A CARTA QUE NUNCA CHEGOU (OU TALVEZ TENHA CHEGADO TARDE DEMAIS) - por Clayton Zocarato

 


A CARTA QUE NUNCA CHEGOU (OU TALVEZ TENHA CHEGADO TARDE DEMAIS)

Conto com traços saudosistas com toque literários baseados na canção do Roupa Nova ‘Fica Comigo’ do Disco Frente e Versos de 1990.

 

            A carta apareceu numa manhã qualquer de 2003, dobrada com cuidado e deixada entre a fresta da porta e o chão frio da varanda. Não havia nome do remetente, apenas o dela escrito à mão, com uma caligrafia que parecia hesitar entre a coragem e o arrependimento.

            Ela demorou alguns segundos para entender que aquilo era, de fato, para ela — como se o destino tivesse errado o endereço, como se o passado tivesse batido na porta alguns anos atrasado.

            Em 2003, tudo ainda parecia possível.

            As noites eram longas, iluminadas por luzes coloridas de danceterias que pulsavam como corações elétricos.

            O som grave atravessava o peito, e as músicas — aquelas que todo mundo sabia cantar mesmo sem entender completamente — eram uma espécie de linguagem universal entre corpos jovens tentando descobrir o que fazer com o próprio desejo.             Havia algo de urgente no ar, como se o tempo estivesse prestes a acabar, como se cada sábado fosse uma última chance.

            Ela se lembrava dele ali, encostado perto do bar, sempre com o mesmo jeito de quem observava mais do que participava.

            Não era o mais bonito, nem o mais popular, mas havia nele uma presença silenciosa que desorganizava tudo ao redor. Ele não precisava dançar para ser notado — e, talvez por isso, fosse impossível ignorá-lo.

            O Brasil, naquele tempo, parecia estar tentando se reinventar. As conversas passavam por política, mesmo que de forma desajeitada, misturadas com risadas e cervejas baratas.

            Havia uma sensação difusa de mudança, de promessa — como se algo estivesse começando, mesmo que ninguém soubesse exatamente o quê. E, no meio disso tudo, eles existiam: dois jovens orbitando o mesmo espaço, sem nunca realmente colidirem.

            Ela dançava como se quisesse esquecer alguma coisa que ainda nem tinha acontecido.

            Ele a observava como se já soubesse.

 

            Nunca houve uma declaração. Nunca houve um momento claro, um gesto definitivo. Apenas olhares prolongados, conversas interrompidas, mãos que quase se tocaram. Era um amor que existia mais na possibilidade do que na realidade — e talvez por isso tenha se tornado tão permanente.

            Em uma daquelas noites, tocaram aquela música que todo mundo dizia ser “a música do momento”.

            As luzes diminuíram, o ritmo desacelerou, e por alguns segundos o mundo pareceu caber dentro de uma pista de dança. Foi ali que ele se aproximou pela primeira vez com intenção real. Não disse nada extraordinário — apenas perguntou se ela queria dançar.

            Ela quis.

            Mas o momento passou rápido demais. Como tudo naquela época. Como eles.

            Depois disso, a vida seguiu como sempre faz: sem pedir permissão.

            As  noites começaram a perder intensidade. As mesmas músicas já não causavam o mesmo efeito. As mesmas pessoas começaram a desaparecer, substituídas por outras que não carregavam a mesma história.

            Ela tentou manter a rotina, insistir na ideia de que ainda havia algo a ser vivido ali, mas no fundo já sabia que estava apenas adiando o inevitável.

            Ele sumiu antes que ela percebesse.

            Não houve despedida. Nenhuma explicação. Apenas ausência.

            E então veio 2004, com sua luz mais crua, menos indulgente.

            As danceterias continuavam abertas, as músicas continuavam tocando, mas algo essencial havia se perdido. Talvez fosse apenas ela que já não era a mesma. Talvez fosse o mundo.

            A carta, quando finalmente apareceu, parecia carregar o peso de tudo aquilo que não foi dito.

            Ela demorou horas para abrir.

            Ficou sentada no sofá, olhando para o envelope como se ele pudesse responder por si só.

            Como se, ao abri-lo, estivesse abrindo também uma parte dela que havia sido cuidadosamente enterrada.

            Quando finalmente rasgou o papel, sentiu um leve tremor nas mãos.

            A carta era simples. Direta. Dolorosamente honesta.

 

            Falava de arrependimento. De medo. De todas as vezes em que ele quis dizer algo e não disse. De como a presença dela o desorganizava de um jeito que ele não sabia lidar.

            De como ele achava que ainda havia tempo — sempre havia tempo — até perceber que o tempo, na verdade, nunca esteve do lado deles.

            Ele mencionava aquela noite específica, aquela dança breve, como se tivesse sido um ponto de ruptura. Como se, ali, algo tivesse sido decidido sem que nenhum dos dois soubesse.

            Dizia que foi embora porque não conseguiu ficar. Porque ficar significava se expor, e ele não sabia como fazer isso sem se perder completamente.



            No final, havia apenas uma frase:

            “Se essa carta chegar até você, talvez ainda exista alguma chance de entender o que fomos — ou o que poderíamos ter sido.”

            Não havia assinatura.

            E era isso que mais doía.

            Porque, no fundo, ela sabia. Ou achava que sabia. Mas nunca teve certeza.

            E essa incerteza passou a ser parte dela.

            Nos dias que se seguiram, ela tentou reconstruir os detalhes. Relembrou cada conversa, cada olhar, cada silêncio.

            Tentou encontrar provas, sinais, qualquer coisa que confirmasse a autoria daquela carta. Mas o passado não é um arquivo organizado — é um amontoado de fragmentos que se recusam a se encaixar perfeitamente.

            Ela voltou à antiga danceteria uma última vez.

            O lugar ainda estava lá, mas era outro. As músicas eram diferentes. As pessoas também.

            O chão, que antes parecia vibrar com a intensidade da juventude, agora parecia apenas um piso comum. Ela ficou parada por alguns minutos, tentando reconhecer algo — qualquer coisa — que ainda fosse familiar.

            Nada era.

            Na saída, percebeu que não estava triste da forma como imaginava. Havia, sim, uma melancolia persistente, mas também uma estranha sensação de completude.

            Como se aquela carta, mesmo sem respostas, tivesse encerrado um ciclo que ela nem sabia que ainda estava aberto.

 

            Ela guardou a carta.

            Não como prova de um amor, mas como vestígio de uma possibilidade.

            Com o tempo, deixou de tentar descobrir quem a escreveu. Passou a aceitar que talvez nunca soubesse. E, curiosamente, foi isso que tornou tudo ainda mais significativo.

            Porque o amor, às vezes, não precisa se concretizar para existir.

            Ele pode viver nos intervalos, nos silêncios, nas músicas que tocam em lugares que já não existem mais.

            Pode permanecer como uma espécie de eco — algo que não se vê, mas que insiste em ser sentido.

            E naquela carta, deixada ao acaso numa manhã qualquer, estava tudo o que eles nunca tiveram coragem de viver.

            Ou talvez estivesse apenas aquilo que ela precisava acreditar.

            E, no fim, isso bastava.

            Mas os anos não são gentis com aquilo que fica mal resolvido.

            Eles não apagam — apenas reorganizam a dor.

            Foi numa madrugada qualquer, já muito tempo depois, que ela voltou a pensar nele com uma intensidade diferente. Não era mais a saudade juvenil, nem o vazio imediato da ausência.

            Era algo mais denso, mais maduro — como se o tempo tivesse sedimentado aquele sentimento em uma camada profunda, difícil de acessar, mas impossível de ignorar.

            Naquela noite, uma música tocou no rádio.

            Uma daquelas antigas, que pareciam atravessar décadas sem perder o peso. A voz suave, melancólica, dizia exatamente aquilo que ela nunca teve coragem de dizer — ou de ouvir, ao som do Roupa Nova

            “Quando o sol invade a noite…”

            Ela fechou os olhos.

            Era como se a letra estivesse contando a história dela. Não exatamente nos fatos, mas no sentimento — naquela sensação de perceber alguém se afastando aos poucos, sem ruptura, sem drama explícito, apenas um distanciamento inevitável.

            E então veio o verso que a atravessou:

            “Fica comigo…”

            Ela quase riu, mas não conseguiu.

            Porque era isso.

            Era exatamente isso que nunca aconteceu.

            Ninguém pediu para ficar.

            Nem ele. Nem ela.

            E talvez tenha sido esse o erro mais humano de todos.

            Na memória, ela começou a reconstruir uma outra versão da história.

            Uma que nunca existiu, mas que poderia ter existido com um único gesto diferente.

             Imaginou ele naquelas noites de 2003, segurando sua mão com mais firmeza.             Imaginou a si mesma dizendo “fica” — simples, direto, sem medo.

            Mas o passado não aceita reescrita.

            Ele apenas ecoa.

            A música continuava:

            “O amor que era nosso e agora é só meu…”

            Ela abriu os olhos.

            Ali estava a verdade mais incômoda: o amor, se é que pode ser chamado assim, nunca foi realmente compartilhado.

            Foi construído em silêncios paralelos, em expectativas não verbalizadas, em gestos interrompidos. Cada um viveu sua própria versão daquilo que nunca chegou a ser.

            E talvez ele também tenha ouvido aquela música em algum lugar.

            Talvez tenha pensado nela.

            Ou talvez não.

            Essa dúvida, que antes a inquietava, agora assumia outra forma. Já não era uma ferida aberta, mas uma cicatriz sensível — algo que doía apenas quando tocado com insistência.

            Ela levantou, foi até uma gaveta antiga e procurou a carta.

            Ainda estava lá.

            O papel já não era tão branco, as dobras mais marcadas, como se o tempo tivesse deixado suas próprias impressões. Ela releu cada linha com uma calma diferente, quase analítica, como quem revisita uma parte de si mesma que já não reconhece completamente.

            E então percebeu algo que nunca tinha considerado antes.

            A carta não era um pedido.

            Era uma despedida disfarçada.

            Ele não dizia “fica comigo”.

            Ele dizia, de todas as formas possíveis, “eu não consegui ficar”.

            E isso mudava tudo.

            Porque, no fundo, o que a música implorava — permanência, tentativa, insistência — era exatamente o que faltou entre eles.

            Não houve luta, não houve insistência, não houve aquele momento desesperado de segurar alguém pelo braço e dizer: “não vai”.

            Houve silêncio.

            E o silêncio, às vezes, é mais definitivo que qualquer adeus.

            Ela dobrou a carta com cuidado, mas não a guardou de volta.

            Dessa vez, deixou sobre a mesa.

            Abriu a janela.

            O ar da madrugada entrou devagar, trazendo consigo aquele cheiro indefinido de tempo passando — uma mistura de lembrança e esquecimento.

            Por um instante, pensou em se livrar da carta. Rasgar, jogar fora, encerrar de vez aquele capítulo que já durava tempo demais.

            Mas não fez isso.

            Porque entendeu, finalmente, que não se tratava dele.

            Nem da carta.

            Tratava-se dela — daquilo que ela foi, daquilo que ela não teve coragem de ser, das palavras que nunca disse.



            A música ainda ecoava, agora distante.

            Deixa eu provar…”

            Ela sorriu, um sorriso leve, quase imperceptível.

            Não havia mais nada a provar.

            Alguns amores não foram feitos para acontecer.

            Foram feitos para permanecer como ausência.

            E, estranhamente, há uma forma de beleza nisso.

            Ela apagou a luz.

            E, pela primeira vez, não pensou no que poderia ter sido.

            Pensou apenas no que foi — incompleto, silencioso, mas profundamente real à sua maneira.

            A carta continuou ali, sobre a mesa, tocada pela brisa da madrugada.

            Como se, mesmo depois de tanto tempo, ainda esperasse alguém dizer aquilo que nunca foi dito.

            “Fica.”



Clayton Alexandre Zocarato

Possui graduação em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista (2005) - Unicep - São Carlos - SP, graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (2016) - Ceuclar - Campus de São José do Rio Preto – SP, Técnico em Comércio Exterior pelas Faculdades Eficaz, e atualmente cursa Serviços Jurídicos e Notoriais na Unimar. Escrevo regularmente para o site www.recantodasletras.com.br usando o pseudônimo ZACCAZ, mesclando poesia surrealista, com haikais e aldravias..Formado Especialista em Medina y Arte com ênfase em Gilles Deleuze e Equizoanálise   onde é também  pesquisador do Centro de Medicina y Arte  de Rosário – Argentina, sendo o primeiro brasileiro a atuas nesse centro de pesquisa. Especialista em Ensino pela Ufscar, especialista em Psicopedagogia Institucional pela Fundepe – Unesp, Especialista em História da África pela Faculdade de Minas Gerais.

·                  Email: claytonalexandrezocarato@yahoo.com.br

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