Geografia da Saudade – Conto baseado na canção do grupo Roupa Nova ‘Meu Universo é Você’ do Disco Luz de 1988 - Clayton Zocarato
Geografia
da Saudade – Conto baseado na canção do grupo Roupa Nova ‘Meu Universo é Você’
do Disco Luz de 1988
A cidade ainda acordava quando o
rádio de pilha chiou em cima da cômoda, despejando no quarto um som conhecido,
desses que pareciam saber mais da gente do que a gente mesmo.
Era Roupa Nova, era aquela melodia
que grudava no peito e não largava. Em 1988, tudo parecia acontecer assim: pela
metade, em ruídos, em promessas que vinham pelo ar.
O quarto de Matheus tinha pôsteres
amarelados, jeans dobrados sobre a cadeira, o cheiro de café passado pela mãe
misturado ao de chuva fina que caía desde a madrugada.
Ele ficou deitado, olhando o teto
manchado, pensando que o mundo era grande demais, mas que, ainda assim, cabia
inteiro quando ela sorria.
Ele a conhecera num sábado à tarde,
na fila do cinema do centro, entre cartazes coloridos e gente falando alto
sobre o futuro, política, bandas novas, a tal liberdade que finalmente parecia
possível depois de anos engasgados.
Marcieli usava um vestido simples e
os cabelos soltos, e havia nela um jeito de quem carregava silêncio demais para
a idade.
Quando seus olhos se cruzaram,
Matheus sentiu aquela vertigem estranha, como se tudo ao redor perdesse foco.
Não foi paixão explosiva; foi reconhecimento, como se algo antigo tivesse sido
reencontrado ali, no meio do barulho urbano e das buzinas impacientes.
Eles começaram a se ver nos
intervalos possíveis: no fim das aulas, sentados no muro da escola pública,
dividindo um refrigerante quente; nas noites em que a luz faltava e o bairro
inteiro parecia respirar junto, iluminado por velas e conversas baixas. Falavam dos sonhos com cautela,
porque sonhar ainda era um ato frágil.
Matheus queria estudar jornalismo, escrever sobre um país que tentava se entender.
Marcieli pensava em ir embora,
talvez ser professora, talvez só existir em um lugar onde não precisasse se
explicar o tempo todo.
Em cada palavra trocada havia uma
urgência doce, como se soubessem que o tempo era curto, mesmo sem saber por
quê.
A música os acompanhava como um
terceiro personagem. Tocava no rádio do ônibus, nas festas improvisadas na
garagem de algum amigo, nos programas de auditório da televisão pequena da
sala.
Quando aquela canção específica surgia, eles
se olhavam em silêncio, cúmplices. Matheus sentia que a letra dizia o que ele
não conseguia formular: que o mundo podia falhar, as promessas podiam cair, mas
ali, naquele vínculo, havia um centro, um eixo.
Marcieli, por sua vez, sentia medo
dessa intensidade. Amar, para ela, era como caminhar na beira de um prédio alto
demais: belo e arriscado.
Os anos 80 eram feitos de
contrastes. Havia esperança nas ruas, mas também incerteza dentro das casas. Os
jovens vestiam cores fortes para esconder o receio de um futuro instável.
Matheus percebia isso nos amigos que
falavam em mudar o mundo e, ao mesmo tempo, temiam não conseguir emprego.
Marcieli percebia quando chegava em
casa e via os pais discutindo contas, o rádio ligado em notícias que misturavam
otimismo e alerta.
Amar, nesse cenário, era um ato
quase político, uma escolha de acreditar apesar de tudo.
O relacionamento deles cresceu nos
detalhes: bilhetes dobrados no caderno, mãos que se encontravam por baixo da
mesa, beijos rápidos na despedida do ponto de ônibus. Não havia grandes
declarações, mas havia constância.
Matheus sentia que, quando pensava
nela, o caos ao redor se organizava.
Marcieli sentia que, ao lado dele, o
medo diminuía de tamanho. Ainda assim, havia sombras. O desejo de partir, de
buscar algo além da cidade, além do conhecido, começou a pesar nela como uma
culpa silenciosa.
Numa noite abafada de verão, sentados
na laje da casa de Matheus, olhando as poucas estrelas visíveis entre prédios e
fios elétricos, Marcieli falou do sonho de ir embora. A música tocava baixo lá
dentro, quase como um comentário irônico.
Matheus ouviu em silêncio, sentindo o coração
apertar.
Ele não a prendeu, não prometeu
seguir, não pediu que ficasse. Apenas disse que ela era o lugar onde ele se
encontrava. As palavras ficaram suspensas no ar quente, carregadas de tudo o
que não foi dito.
O tempo, esse personagem impiedoso,
fez o que sempre faz. Vieram despedidas mal acabadas, cartas que demoravam a
chegar, ligações curtas e caras.
A cidade continuou mudando, as
pessoas também. Matheus cresceu, escreveu, errou, amou de novo, mas nunca do
mesmo jeito. Marcieli partiu, voltou algumas vezes em memória, em sonhos, em
músicas que surgiam inesperadamente no rádio.
Cada reencontro inexistente doía menos, mas
deixava um eco persistente.
Anos depois, já adulto, Matheus
ouviu novamente aquela canção, agora num carro parado no trânsito.
O mundo era outro, mas a sensação
era a mesma.
Ele percebeu que certos amores não
são feitos para durar no tempo, mas para reorganizar o universo interno de quem
os vive. Marcieli não era mais presença, era referência. Não era mais promessa,
era origem.
Na melancolia suave da lembrança,
ele entendeu que, mesmo com todas as mudanças, havia algo que permanecia
intacto: a certeza de que, por um momento precioso e irrepetível, o universo
dele tivera nome, rosto e voz. E isso, pensou, talvez fosse o mais próximo da
eternidade que alguém pode alcançar.
Mas o trânsito andou, a música
acabou, e o silêncio voltou a ocupar o carro como um hóspede antigo.
Matheus desligou o rádio com um
gesto lento, quase respeitoso, como quem encerra um ritual.
Ficou alguns segundos parado,
observando o reflexo do próprio rosto no vidro do retrovisor.
Havia ali marcas que ele não
reconheceria aos dezoito anos: pequenas rugas nos cantos dos olhos, uma
serenidade cansada, uma espécie de acordo silencioso com a passagem do tempo.
Ainda assim, por baixo de tudo, permanecia o
mesmo menino que acreditara que amar podia organizar o caos.
Nos dias seguintes, a lembrança não
o deixou em paz. Não vinha como dor aguda, mas como um chamado baixo,
insistente, semelhante ao chiado do rádio de pilha da juventude.
Marcieli tentou ignorar, mergulhou
no trabalho, nos textos que precisava entregar, nas conversas superficiais que
preenchiam os intervalos. Mas havia algo inacabado ali, uma dobra mal fechada
no passado que, de repente, exigia atenção.
Foi numa tarde de domingo, enquanto
arrumava caixas antigas no fundo do armário, que encontrou uma delas. Papelão
gasto, fita amarelada, cheiro de poeira e tempo.
Dentro, cadernos velhos, recortes de jornal,
fotografias soltas. E, no fundo, um envelope fino, dobrado com cuidado
excessivo.
O nome dele escrito à mão, em uma
caligrafia que ele reconheceria em qualquer época, em qualquer lugar.
O coração acelerou de um jeito quase
infantil. Ele sentou no chão, encostado na cama, e demorou alguns segundos
antes de abrir o envelope. A carta não tinha data. O papel estava levemente
amarelado, mas as palavras permaneciam firmes, como se tivessem sido escritas
para resistir.
Ela falava da cidade onde vivia
agora, das salas de aula onde ensinava crianças inquietas, do frio que ainda
não aprendera a gostar. Falava das escolhas, das renúncias, da dificuldade de
explicar aos outros — e a si mesma — por que algumas ausências doíam mais do
que certas presenças.
Em um trecho curto, quase tímido,
ela mencionava seu nome. Dizia que ele fora o primeiro lugar onde se sentira
inteira.
Não pedia nada. Não sugeria reencontro. Apenas
registrava, como quem deposita algo precioso no mundo, para que não se perca.
Matheus terminou a leitura com os
olhos marejados, mas sem choro. Havia ali uma paz estranha, como se finalmente
entendesse que o amor deles não fracassara; apenas cumprira outra função.
Ainda assim, algo mudou. Pela
primeira vez, ele não sentiu apenas saudade. Sentiu
curiosidade. Quem ela era agora? Que rosto tinha o tempo em Marcieli?
Impulsivamente — ou talvez
inevitavelmente —, ele a procurou. Redes sociais, contatos antigos, pistas
espalhadas como migalhas. Encontrou, uma foto simples, sorriso discreto, fios
de cabelo grisalhos misturados aos castanhos.
Nada espetacular, e justamente por
isso tão verdadeira. Ele hesitou antes de escrever. Releu a mensagem dezenas de
vezes, tentando evitar o peso excessivo da memória.
“Ouvi
uma música hoje. Lembrei de você. Espero que esteja bem.”
A resposta não veio de imediato.
Vieram horas de espera, dias de expectativa contida. Matheus quase se
arrependeu.
Quase. Até que, numa noite comum, o
celular vibrou.
“Também
ouvi essa música. Acho que ela nunca nos largou.”
Começaram assim: frases cuidadosas,
lembranças compartilhadas com delicadeza, como quem revisita um lugar sagrado
sem querer profanar. Falaram do passado, mas também do presente.
Dos medos que persistiram, das
certezas que se dissolveram, das vidas que construíram em direções distintas.
Não haviam cobranças, nem fantasias
de retorno impossível. Havia escuta.
Meses depois, decidiram se
encontrar.
Não como promessa, não como
tentativa de recuperar o que fora, mas como gesto de honestidade.
Um café simples, em uma cidade que
não era a deles, mas que servia como território neutro. Quando se viram, houve
um segundo de estranhamento, seguido de um sorriso espontâneo, quase aliviado.
O tempo os transformara, mas não os tornara desconhecidos.
Conversaram por horas. Riram de
lembranças pequenas, silenciaram diante de outras maiores.
Marcieli falou da escolha de ficar onde
estava, do amor tranquilo que vivera e que terminara sem tragédia.
Matheus falou dos textos, das
cidades por onde passara, das pessoas que amara tentando não comparar. Em
nenhum momento falaram em “e se”.
Não era necessário.
Ao se despedirem, abraçaram-se com
calma. Não havia urgência, nem desespero. Apenas gratidão.
Matheus percebeu, naquele instante,
algo que nunca havia permitido a si mesmo compreender: o amor deles não pedia
continuidade; pedia reconhecimento. E isso, finalmente, acontecera.
Na volta para casa, ele ligou o
rádio do carro. A música não era a mesma. Ainda assim, sorriu. Entendeu que o
universo não tinha mais um único centro fixo.
Ele se expandira. Marcieli continuava sendo
parte da constelação, mas não a única estrela. E isso não diminuía nada do que
fora vivido.
Alguns amores não existem para nos
acompanhar até o fim, pensou. Existem para nos ensinar a começar.
E, naquele momento, enquanto a
cidade passava pela janela e o futuro seguia aberto, Matheus sentiu algo raro e
precioso: não a melancolia do que passou, mas a serenidade de quem, enfim,
fechou um ciclo sem apagá-lo.
O universo, agora, era maior. E ele
estava pronto para habitá-lo.
Possui graduação em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista (2005) - Unicep - São Carlos - SP, graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (2016) - Ceuclar - Campus de São José do Rio Preto – SP, Técnico em Comércio Exterior pelas Faculdades Eficaz, e atualmente cursa Serviços Jurídicos e Notoriais na Unimar. Escrevo regularmente para o site www.recantodasletras.com.br usando o pseudônimo ZACCAZ, mesclando poesia surrealista, com haikais e aldravias..Formado Especialista em Medina y Arte com ênfase em Gilles Deleuze e Equizoanálise onde é também pesquisador do Centro de Medicina y Arte de Rosário – Argentina, sendo o primeiro brasileiro a atuas nesse centro de pesquisa. Especialista em Ensino pela Ufscar, especialista em Psicopedagogia Institucional pela Fundepe – Unesp, Especialista em História da África pela Faculdade de Minas Gerais.
· Email: claytonalexandrezocarato@yahoo.com.br
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