.
E quando solta, deixa a gente
inteiro.
Possui graduação em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista (2005) - Unicep - São Carlos - SP, graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (2016) - Ceuclar - Campus de São José do Rio Preto – SP, Técnico em Comércio Exterior pelas Faculdades Eficaz, e atualmente cursa Serviços Jurídicos e Notoriais na Unimar. Escrevo regularmente para o site www.recantodasletras.com.br usando o pseudônimo ZACCAZ, mesclando poesia surrealista, com haikais e aldravias..Formado Especialista em Medina y Arte com ênfase em Gilles Deleuze e Equizoanálise onde é também pesquisador do Centro de Medicina y Arte de Rosário – Argentina, sendo o primeiro brasileiro a atuas nesse centro de pesquisa. Especialista em Ensino pela Ufscar, especialista em Psicopedagogia Institucional pela Fundepe – Unesp, Especialista em História da África pela Faculdade de Minas Gerais.
· Email: claytonalexandrezocarato@yahoo.com.br
· Instagram: Clayton.Zocarato
· Facebook: https://www.facebook.com/clayton.zocarato/
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Q maravilha! Obrigado por tão linda escrita!
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