Mi Dios, Mi Cruz e o Último Baile que Nunca Terminou - Por Clayton Zocarato

 


Mi Dios, Mi Cruz e o Último Baile que Nunca Terminou

           

            Baseado na canção de Donato y Estefano Mi Dios y Mi Cruz de 2000, Álbum;  Lo Mejor de Donato y Estefano.

 

            A juventude dos anos 2000 não sabia que era juventude.

            Achava que era só vida acontecendo sem ensaio, sem manual e sem replay.

            A gente não dizia “isso é histórico”.

            A gente dizia “vamos sair hoje”.

            As noites começavam sem grandes planos. Um toque no celular de antena, uma mensagem curta demais para explicar o que realmente queria dizer: “Vai ter baile”. Era o suficiente. O resto se resolvia no caminho — roupas escolhidas com pressa, perfumes exagerados, tênis limpos na esperança de impressionar alguém que talvez nem fosse, tudo aquilo que se pensasse.

            E sempre havia música.

            Não como fundo, mas como destino.

            Naquela época, a música não tocava — ela guiava. Era ela que decidia quem a gente seria por três minutos e quarenta segundos. Era ela que autorizava abraços demorados, lágrimas silenciosas no canto do salão, promessas feitas sem intenção de cumprir, mas com toda a verdade do mundo naquele instante.

            “Mi Dios Y Mi Cruz” do duo Latino Americano Donato y Estefano tocava assim: como uma confissão que ninguém pedia, mas todo mundo precisava ouvir.

            O salão ficava na periferia do mapa e no centro da memória. Piso escuro, luzes coloridas girando como se tentassem hipnotizar o tempo, paredes que já tinham ouvido mais juras de amor do que qualquer igreja. Era ali que a gente acreditava em tudo — inclusive em finais felizes.



            Quando a música começava, algo mudava no ar.

            O corpo entendia antes da cabeça.

            O coração se adiantava.

            Ela estava lá naquela noite. Sempre estava. Mesmo quando não vinha, estava.             Algumas pessoas não precisam de presença física para dominar um espaço — elas ocupam lembranças antes mesmo de acontecerem.

            Ela dançava como quem não devia explicações ao mundo. Os olhos diziam “fica”, mas os passos diziam “não promete”.

            E isso era o mais bonito. Porque a juventude também é isso: querer tudo, mas saber que não pode segurar nada por muito tempo.

            Os anos 2000 tinham cheiro de paixão.

            Mistura de suor, cigarro proibido, bebida barata e liberdade recém-descoberta.

            A gente acreditava que o amor era urgente. Que precisava acontecer naquela noite, naquela música, naquele abraço específico. E se não fosse ali, não seria em lugar nenhum. O mundo parecia pequeno demais para adiar sentimentos.

            Quando “Mi Dios Y Mi Cruz” ecoava, ninguém ficava indiferente. Alguns dançavam colados demais para não confessar nada depois.

             Outros fechavam os olhos, como se a letra fosse uma oração íntima, dessas que só se fazem quando o orgulho dorme.

            Era uma música sobre amor que dói, mas dói bonito.

            Sobre carregar alguém como cruz — não por castigo, mas por escolha.

            E a gente escolhia.

            Havia promessas que só existiam na pista de dança. E tudo bem. Elas não eram mentiras — eram verdades com prazo de validade emocional.

            “Eu nunca vou esquecer você.”

            E não esquecemos mesmo. Só aprendemos a viver sem.

            Os bailes ficaram para trás, mas não desapareceram. Eles se mudaram para o inconsciente, onde moram as coisas que a gente não resolve, só aceita.

            Às vezes, no meio da semana, uma lembrança atravessa o dia como um refrão inesperado. Um cheiro. Uma luz parecida. Uma música distante.

            E de repente, estamos de volta.

            O salão reaparece inteiro.

            As vozes.

            Os risos.

            Os amores que não deram certo, mas deram sentido.

            Ela foi embora como todos vão: sem perceber que estava deixando um rastro eterno. Não houve despedida cinematográfica. Só o esvaziar lento das noites compartilhadas, até que uma ausência virou rotina.

            Mas alguns amores não acabam.

            Eles mudam de endereço.

            Vão morar na memória, na comparação silenciosa, no jeito que a gente escuta certas músicas com mais cuidado.

            Eles aparecem quando menos se espera, não para ferir, mas para lembrar quem fomos quando ainda acreditávamos em felicidade sem reservas.

            “Mi Dios Y Mi Cruz” nunca mais foi só uma música. Virou um portal. Sempre que toca, o tempo dobra.

            A juventude retorna. Os corpos cansados se lembram de quando dançavam sem pedir licença aos joelhos.

            E o amor — ah, o amor — continua ali, intacto, porque nunca precisou de futuro para ser real.

            Hoje, os bailes são outros. As músicas mudaram. As luzes também.

            Mas há algo que não se replica: a primeira vez em que sentimos que o mundo era nosso por algumas horas.

            A juventude dos anos 2000 não tinha filtros, nem nuvens digitais. Tinha presença. Olho no olho. Toque. Vergonha. Coragem improvisada. Tinha o risco delicioso de se entregar sem garantias.

            E tinha trilha sonora.

            Cada geração acha que inventou o amor. Mas algumas apenas o viveram com mais intensidade — porque ainda não sabiam se proteger dele.

            Se um dia você ouvir “Mi Dios Y Mi Cruz” e sentir um aperto estranho no peito, não lute contra. Não é tristeza. É saudade bem resolvida. É o passado dizendo: “eu existi, e fui bonito”.

            Os bailes esquecidos pelo tempo continuam dançando dentro de quem viveu.

            Os amores que nunca morrem apenas aprenderam a não pedir espaço.

            E a juventude… a juventude nunca foi uma fase.

            Foi um estado de espírito que ainda acende, toda vez que a música certa toca.

            E enquanto tocar,o último baile nunca termina.

            Os anos 2000 foram uma ponte.

            A gente atravessou sem saber que estava deixando um mundo para trás.

            Ainda existia o hábito de chegar sem avisar. De bater palma no portão. De ligar só para ouvir a voz, não para enviar um áudio editado.

             O tempo não era otimizado — era vivido. E talvez por isso doesse mais quando acabava.

            Nas baladas, ninguém precisava provar nada.

            Não havia seguidores, só testemunhas. A validação vinha do sorriso devolvido, do convite para dançar, do olhar que demorava meio segundo a mais.

            A rejeição também era direta, sem algoritmos para amortecer o impacto.

            A gente aprendia a lidar com o “não” na pista, não na tela.

            E isso moldou uma geração inteira.

            O comportamento era moldado pelo encontro.

            O corpo tinha voz. O silêncio tinha peso.

            O constrangimento ensinava mais do que qualquer manual de autoestima.             Errávamos ao vivo. Amávamos sem rascunho.

            Os anos 2000 foram o último período em que se podia desaparecer por alguns dias sem que isso fosse interpretado como abandono ou estratégia.

            Sumir era humano.

            Voltar era possível.

            O mundo não exigia explicações imediatas.

            Os bailes funcionavam como microcosmos sociais. Ali se misturavam classes, estilos, dores e desejos. Era democracia improvisada: quem dançava bem ganhava respeito, quem sentia a fundo ganhava espaço.

            E quando a música tocava — aquela música — todos se igualavam.

            A letra falava por quem não sabia pedir, por quem tinha medo de ficar, por quem já sabia que iria embora.

            Havia esperança. Mesmo sem discurso.

            Acreditava-se que o futuro seria melhor porque não se pensava demais sobre ele.      O amanhã não era ameaça, era promessa vaga. O presente bastava.

            Trabalhos precários, sonhos grandes. Faculdades começadas e abandonadas.             Bandas que nunca gravaram disco. Amores que não viraram casamento, mas viraram referência. A juventude dos anos 2000 não romantizava a escassez — apenas não tinha aprendido a nomeá-la.

            A ansiedade ainda não tinha nome clínico. Chamava-se inquietação.

            A depressão ainda não tinha legenda. Chamava-se silêncio.

            E mesmo assim, dançávamos.

            Com o tempo, tudo mudou rápido demais.

            As baladas ficaram mais caras, mais segmentadas, mais solitárias.

             O encontro virou evento.

            O beijo virou prova social.

            A música virou fundo para vídeos curtos.

            Mas algo sobreviveu.

            A geração dos anos 2000 carrega um jeito específico de sentir: profundo, desconfiado, intenso. Ama com cuidado, mas quando ama, entrega inteiro.

            Sofre em silêncio, mas reconhece uma dor antiga ao ouvir uma canção esquecida.

            Essas pessoas ainda se reconhecem sem combinar. Em festas, em bares, em filas aleatórias. Um comentário sobre uma música antiga, um olhar cúmplice, um riso que diz: “você também estava lá”.

            Talvez o maior legado daquela juventude não tenha sido tecnológico, nem estético. Foi emocional.

            Aprendemos a valorizar o instante porque ele não era registrável.

            Aprendemos que algumas coisas só existem uma vez — e tudo bem.



            Os bailes não voltam.

            As pessoas não voltam.

            Mas a forma como aquilo nos formou permanece.

            E isso explica por que certos amores não morrem.

             Eles não pertencem a alguém específico. Pertencem a uma época em que sentir não era fraqueza, era identidade.

            No fim, não há reencontro.

            Não há dança final.

            Não há música tocando no volume certo.

            Há apenas alguém — talvez você, talvez eu — atravessando a cidade à noite, ouvindo no fone uma canção antiga, enquanto o mundo corre apressado ao redor.

            Por um instante, tudo desacelera.

            O coração reconhece o ritmo.

            O corpo lembra.

            A alma sorri.

            Os anos 2000 não voltam.

            Mas também não foram embora.

            Eles vivem na forma como algumas pessoas ainda amam, ainda esperam, ainda acreditam que uma música pode salvar uma noite inteira — ou uma vida.

            E enquanto houver alguém que feche os olhos ao ouvir aquela melodia, a juventude continua existindo, silenciosa dançando em algum lugar dentro de nós.



Clayton Alexandre Zocarato

Possui graduação em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista (2005) - Unicep - São Carlos - SP, graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (2016) - Ceuclar - Campus de São José do Rio Preto – SP, Técnico em Comércio Exterior pelas Faculdades Eficaz, e atualmente cursa Serviços Jurídicos e Notoriais na Unimar. Escrevo regularmente para o site www.recantodasletras.com.br usando o pseudônimo ZACCAZ, mesclando poesia surrealista, com haikais e aldravias..Formado Especialista em Medina y Arte com ênfase em Gilles Deleuze e Equizoanálise   onde é também  pesquisador do Centro de Medicina y Arte  de Rosário – Argentina, sendo o primeiro brasileiro a atuas nesse centro de pesquisa. Especialista em Ensino pela Ufscar, especialista em Psicopedagogia Institucional pela Fundepe – Unesp, Especialista em História da África pela Faculdade de Minas Gerais.

·                  Email: claytonalexandrezocarato@yahoo.com.br

·                  Instagram: Clayton.Zocarato

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