Quando o Amor Aprendeu a Ficar - por Clayton Zocarato
Daniel
e Marina se conheceram no começo dos anos 2000, quando o mundo parecia feito de
luzes coloridas e promessas fáceis. A danceteria era o refúgio de quem
acreditava que a juventude não acabava. A
New Has Come de Céline Dion embalava sonhos floridos de esperança.
O som alto escondia os medos, e o
amor nascia rápido, quase sem pedir licença. Daniel
a viu dançar, e naquele instante sentiu que algo novo tinha chegado à sua vida,
algo que não saberia explicar, mas que mudaria tudo.
Marina sorriu para ele como quem não tem
passado nem futuro, apenas aquele momento.
O amor começou ali, simples,
intenso, jovem demais para entender o tempo.
Naqueles anos, amar era correr. Era
ligar tarde da noite, era esperar na chuva, era discutir por ciúmes pequenos e
fazer as pazes com beijos demorados.
Daniel prometia mais do que podia
cumprir, Marina acreditava em tudo. Eles acreditavam. O amor não conhecia
cansaço, nem silêncio.
Tudo era exagerado, bonito e frágil.
As madrugadas terminavam com abraços apertados
e a certeza ingênua de que aquilo nunca acabaria. O mundo parecia conspirar a
favor deles, como se a vida tivesse pausado só para vê-los existir.
Mas o tempo, mesmo quando parece
lento, não espera ninguém. As danceterias começaram a fechar, os amigos
seguiram caminhos diferentes, e a música foi ficando mais baixa.
Daniel já não tinha a mesma leveza no olhar.
Marina começou a sentir um vazio estranho, como se algo estivesse escapando
pelas mãos. O amor continuava ali, mas
já não era festa. Era esforço. Era aprender a ficar quando a vontade era fugir.
Vieram os dias difíceis, as perdas,
as palavras ditas sem cuidado. Vieram noites em que Daniel se calava e Marina
chorava sozinha, com saudade de algo que ainda existia, mas já não era igual.
O amor deles envelheceu junto com
eles. Aprendeu a carregar marcas. Não havia mais urgência, apenas necessidade.
Amar deixou de ser brilho e virou abrigo. Daniel
passou a amar com medo de perder. Marina passou a amar com medo de não ser
suficiente. E, mesmo assim, ficaram. Porque havia algo entre eles que não sabia
morrer. Algo que resistia mesmo quando tudo parecia pedir o fim.
Em 2026, o amor deles era
silencioso. Já não gritava, não implorava, não prometia. Daniel segurava a mão de Marina com mais
cuidado do que antes, como quem sabe que tudo pode quebrar, sonhando com novos dias de esperança.
Marina olhava para ele com um misto
de gratidão e tristeza, lembrando do homem que dançava sem pensar no amanhã. O
amor agora era feito de pequenas coisas: um café compartilhado, um olhar
demorado, um silêncio que já não machucava tanto.
Às vezes, Marina colocava uma música
antiga para tocar. Aquelas músicas que falavam de esperança, de recomeço, de um
novo dia.
Fechava os olhos e se via jovem
outra vez, rodando na pista, acreditando que o amor resolveria tudo.
Daniel observava em silêncio. Ele
também lembrava. Lembrava do cheiro dela, do riso fácil, da sensação de que o
mundo era grande demais para dar errado. As memórias doíam porque eram bonitas.
Doíam porque não voltavam.
O amor deles não pereceu, mas mudou
de forma. Não era mais o amor que dançava sob luzes coloridas. Era o amor que
permanecia quando as luzes se apagavam. Um
amor cansado, maduro, cheio de saudade.
Um amor que já tinha pensado em ir
embora, mas decidiu ficar. Talvez porque amar, no fim, não seja sobre
felicidade constante, mas sobre resistência.
Daniel e Marina sabiam que não eram
mais jovens. Sabiam que o tempo tinha levado muita coisa. Mas o amor ainda
respirava entre eles, mesmo frágil, mesmo triste. E talvez isso fosse o mais romântico de tudo: não ter
desistido.
O novo dia tinha chegado há muito tempo,
silencioso, sem aviso. E o amor deles, diferente de tudo o que já foi, aprendeu
a existir dentro dele.
O tempo continuou passando, como
passa para todos, mas em Daniel e Marina ele deixava marcas visíveis e
invisíveis.
Havia dias em que o amor parecia
apenas um hábito silencioso, quase cansado de existir. Ainda assim, quando um
dos dois se afastava demais, o outro sentia um vazio antigo, parecido com o
medo da primeira perda.
Não era paixão, já não era urgência,
mas era profundo. Era como uma raiz que cresce debaixo da terra, longe dos
olhos, mas forte o suficiente para sustentar tudo acima.
Daniel, às vezes, acordava no meio
da noite lembrando da juventude. Do corpo leve, da promessa de futuro infinito,
da música alta que fazia o coração bater mais rápido.
Olhava para Marina dormindo ao seu
lado e sentia uma dor doce no peito. Ela não era mais a menina da danceteria,
mas era a mulher que tinha ficado quando tudo mudou. E isso, de algum jeito,
ainda era amor. Um amor diferente, mais silencioso, mas real.
Marina também carregava suas
saudades. Havia momentos em que sentia falta de si mesma, daquela versão que
acreditava sem medo, que amava sem pensar nas consequências.
O espelho mostrava outra mulher
agora, mais forte, mais cansada, mais verdadeira. E, mesmo assim, quando Daniel
a olhava com cuidado, como se ela ainda fosse preciosa, Marina sentia
esperança. Pequena, tímida, mas viva.
Eles aprenderam que amar não é
apenas sentir, mas escolher. Escolher ficar nos dias comuns, nos dias tristes,
nos dias em que nada acontece.
Escolher o outro mesmo quando o coração pede
descanso. O amor deles não precisava mais de grandes declarações. Ele vivia nos
gestos pequenos, no respeito, no silêncio compartilhado sem desconforto.
Às vezes, sentavam juntos e falavam
do passado. Não para tentar voltar, mas para lembrar que tudo aquilo existiu de
verdade. As danceterias, as risadas altas, os sonhos exagerados e A New Day Has Come, tocava incessante em seus
corações.
Daniel sorria com nostalgia. Marina
sentia os olhos marejarem. O passado não voltava, mas também não desaparecia.
Ele morava ali, entre eles, como uma lembrança que ainda aquece.
Houveram momentos em que pensaram
que o amor tinha acabado, quando na verdade ele só tinha mudado de roupa. Já
não era jovem, já não corria, já não dançava. Caminhava
devagar, com cuidado, mas continuava avançando. E talvez isso fosse maturidade.
Talvez isso fosse amar depois de tudo.
O mundo parecia mais duro, mais
rápido, mais frio. Mas dentro daquele amor havia algo que resistia ao tempo.
Daniel segurava a mão de Marina como quem segura uma história inteira.
Marina retribuía com um aperto leve,
cheio de significado. Eles não precisavam dizer nada. O amor estava ali,
discreto, mas firme.
O que eles tinham não era perfeito,
nem fácil, nem sempre feliz. Mas era verdadeiro. Sobreviveu aos anos, às
mudanças, às dores e às perdas.
Um amor que não pereceu porque
aprendeu a se transformar. Um amor que entendeu que a esperança não está na
juventude eterna, mas na permanência.
E assim, mesmo com saudade do que foram,
Daniel e Marina seguiram sendo o que ainda podiam ser. Não havia mais promessas
grandiosas, apenas o desejo sincero de continuar.
De acordar juntos mais um dia. De segurar a
mão do outro quando o mundo pesar demais. O amor deles, cansado e bonito,
seguia vivo.
E, enquanto estivesse ali, ainda
haveria um novo dia chegando.
Com o passar do tempo, Daniel e
Marina entenderam que algumas saudades nunca se curam. Elas apenas aprendem a
conviver com a gente. Não doíam o tempo todo, mas apareciam de repente, como
uma música antiga tocando sem aviso.
A juventude não voltaria, as danceterias não
acenderiam novamente aquelas luzes coloridas, e o amor que eles viveram no
início dos anos 2000 existia agora apenas na memória.
Ainda assim, era ali que ele
continuava vivo, guardado com cuidado, como algo precioso demais para ser
esquecido.
Em certas tardes silenciosas, Marina
se sentava perto da janela e deixava o tempo passar. Observava o mundo seguir
em frente enquanto lembrava de quem ela foi. Daniel
se aproximava devagar, sem palavras, e ficava ao seu lado.
Não perguntava o que ela pensava.
Ele já sabia. Pensava neles. Pensava em tudo o que foram quando ainda não
tinham medo de perder.
E naquele silêncio compartilhado
havia uma tristeza suave, mas também uma paz estranha, como se o amor tivesse
encontrado seu lugar definitivo.
Eles compreenderam, finalmente, que
o amor não morreu quando a juventude acabou. Ele apenas mudou de forma para
sobreviver.
Tornou-se mais frágil aos olhos, mas
mais forte por dentro. Um amor que não precisava ser visto para existir. Que
não precisava ser celebrado para ser verdadeiro. Bastava lembrar.
E assim, entre lembranças e
silêncios, Daniel e Marina seguiram. Sabendo que o tempo levaria ainda mais
coisas, mas não levaria aquilo que já tinha sido vivido.
O passado permanecia ali, intocado,
dançando sozinho na memória. E enquanto essa lembrança existisse, o amor também
existiria. Não como antes, mas como algo eterno em sua própria saudade.
Com o passar dos dias, Daniel e
Marina aprenderam que a saudade podia ser quase tangível, como se tocassem o
passado com as mãos, mesmo que ele estivesse distante. Cada lembrança tinha
cheiro, cor e som. Havia tardes em que Marina colocava uma música antiga e, por
alguns minutos, voltava a sentir o coração acelerado da menina que rodava na
pista da danceteria.
Daniel sentia o mesmo, e ficava
parado, quieto, observando a luz do fim de tarde se espalhar pelo quarto,
pensando que aquele instante, ainda que breve, era tudo o que o tempo poderia
oferecer de volta. E isso era suficiente, embora ferisse.
Eles começaram a perceber que a
saudade não vinha só do que tinham perdido, mas também do que ainda poderiam
ter sido.
Havia uma vida inteira de momentos que não
aconteceram, planos que ficaram em silêncio, sonhos que se apagaram antes de
serem vividos.
Daniel lembrava de como imaginava
viajar pelo mundo com Marina, de como sonhava com tardes intermináveis de
risadas, e Marina lembrava das conversas que teriam, das promessas que não se
transformaram em realidade.
A memória era ao mesmo tempo
conforto e ferida aberta, porque mostrava o que existiu e o que nunca existiria
mais.
E, mesmo assim, eles continuavam
juntos. Não porque fossem obrigados, mas porque o amor que resistia ao tempo
ainda exigia presença.
Seguravam as mãos com cuidado, como
quem não quer deixar nada escapar, como se a cada toque pudessem manter viva a
chama do que foram.
Daniel olhava para Marina e via a menina da
danceteria misturada com a mulher madura, e sentia uma tristeza doce, quase
impossível de nomear. Marina olhava para Daniel e sentia a mesma mistura de dor
e ternura, lembrando de cada beijo roubado, de cada abraço apertado, de cada
promessa que o tempo havia transformado.
Em algumas noites, o silêncio entre
eles era tão pesado que parecia carregar todos os anos que passaram. Mas mesmo
nesse silêncio, havia um entendimento profundo: eles não precisavam falar.
A saudade falava por si só. E, nesse espaço
entre o ontem e o hoje, Daniel e Marina aprenderam que amar não era apenas
estar feliz juntos.
Amar também era sentir falta, era recordar,
era carregar no peito o peso do que já não voltaria. Era reconhecer que a
beleza do passado podia ser mais intensa do que qualquer presente.
Chegou um dia em que Daniel olhou
para Marina com uma expressão que misturava resignação e ternura. Ele disse
apenas: “Você lembra como tudo começou?”
Marina sorriu levemente, sem
palavras, sentindo a mesma emoção que sentira anos atrás. Eles não precisavam
relembrar cada detalhe. Sabiam que aquele instante, aquela lembrança
compartilhada, era mais forte que qualquer palavra. Era a prova de que, mesmo com
o tempo passando, algo permanecia. Algo que não se podia apagar.
No fim, perceberam que a vida
inteira era feita de lembranças que doíam e que confortavam ao mesmo tempo.
Que a saudade não era inimiga, mas
guardiã do que importava. Que amar, de verdade, era conseguir sentir falta sem
precisar de nada mais.
Daniel e Marina continuaram juntos, caminhando
lado a lado, silenciosos e esperançosos, com o coração apertado de nostalgia,
sabendo que o passado já não voltaria, mas que cada memória, cada riso e cada
lágrima compartilhada, permanecia viva dentro deles, mais intensa do que
qualquer futuro que o tempo pudesse oferecer.
E assim, com a saudade como
companhia constante, eles seguiram, lembrando que o amor que sobreviveu não
precisava mais de luzes, música alta ou promessas. Bastava existir, ser sentido, ser lembrado. E, nesse
silêncio cheio de lembranças, eles finalmente entenderam que o amor verdadeiro
não morre.
Ele se transforma em memória, em ternura, em
saudade eterna — e, às vezes, essa saudade é a forma mais pura de continuar
amando.
E então chegou o dia em que Daniel e
Marina perceberam que o tempo não podia mais ser desafiado. Sentaram-se juntos,
em silêncio, olhando o céu que se tingia de laranja e roxo, como se quisesse
engolir o passado e o presente ao mesmo tempo.
Era um dia comum, mas parecia uma
eternidade comprimida em alguns minutos. Marina
encostou a cabeça no ombro de Daniel e, de repente, riu de forma estranha,
quase louca, porque lembrava de todas as vezes que o mundo parecia conspirar
contra eles, de todas as promessas feitas sob luzes coloridas, de todos os
sonhos exagerados que haviam deixado escapar.
Daniel a olhou e sorriu também,
porque no fundo sentiu o mesmo: aquela mistura de tristeza, amor e nostalgia
era insuportavelmente bonita. Era dolorosa, mas era a única verdade que
restava.
E foi ali, naquele instante, que
decidiram deixar o passado invadir o presente completamente. Daniel fechou os
olhos e imaginou a danceteria cheia novamente, as luzes girando, o som
pulsando, e viu Marina dançando lentamente como nos anos 2000 A New Day Has Come.
Marina fechou os olhos também e viu
Daniel correndo em sua direção, rindo, prometendo o impossível. Riram juntos,
como se estivessem jovens outra vez, como se a vida inteira tivesse cabido em
uma única memória. Era loucura, sim.
Uma loucura bela, que não precisava
de razão. Porque, naquele instante, a realidade e a memória se confundiam, e
não importava mais qual era qual.
Quando abriram os olhos, tudo estava
calmo. O mundo seguia em frente, silencioso e indiferente, mas dentro deles
havia um universo inteiro de lembranças vivas, pulsando com intensidade quase
insana.
E perceberam que, talvez, amar de
verdade fosse isso: aceitar que o tempo leva tudo, mas não consegue levar o que
foi sentido de forma tão intensa que se torna impossível de apagar.
Que a loucura de recordar, de
reviver, de sentir falta, era também a forma mais pura de continuar amando.
Daniel segurou a mão de Marina com
firmeza e disse, baixinho, sem esperar resposta: “Mesmo quando não estivermos mais aqui, eu ainda vou te lembrar assim.”
Quando o Amor Aprendeu a
Ficar
Conto baseado na canção A New Day
Has Come de Céline Dion de 2002.
E Marina sorriu, uma lágrima escorrendo, dizendo sem palavras que sentia o mesmo. Porque naquele momento não havia passado nem futuro.
Havia apenas a eternidade das
lembranças, do amor que sobreviveu ao tempo, e da saudade que os mantinha
vivos, mesmo quando tudo ao redor parecia partir.
E assim, juntos, eles fecharam os
olhos uma última vez, deixando que o mundo girasse sem eles, enquanto dentro de
cada um, Daniel e Marina dançavam para sempre, nos ecos de uma juventude que
não morreu, em uma saudade que se tornou loucura definitiva — doce, intensa,
infinita e absolutamente imortal.





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