“A Falta que Dança” - por Clayton Zocarato

 

 (Um conto filosófico - lacaniano inspirado pela atmosfera da canção Against All Odds (Take a Look at Me Now), de Phil Collins)

 

Era 1994, um ano que parecia existir entre dois mundos.

O século XX ainda respirava, mas já se ouvia o rumor de algo novo no horizonte. O mundo ainda comentava o impacto da Queda do Muro de Berlim e os longos ecos do fim da Guerra Fria.

No Brasil, os jornais falavam diariamente sobre a criação do Plano Real, uma tentativa quase filosófica de reorganizar o caos da economia.

Mas naquele sábado à noite, para os adolescentes daquela pequena cidade, a história mundial parecia distante.

O clube municipal estava iluminado por luzes coloridas que giravam lentamente no teto. O globo espelhado lançava pequenas constelações de reflexos pelas paredes.

Era noite de baile.

Nos anos 1990, os bailes de juventude eram mais do que festas: eram laboratórios emocionais. Ali se experimentavam as primeiras formas de desejo, rejeição, esperança e perda.

Luan estava encostado na parede.

Ele observava tudo com a estranha distância de alguém que pensa demais para a própria idade.

Quando o DJ colocou uma nova música, o salão inteiro pareceu desacelerar.

O piano começou suave.

A voz grave surgiu logo depois.

Era a canção “Against All Odds (Take a Look at Me Now)”.

Luan não sabia ainda, mas aquele momento se tornaria um marco silencioso em sua memória.

Claudia dançava no centro do salão.

Havia algo curioso nela. Não era apenas beleza; era uma espécie de presença tranquila que fazia o espaço ao redor parecer diferente.

Luan lembrava do primeiro dia em que conversaram.

Era uma aula de história sobre o fim da divisão da Europa. O professor explicava o significado da queda do muro em Berlim.

 

Claudia virou-se para ele e perguntou:

— Você acha que as pessoas também têm muros dentro delas?

Luan ficou em silêncio por alguns segundos.

— Acho que sim.

Ela sorriu.

Foi um sorriso breve, mas Luan sentiu algo estranho naquele instante.

Na psicanálise de Sigmund Freud, existe uma ideia simples e poderosa: amamos aquilo que nos falta.

Talvez Claudia representasse exatamente isso.

Um fragmento de algo que Luan ainda não sabia nomear.

O baile era uma espécie de teatro emocional.

Meninos fingiam confiança enquanto observavam discretamente quem dançava com quem.

Meninas conversavam em pequenos grupos, rindo alto para esconder inseguranças que nem elas próprias compreendiam.

Freud chamaria aquilo de drama do inconsciente.

Mas anos depois Luan descobriria outra interpretação, ainda mais inquietante, nas ideias de Jacques Lacan.

Segundo Lacan, o desejo humano não nasce apenas da necessidade, mas do olhar do outro.

Desejamos ser desejados.

No salão iluminado, isso era visível.

Cada olhar buscava reconhecimento.

Cada dança era uma tentativa silenciosa de afirmar:

“Eu existo. Veja-me.”

A música continuava.

“So take a look at me now…”

Luan sentiu que aquele verso carregava algo profundo demais para uma simples canção.

A adolescência é um período estranho da existência.

É quando o ser humano descobre que o mundo não possui respostas simples.

Luan começava a perceber isso.

 

Seu professor de filosofia havia mencionado recentemente um pensador francês chamado JeanPaul Sartre.

Segundo Sartre, o ser humano está condenado à liberdade.

Isso significava que ninguém poderia decidir por nós quem seríamos.

Era uma ideia libertadora e assustadora ao mesmo tempo.

Luan olhou novamente para Claudia.

Ela ria com as amigas.

A liberdade estava ali, diante dele, na forma de uma decisão simples:

Ir até ela.

Ou permanecer parado.

Claudia o viu.

Por um momento, seus olhos se encontraram.

Algo mudou no ar.

Luan percebeu uma verdade que mais tarde reconheceria nas teorias de Lacan: o olhar do outro nos transforma.

Quando alguém realmente nos vê, deixamos de ser apenas observadores do mundo.

Passamos a fazer parte dele.

Claudia caminhou na direção dele.

Luan sentiu o coração acelerar.

Ela parou diante dele.

— Você não dança?

Ele hesitou.

— Não muito.

Ela sorriu.

— Então aprende.

Eles caminharam até o centro da pista.

O piano da música preenchia o salão com uma melancolia suave.

Luan colocou a mão no ombro dela com certa timidez.

Claudia percebeu.

— Relaxa — Disse.

Eles começaram a se mover lentamente.

Luan pensou em algo curioso naquele momento: talvez o amor fosse uma espécie de coordenação imperfeita entre duas consciências.

 


Freud falava da luta entre desejo e medo.

Lacan falava do vazio que tentamos preencher no outro.

Mas naquela dança havia algo mais simples.

Apenas duas pessoas tentando existir juntas no mesmo instante.

No fundo do salão, os amigos observavam, comentavam, riam.

Mas Luan não percebia mais nada.

Ele pensava em algo que seu professor havia dito:

— A vida não é feita apenas de grandes acontecimentos históricos. Às vezes ela muda em pequenos momentos que ninguém percebe.

Talvez fosse verdade.

Aquela dança durou apenas alguns minutos.

Mas parecia conter uma eternidade.

Quando a música terminou, Claudia continuou ali por alguns segundos.

— Eu gosto dessa música — Disse ela.

Luan assentiu.

— Eu também.

Mas havia uma pergunta que ele não conseguiu fazer.

A psicanálise chama isso de repressão: quando um desejo encontra uma barreira invisível dentro da própria mente.

Luan queria dizer:

“Eu gosto de você.”

Mas as palavras ficaram presas no silêncio.

O baile terminou perto da meia-noite.

As luzes se acenderam.

Os adolescentes saíram lentamente do salão, ainda carregando as emoções da noite.

Na porta, Claudia disse:

— A gente se vê na escola.

Luan respondeu:

— Claro.

Mas a vida tem sua própria lógica imprevisível.

No ano seguinte, a família de Claudia mudou de cidade.

Eles nunca mais se encontraram.

 Anos depois, Luan ouviria novamente aquela música.

O tempo havia passado.

O mundo havia mudado.

A internet surgira. As cidades cresceram. Novas crises surgiram.

Mas a memória tem uma natureza curiosa.

Segundo Freud, nossa mente reorganiza o passado como se fosse um sonho.

Alguns momentos desaparecem.

Outros permanecem intensamente vivos.

O baile era um desses momentos.

Luan percebeu algo com o passar dos anos.

Talvez Claudia não fosse apenas uma pessoa em sua memória.

Talvez ela representasse algo maior.

Uma fase da vida em que tudo ainda parecia possível.

Sartre dizia que a existência humana é um projeto inacabado.

Estamos sempre nos tornando algo.

Nunca completamente prontos.

Luan voltou um dia ao antigo clube.

O salão estava vazio.

O globo espelhado já não existia.

As luzes de neon tinham sido substituídas.

Ele caminhou lentamente pelo espaço onde um dia havia dançado.

Em sua mente, a música voltou.

“Take a look at me now…”

Ele sorriu.

Talvez o amor adolescente nunca seja apenas sobre a pessoa amada.

Talvez seja sobre o instante em que descobrimos que somos capazes de amar.

E isso permanece.

Mesmo contra todas as probabilidades.

Mesmo contra o tempo.

Mesmo contra o esquecimento.

O salão do clube estava vazio.

 

Luan caminhava lentamente pelo espaço onde, muitos anos antes, havia dançado com Claudia. O piso parecia menor agora, como se o tempo tivesse encolhido o cenário da memória.

Ele parou no centro da pista.

Foi ali.

Ou pelo menos era o que sua lembrança dizia.

A memória nunca é totalmente fiel. Segundo Jacques Lacan, aquilo que recordamos não é exatamente o passado, mas uma narrativa construída pelo desejo.

Lucas apoiou a mão em uma das colunas do salão e tentou entender por que aquela lembrança continuava viva.

Não era apenas Claudia.

Era algo mais profundo.

Lacan afirmava que o desejo humano nasce de uma falta estrutural. Não desejamos simplesmente objetos ou pessoas; desejamos aquilo que acreditamos que completará algo ausente em nós.

Claudia havia se tornado exatamente isso.

Não mais uma pessoa concreta.

Mas um significante do desejo.

Ela representava algo que Luan nunca chegou a possuir totalmente: a possibilidade de um encontro absoluto entre duas subjetividades.

Ele fechou os olhos.

Por um instante, o salão voltou a se encher de vozes.

Risos.

Perfumes.

Luzes girando.

E, ao fundo, a música que parecia atravessar décadas.

Quando abriu os olhos novamente, percebeu algo inesperado.

Alguém havia entrado no salão.

Era uma mulher de cerca de quarenta anos, segurando algumas caixas. Talvez fosse funcionária do clube ou alguém organizando um evento.

Por um momento breve, ela olhou para ele.

Aquele olhar foi simples, quase casual.

Mas Luan sentiu algo curioso.

 


Lacan dizia que o olhar não é apenas ver — é ser visto.

Durante anos, Luan havia acreditado que sua história com Claudia era sobre perda.

Mas naquele instante percebeu algo diferente.

O que realmente havia permanecido não era Claudia.

Era o movimento do desejo.

O desejo nunca termina; ele apenas se desloca.

Claudia fora apenas o primeiro rosto através do qual Luan havia experimentado essa força invisível.

A mulher que estava no salão passou por ele e disse educadamente:

— Boa tarde.

Luan respondeu:

— Boa tarde.

Foi uma troca breve, quase banal.

Mas ao caminhar em direção à saída, Luan notou algo novo dentro de si.

A falta não precisava ser preenchida.

Ela podia simplesmente existir.

Porque, como dizia Lacan, é a falta que mantém o desejo vivo.

Do lado de fora, o céu estava alaranjado pelo fim da tarde.

Luan respirou fundo.

Por um momento, pensou novamente na letra daquela antiga música.

Não com tristeza.

Mas com uma espécie de gratidão silenciosa.

Afinal, contra todas as probabilidades — against all odds — algumas experiências continuam ecoando dentro de nós.

Não como feridas.

Mas como portas que se abriram para a consciência de quem somos.

Luan começou a caminhar pela rua.

E pela primeira vez entendeu algo essencial:

Claudia  não era o fim de uma história.

Ela havia sido apenas o início de seu desejo de existir no olhar do outro.

E esse desejo, agora, finalmente podia seguir adiante.




Clayton Alexandre Zocarato

Possui graduação em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista (2005) - Unicep - São Carlos - SP, graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (2016) - Ceuclar - Campus de São José do Rio Preto – SP, Técnico em Comércio Exterior pelas Faculdades Eficaz, e atualmente cursa Serviços Jurídicos e Notoriais na Unimar. Escrevo regularmente para o site www.recantodasletras.com.br usando o pseudônimo ZACCAZ, mesclando poesia surrealista, com haikais e aldravias..Formado Especialista em Medina y Arte com ênfase em Gilles Deleuze e Equizoanálise   onde é também  pesquisador do Centro de Medicina y Arte  de Rosário – Argentina, sendo o primeiro brasileiro a atuas nesse centro de pesquisa. Especialista em Ensino pela Ufscar, especialista em Psicopedagogia Institucional pela Fundepe – Unesp, Especialista em História da África pela Faculdade de Minas Gerais.

·                  Email: claytonalexandrezocarato@yahoo.com.br

·                  Instagram: Clayton.Zocarato

·                  Facebook: https://www.facebook.com/clayton.zocarato/


Venha ser um Escritor de sucesso! 

Conheça os escritores que estão brilhando no Jornal Alecrim! #EscritoresDeSucesso

Promova seus livros e sua carreira literária com o plano de divulgação da Jornal e Editora Alecrim. Tenha suas obras divulgadas nas principais redes sociais, jornais e eventos literários do Rio de Janeiro e região. Conecte-se com seu público e alcance o sucesso que você merece. Aproveite essa oportunidade única e alavanque sua carreira literária agora!


Comentários

Postagens mais visitadas