Quando a violência começa cedo: um alerta urgente às famílias e à sociedade - por Renata Gaia
A trágica morte de
um cachorrinho em Florianópolis não é apenas uma notícia policial. É um espelho
social. Um fato que nos obriga a refletir, com seriedade e responsabilidade,
sobre família, educação emocional, formação de valores e, sobretudo, sobre o papel
dos adultos na construção da consciência das novas gerações.
O que aconteceu não
é apenas um ato de violência. É a manifestação clara da ausência de empatia,
do prazer sádico diante do sofrimento de um ser indefeso — alguém que
não pode se proteger, não pode revidar, não pode se defender. Isso nos coloca
diante de uma pergunta inevitável:
o que estamos ensinando aos nossos adolescentes?
E talvez mais importante: o que estamos deixando de ensinar?
Na psicologia e na
criminologia, existe o que se chama de “Teoria do Link”, que aponta a
relação entre a violência contra animais e o desenvolvimento posterior de
comportamentos violentos contra seres humanos. Muitos dos grandes criminosos em
série iniciaram seus padrões de violência exatamente assim: no ataque ao
vulnerável, ao pequeno, ao indefeso. Não como regra absoluta, mas como sinal
de alerta comportamental.
É fundamental
compreender que o cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento. Ele
passa por processos intensos de poda neural e formação de novas sinapses. Isso
significa que padrões emocionais, éticos e comportamentais ainda estão sendo
estruturados. Em muitos casos, condutas violentas nessa fase podem estar
associadas a transtornos de conduta, que, quando identificados
precocemente, podem — e devem — ser tratados com intervenção adequada,
acompanhamento psicológico e suporte familiar.
Mas para que isso
aconteça, é necessário algo essencial: presença, atenção e consciência dos
adultos.
Pais, mães, avós,
responsáveis, professores, educadores:
é preciso estar atento às falas, às reações, aos comportamentos,
às brincadeiras, às dinâmicas sociais dos adolescentes. Violência
no grupo, violência na escola, violência dentro de casa, violência simbólica,
violência emocional — tudo isso comunica algo. Nada disso é aleatório.
Vivemos um tempo de
distração coletiva. Olhamos para telas, para demandas externas, para pressões
econômicas, para o superficial — e muitas vezes deixamos de enxergar o
essencial:
o mundo emocional dos nossos próprios filhos.
Há sinais que não podem ser ignorados.
A ausência de empatia.
O prazer no sofrimento do outro.
A desumanização do vulnerável.
O ataque ao inocente.
Se esse mesmo
comportamento fosse praticado por um adulto, a análise clínica e social seria
direta: falaríamos em psicopatia em grau elevado. No campo infantil e
adolescente, o termo é mais complexo, mas o comportamento em si continua sendo
um sinal gravíssimo de alerta.
Este artigo não nasce do julgamento.
Nasce da dor.
Nasce da consciência.
Nasce do compromisso com a prevenção.
Ainda há tempo.
O cérebro está em formação.
As sinapses estão sendo construídas.
Os valores ainda estão sendo organizados.
Os referenciais ainda estão sendo internalizados.
Com intervenção
competente, educação emocional, limites claros, valores
bem estruturados e presença afetiva real, é possível redirecionar
trajetórias. É possível evitar que adolescentes em sofrimento emocional
profundo se tornem adultos violentos e desconectados da própria humanidade.
Crianças e adolescentes precisam de
adultos emocionalmente maduros.
Precisam de referências.
Precisam de limites.
Precisam de valores.
Precisam de presença.
Precisam de consciência.
Este é um chamado coletivo.
Um alerta social.
Um pedido de responsabilidade.
Porque a violência não nasce do nada.
Ela é construída — ou prevenida — dentro das relações, dentro da família,
dentro da educação, dentro do cotidiano.
Que essa tragédia não seja apenas mais
uma notícia.
Que ela se transforme em consciência.
Que se transforme em ação.
Que se transforme em responsabilidade.
Que se transforme em cuidado.
Enquanto ainda é tempo.
Renata Gaia
| Renata Gaia - Responsável pelo espaço Gaia de Luz em Nova Friburgo - Psicanalista - Especialista em comportamento humano - Estudiosa da Neurociência do dia-a-dia |





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