Fogo no Início do Século – Ensaio crítico existencial baseado na Canção Fogo do Capital Inicial. - Por Clayton Zocarato

 

Fogo no Início do Século – Ensaio crítico existencial baseado na Canção Fogo do Capital Inicial.

 

            No começo dos anos 2000, parecia que o mundo tinha sido colocado em velocidade máxima. As cidades cresciam sem pedir licença, os celulares começavam a tocar nos bolsos como pequenos alarmes de urgência permanente, e a internet surgia como uma promessa quase religiosa de liberdade.

            Havia lan houses cheias depois da escola, CDs gravados às pressas, mensagens enviadas na madrugada em programas de conversa que caíam diante a conexão sem aviso.

            Tudo parecia novo, mas havia uma estranha sensação de vazio crescendo junto com aquela modernidade improvisada.

            Na televisão, falavam sobre guerras distantes, ataques terroristas, crises econômicas e um futuro dominado pelo consumo. Nas ruas, os jovens tentavam sobreviver ao peso silencioso das expectativas.

            Era preciso escolher rápido uma profissão, construir um futuro, vencer antes dos trinta, parecer feliz o tempo inteiro. A juventude começava a aprender que o capitalismo não queria apenas a força de trabalho; queria também os sonhos, os afetos e até o tempo livre transformado em mercadoria.

            Foi nesse cenário que a música Fogo do Capital Inicial atravessava rádios, festas e fones de ouvido baratos como uma espécie de grito emocional de uma geração inteira. Não era apenas uma canção romântica.

            Era o retrato de pessoas tentando sentir alguma coisa verdadeira em meio ao excesso de imagens, velocidade e ruído. Havia algo profundamente humano naquela ideia de incêndio interno, como se amar alguém fosse também uma tentativa desesperada de não desaparecer dentro da rotina.

            Os encontros aconteciam em praças, corredores de escola, pontos de ônibus e festas simples, onde sempre existia uma luz fraca iluminando rostos cansados demais para a própria idade. Existia medo no amor daqueles anos.  Medo de não ser suficiente, medo de ser abandonado, medo de fracassar economicamente antes mesmo de entender o que significava viver. Ainda assim, havia coragem.

            A juventude dos anos 2000 amava com intensidade porque intuía, mesmo sem palavras filosóficas, que o tempo começava a acelerar de maneira brutal.

            As madrugadas tinham cheiro de chuva no asfalto e som de bandas brasileiras tocando em aparelhos de som com graves estourados. Havia algo de melancólico na felicidade daquela época. Talvez porque todos percebessem, mesmo inconscientemente, que o mundo prometia liberdade enquanto construía novas formas de prisão.

             O consumo virou identidade. As marcas passaram a definir valor humano.             Quem não acompanhava o ritmo sentia-se invisível.

            O filósofo Jean Baudrillard dizia que a sociedade moderna substituiu a realidade pelos símbolos da realidade.

            Nos anos 2000 isso começava a ficar evidente. As pessoas registravam momentos mais preocupadas em parecer felizes do que em realmente sentir felicidade.             As redes sociais ainda engatinhavam, mas já alteravam a forma de amar. O amor começava a precisar de provas públicas para existir.

            Mesmo assim, havia beleza. Havia uma espécie de poesia marginal na juventude daquela década. Os jovens ainda escreviam letras de música em cadernos, esperavam ligações que talvez nunca viessem, caminhavam sem rumo pela cidade apenas para prolongar conversas.

            Existia tempo para o silêncio entre duas pessoas. Existia mistério. Hoje quase tudo precisa ser imediato, explicado e exposto.

            O amor surgia entre inseguranças econômicas, famílias desestruturadas e promessas políticas quebradas. Muitos cresceram ouvindo que precisavam vencer individualmente, enquanto observavam o desemprego aumentar dentro das próprias casas.

            A estabilidade parecia um privilégio distante. Talvez por isso os romances fossem tão intensos: amar era uma maneira de resistir ao sentimento de descartabilidade que o mundo começava a impor.

            As canções daquela época funcionavam como pequenos abrigos emocionais.             Quando Capital Inicial cantava sobre fogo, parecia falar sobre uma juventude inteira tentando manter acesa alguma forma de sensibilidade num século que começava cada vez mais frio.

            O fogo era paixão, mas também era revolta. Era desejo de permanecer humano.

            Havia quem acreditasse que o futuro seria melhor. Havia quem fingisse acreditar apenas para suportar os dias.

            A verdade é que todos estavam aprendendo a lidar com uma sensação inédita de aceleração histórica. As tecnologias aproximavam pessoas distantes enquanto afastavam silenciosamente quem estava perto.

             Os jovens começaram a perceber que podiam conversar com qualquer pessoa no mundo e, ainda assim, se sentir profundamente sozinhos.



            Zygmunt Bauman chamaria aquilo de amor líquido anos depois. Relações frágeis num mundo igualmente frágil.

            Mas antes da teoria, veio a, experiência concreta: despedidas rápidas, promessas interrompidas, sentimentos consumidos pela ansiedade de um tempo que já não permitia permanências longas.

            Talvez a maior marca daquela juventude tenha sido justamente essa mistura estranha entre esperança e esgotamento. Eram jovens demais para desistir e cansados demais para acreditar completamente.

            Cresceram ouvindo que poderiam ser qualquer coisa, mas descobriram cedo que o sistema tinha espaço apenas para poucos vencedores. O restante deveria aprender a sorrir enquanto afundava lentamente em frustrações silenciosas.

            Ainda assim, em algum lugar entre a fumaça dos cigarros escondidos, os ônibus lotados no fim da tarde, os beijos apressados depois da aula e as músicas tocando em volume alto, existia verdade.

            Uma verdade imperfeita, ansiosa, contraditória, mas profundamente humana. E talvez seja isso que torna aquela juventude inesquecível: ela viveu no limite entre dois mundos.

             Um ainda analógico, lento e sensível. Outro digital, acelerado e permanentemente faminto.

            O fogo daquela geração nunca foi apenas romântico. Era existencial. Era o incêndio de quem tentava encontrar sentido enquanto o século começava a transformar pessoas em números, perfis e produtividade.

            E no meio de tudo isso, amar alguém ainda parecia um pequeno ato de rebeldia contra a frieza do mundo.

            Aquela geração entrou na vida adulta sem perceber exatamente em que momento a juventude havia terminado.

            Não existiu rito de passagem. Apenas boletos, empregos instáveis, ansiedade crônica e uma sensação constante de atraso. Os antigos corredores escolares foram substituídos por escritórios apertados, transportes públicos lotados e telas iluminando rostos exaustos durante madrugadas de trabalho.

            O futuro finalmente havia chegado, mas não parecia com as promessas feitas no começo do século.

            Os jovens dos anos 2000 cresceram ouvindo que poderiam mudar o mundo.             Depois descobriram que mal conseguiriam pagar aluguel sem sacrificar a própria saúde mental.

            A liberdade vendida pela modernidade escondia uma nova forma de escravidão: a obrigação permanente de desempenho. Não bastava trabalhar. Era preciso produzir felicidade, beleza, relevância e sucesso. O indivíduo virou empresa de si mesmo.

             Byung-Chul Han afirmaria que a sociedade contemporânea não funciona mais pela repressão, mas pela autoexploração.

             O sujeito moderno acredita ser livre enquanto destrói a si próprio para alcançar metas quase impossíveis. A juventude dos anos 2000 foi uma das primeiras a experimentar profundamente esse fenômeno. Cresceu conectada, acelerada e emocionalmente pressionada a transformar cada segundo em produtividade.

            As antigas lan houses desapareceram aos poucos. Os programas de conversa instantânea viraram aplicativos permanentes no bolso. O mundo entrou dentro das mãos das pessoas e nunca mais saiu.

             O silêncio virou desconforto. A solidão deixou de ser física e passou a ser psicológica. Era possível receber dezenas de mensagens por dia e continuar sentindo um vazio impossível de explicar.

            Os romances também mudaram. O amor começou lentamente a competir com distrações infinitas. Antes havia espera; agora havia atualização constante.

             Antes alguém desaparecia e deixava saudade; agora desaparecia e continuava online. A presença perdeu profundidade.

            Muitos relacionamentos passaram a morrer não por falta de sentimento, mas por excesso de estímulos externos.

            Ainda assim, algumas lembranças permaneciam intactas como pequenos refúgios emocionais. O som de uma música antiga tocando inesperadamente num mercado.

             O cheiro de chuva lembrando uma noite distante. A memória de mãos dadas atravessando ruas vazias depois de festas simples.

            O passado sobrevivia em detalhes mínimos, como se a vida insistisse em preservar fragmentos de humanidade apesar da brutalidade cotidiana.

            A música Fogo continuava reaparecendo em rádios, playlists e lembranças aleatórias, não apenas como nostalgia, mas como testemunho emocional de uma época inteira.

            Porque algumas músicas não pertencem somente à arte; pertencem à experiência coletiva. Tornam-se memória social.

             E aquela canção parecia carregar o retrato exato de uma geração que viveu tentando equilibrar intensidade afetiva e vazio existencial.

            As cidades também mudaram de rosto. Os espaços públicos foram sendo substituídos por ambientes privados de consumo.

            As praças esvaziaram-se lentamente. Caminhar sem destino tornou-se perigoso ou inútil dentro da lógica produtiva contemporânea.

             O capitalismo não suporta o tempo livre porque o tempo livre produz reflexão.        

            E indivíduos que refletem demais começam a questionar o próprio sistema.

            Guy Debord dizia que a sociedade moderna transformou a vida em espetáculo.

            Nos anos seguintes aos 2000, isso se tornaria brutalmente evidente.

             As pessoas passaram a viver para registrar a própria existência. Viagens, relacionamentos, refeições e dores tornaram-se conteúdo. A intimidade foi lentamente sacrificada no altar da exposição permanente.

            Mas havia algo trágico nisso tudo: quanto mais as pessoas mostravam felicidade, mais aumentavam os índices de depressão, ansiedade e solidão.

             A geração que cresceu acreditando na conexão digital descobriu que conexão não significa pertencimento.

             Muitos passaram anos cercados de imagens e completamente distantes de si mesmos.

            Em apartamentos pequenos iluminados pela luz fria dos computadores, milhares de jovens atravessaram madrugadas tentando entender por que se sentiam vazios mesmo consumindo tudo o que lhes disseram para desejar.

             Compravam roupas, celulares, experiências, cursos, mas a sensação de insuficiência permanecia intacta. O capitalismo cria necessidades infinitas justamente para impedir qualquer sensação duradoura de plenitude.

            O amor, nesse cenário, tornou-se quase um ato de resistência espiritual. Amar alguém profundamente exigia desacelerar.

            Exigia presença. Exigia aceitar vulnerabilidade num mundo obcecado por controle emocional. Talvez por isso tantas relações fracassassem: porque amar verdadeiramente contradiz a lógica da eficiência.

            As antigas fotografias dos anos 2000 começaram a adquirir valor quase sagrado.             Imagens tremidas, baixa resolução, rostos espontâneos, festas simples. Havia imperfeição nelas. E justamente por isso transmitiam verdade. Diferente das imagens filtradas dos anos posteriores, aquelas fotos pareciam carregar vida real.

            O tempo passou rápido demais para aquela geração. Muitos ainda se sentiam jovens enquanto observavam cabelos embranquecendo diante do espelho. A sensação de juventude interrompida tornou-se comum.

            Talvez porque a vida adulta contemporânea não ofereça estabilidade emocional suficiente para que alguém realmente sinta amadurecimento. Tudo permanece instável: empregos, relações, identidade e futuro.

            Sigmund Freud escreveu que o ser humano sofre principalmente por três razões: o corpo, o mundo externo e os relacionamentos.

            A juventude dos anos 2000 enfrentou as três simultaneamente.

            O corpo pressionado por padrões impossíveis, o mundo externo marcado por crises contínuas e os relacionamentos atravessados pela superficialidade crescente da modernidade digital.

            Mesmo assim, aquela geração continuava procurando beleza. Em músicas antigas. Em conversas sinceras durante a madrugada.

            Em reencontros inesperados. Em pequenas experiências que escapavam da lógica mercantil. Porque o ser humano talvez possua uma capacidade quase trágica de continuar buscando sentido mesmo cercado de vazio.

            As festas mudaram. Antes havia presença física e imperfeição espontânea.             Depois vieram os celulares levantados, as gravações constantes e a necessidade de parecer feliz para pessoas ausentes.

            O momento deixou de ser vivido plenamente porque passou a ser consumido enquanto acontecia.

            A juventude dos anos 2000 talvez tenha sido a última a experimentar parcialmente um mundo menos monitorado. Ainda existia esquecimento. Ainda existia erro sem registro permanente.

            Hoje tudo permanece arquivado, comentado e revisitado digitalmente. O passado já não desaparece; ele persegue.

            As músicas daquela época sobreviveram porque carregavam emoções humanas menos calculadas.

            Quando Capital Inicial cantava sobre fogo, parecia traduzir o desejo desesperado de permanecer sensível num mundo cada vez mais anestesiado.

            E talvez seja exatamente isso que explique a permanência emocional daquela geração: ela ainda acreditava, mesmo sem perceber, que sentir profundamente era importante.

            Com o passar dos anos, muitos reencontraram antigos amores pelas redes sociais. Alguns casados, outros solitários, outros emocionalmente destruídos pelas próprias escolhas.

            Havia sempre uma estranha melancolia nesses reencontros. Não porque o amor ainda existisse necessariamente, mas porque o passado carregava versões de si mesmos que já não podiam ser recuperadas.

            A memória transformou-se numa espécie de território sagrado.

            Lembrar dos anos 2000 passou a significar lembrar de um momento em que ainda parecia possível desacelerar.

            Antes da hiperconectividade absoluta. Antes da transformação completa das emoções em mercadoria digital.

            E talvez seja por isso que aquela geração continue voltando às mesmas músicas, aos mesmos filmes, às mesmas fotografias antigas. Não apenas por nostalgia estética, mas porque procura reencontrar fragmentos de humanidade perdidos durante a aceleração brutal do século XXI.

            No fundo, todos aqueles jovens queriam a mesma coisa: sentir que a vida possuía significado além da produtividade e do consumo.

             Queriam amar sem pressa. Queriam existir sem precisar transformar cada instante em performance pública. Queriam silêncio sem culpa. Queriam tempo.

            Mas o tempo avançou como sempre avança. Silencioso, indiferente e irreversível.

             E enquanto as décadas passavam, permanecia no ar aquela sensação melancólica de incêndio distante, como se a juventude dos anos 2000 ainda queimasse em algum lugar da memória coletiva, iluminando por alguns segundos a escuridão emocional do presente.

            E talvez o mais cruel tenha sido perceber que o cansaço daquela geração não vinha apenas do trabalho ou das dificuldades financeiras. Vinha também da sensação permanente de inadequação.

            O mundo mudou rápido demais, e ninguém ensinou como permanecer inteiro em meio a tantas transformações.

             A cada ano surgia uma nova tecnologia, uma nova tendência, uma nova obrigação emocional. Era preciso atualizar não apenas aparelhos, mas a própria personalidade.

            Os jovens dos anos 2000 envelheceram diante de telas.

            Viram amizades se dissolverem em timelines silenciosas, romances acabarem por mensagens curtas e tragédias humanas serem consumidas entre anúncios publicitários.

            A dor perdeu profundidade pública porque tudo passou, a durar poucos segundos antes de ser substituído por outro conteúdo. Até o sofrimento tornou-se descartável.

             Herbert Marcuse dizia que as sociedades modernas criam indivíduos incapazes de perceber a própria alienação.

            Talvez por isso, tantos continuassem seguindo rotinas destrutivas acreditando estarem apenas “fazendo o necessário”. A exaustão virou virtude. Dormir pouco tornou-se sinal de ambição. Sofrer calado passou a ser maturidade.

            Enquanto isso, a cidade seguia acesa durante a madrugada. Janelas iluminadas escondiam pessoas insomnes tentando organizar pensamentos que nunca desaceleravam.

            Muitos passavam horas olhando para o teto sem conseguir explicar exatamente o que sentiam. Não era tristeza simples.

            Não era apenas ansiedade. Era uma sensação difusa de desencontro com o próprio tempo.

            As músicas antigas continuavam funcionando como pequenas máquinas emocionais. Bastavam poucos acordes para trazer de volta corredores escolares, ruas molhadas pela chuva, abraços interrompidos e promessas que nunca chegaram a envelhecer completamente.



            A memória afetiva possui uma força quase cruel: ela devolve sentimentos que o tempo não conseguiu destruir totalmente.

            E havia também a culpa. Culpa por não ter conseguido manter certas amizades.             Culpa por sonhos abandonados. Culpa por ter se tornado adulto rápido demais ou por nunca ter conseguido se tornar adulto de verdade.

            A geração dos anos 2000 cresceu ouvindo que precisava conquistar o mundo, mas poucos estavam emocionalmente preparados para suportar a brutalidade dessa cobrança.

            O amor permaneceu existindo, embora mais cansado. As pessoas ainda se apaixonavam, ainda escreviam mensagens na madrugada, ainda sentiam ciúme, saudade e medo da perda. Mas algo havia mudado profundamente: amar passou a exigir coragem psicológica num tempo em que quase todos estavam emocionalmente feridos.

            Muitos começaram a construir relações defensivas. Não demonstravam demais para não parecerem frágeis.

             Não criavam expectativas para evitar decepções. Não mergulhavam profundamente para preservar algum controle sobre si mesmos.

            O problema é que ninguém atravessa a vida sem risco emocional. E relações sem entrega acabam se tornando apenas acordos temporários de solidão compartilhada.

             Erich Fromm afirmava que amar é uma arte que exige presença, disciplina e coragem.

             Mas o século XXI parecia ensinar exatamente o contrário: distração, velocidade e superficialidade.

             O resultado foi uma geração inteira dividida entre o desejo de intimidade e o medo constante de sofrer.

            Ainda assim, havia momentos de resistência humana. Conversas sinceras depois de longos períodos de silêncio. Reencontros inesperados em ruas movimentadas.             Pessoas que desligavam os celulares apenas para ouvir alguém verdadeiramente.             Pequenos gestos que pareciam insignificantes, mas carregavam uma dimensão quase revolucionária dentro de um mundo hiperacelerado.

            Com o tempo, muitos perceberam que a juventude não havia desaparecido completamente. Ela sobrevivia em fragmentos.

            Na maneira como certas músicas ainda causavam arrepios. Na memória de noites simples que pareciam infinitas. Na saudade de versões antigas de si mesmos.             Porque envelhecer talvez não signifique abandonar a juventude, mas aprender a conviver com seus fantasmas.

            A canção Fogo permanecia atravessando décadas justamente porque falava desse incêndio interno que o tempo não consegue apagar totalmente. O fogo dos desejos interrompidos.

             Das paixões mal resolvidas. Das perguntas existenciais que continuam retornando durante madrugadas silenciosas.

            E no fim, talvez aquela geração tenha aprendido uma verdade dolorosa: o mundo moderno prometeu liberdade, mas entregou aceleração.

             Prometeu conexão, mas produziu isolamento.

             Prometeu felicidade acessível, enquanto transformava seres humanos em consumidores emocionalmente esgotados.

            Mesmo assim, em algum lugar entre lembranças antigas, músicas tocando baixo e cidades iluminadas durante a madrugada, ainda permanecia uma centelha. Pequena, frágil, mas viva.

            A mesma centelha que fazia alguém acreditar no amor apesar de todas as frustrações. A mesma que fazia continuar caminhando apesar do vazio. A mesma que impedia o incêndio interior de se apagar completamente.

            Porque talvez sobreviver ao começo do século XXI tenha significado exatamente isso: aprender a carregar fogo dentro do peito sem deixar que ele destruísse completamente a própria alma.



Clayton Alexandre Zocarato

Possui graduação em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista (2005) - Unicep - São Carlos - SP, graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (2016) - Ceuclar - Campus de São José do Rio Preto – SP, Técnico em Comércio Exterior pelas Faculdades Eficaz, e atualmente cursa Serviços Jurídicos e Notoriais na Unimar. Escrevo regularmente para o site www.recantodasletras.com.br usando o pseudônimo ZACCAZ, mesclando poesia surrealista, com haikais e aldravias..Formado Especialista em Medina y Arte com ênfase em Gilles Deleuze e Equizoanálise   onde é também  pesquisador do Centro de Medicina y Arte  de Rosário – Argentina, sendo o primeiro brasileiro a atuas nesse centro de pesquisa. Especialista em Ensino pela Ufscar, especialista em Psicopedagogia Institucional pela Fundepe – Unesp, Especialista em História da África pela Faculdade de Minas Gerais.

·                  Email: claytonalexandrezocarato@yahoo.com.br

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