O Amor Mora ao Lado da Igreja - por Clayton Zocarato

 

      No interior paulista, onde as ruas de paralelepípedo ainda guardavam o cheiro de chuva e as torres das igrejas marcavam as horas da cidade, Augusto acreditava que o amor era uma coisa perigosa.

            Não por ser pecado exatamente — embora tivesse ouvido isso muitas vezes nos encontros de jovens —, mas porque amar alguém parecia abrir um lugar vulnerável demais dentro do peito.

            Ele tinha dezessete anos e participava do grupo de jovens da paróquia Santa Cecília, em uma cidade pequena cercada por canaviais e silêncio.

            Aos sábados, os encontros aconteciam no salão ao lado da igreja, com cadeiras de plástico, violão desafinado e cartazes antigos de retiros espirituais pregados nas paredes.

            Ali, entre orações, brincadeiras e ensaios para a missa da juventude, Augusto aprendeu a esconder sentimentos.

            Principalmente os que envolviam Helena.

            Helena cantava no ministério de música. Sua voz tinha aquela delicadeza melancólica das músicas românticas dos anos 2000, como se cada refrão fosse uma lembrança.

            Quando ela cantava “Só Hoje”, do Jota Quest, ou “Pra Ser Sincero”, do Engenheiros do Hawaii, o salão inteiro parecia diminuir até caber apenas nela.

            Mas era durante as canções da banda Vida Reluz que Augusto sentia o coração perder a defesa.

            Numa noite de retiro, enquanto a chuva caía fina sobre o telhado do sítio da comunidade, Helena começou a cantar baixinho:

            "Se a saudade ainda aperta o teu coração

            E a estrada deserta não parece ter fim..."



            Augusto conhecia aquela música desde criança. Sua mãe ouvia Vida Reluz enquanto limpava a casa nas manhãs de domingo.

            Mas naquela noite a letra parecia diferente. Parecia falar diretamente com ele.

            Porque a saudade que apertava seu coração nem era de alguém distante. Era saudade de algo que ainda nem tinha vivido.

            O primeiro amor.

            O primeiro toque sem culpa.

            A possibilidade de ser amado sem medo.

            Depois da oração, os jovens se espalharam pelo sítio. Alguns jogavam truco, outros conversavam perto da cozinha improvisada.

            Augusto ficou sozinho perto da quadra molhada, olhando a neblina invadir os campos.

            Foi quando Helena apareceu.

            — Você some às vezes — ela disse, segurando um copo de chocolate quente., parece que tá sempre pensando demais.

            Ele riu de nervoso.

            — Acho que Deus esqueceu de me fazer simples.

            Ela sorriu daquele jeito perigoso que desmontava qualquer defesa.

            — Talvez Ele tenha feito você profundo.

            Aquilo ficou ecoando dentro dele.

            Na catequese e nos encontros, falavam muito sobre pureza, sobre esperar, sobre controlar desejos.

            Algumas lideranças repetiam frases prontas, como se a juventude pudesse ser organizada igual banco de igreja: reta, silenciosa e obediente.

            Mas Augusto começava a perceber que o corpo também rezava.

            Rezava quando o coração acelerava ao encostar sem querer na mão dela durante os ensaios.

            Rezava quando sentia ciúme ao vê-la conversando com Vinícius, o coordenador do grupo.

            E isso o assustava.

            Porque ninguém ensinava aos jovens católicos o que fazer quando o amor deixava de ser teoria e virava febre.

            Naquela época, Augusto escutava escondido no quarto, músicas românticas antigas no computador da família. James Blunt, Nando Reis, Lifehouse,  Kelly Clarkson.      

            Canções que falavam de amor com uma intensidade que ele não encontrava nos discursos da igreja.

            Ele se perguntava por que tudo parecia dividido; o sagrado de um lado, o desejo do outro.

            Como se Deus não pudesse habitar também no frio da barriga.

            Certa tarde, depois da missa de domingo, Helena o chamou para ajudá-la a guardar os instrumentos. A igreja estava quase vazia. O pôr do sol atravessava os vitrais e deixava tudo dourado.

            — Augusto… posso te perguntar uma coisa?

            — Pode.

            — Você tem medo de gostar de alguém?

            Ele ficou em silêncio.

            Porque aquela pergunta era exatamente o centro de tudo.

            — Tenho — respondeu baixo. — Porque parece que a gente cresce ouvindo mais sobre culpa do que sobre amor.

            Ela abaixou os olhos.

            — Eu também sinto isso.

            Por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada. Só o barulho distante da praça e o eco das últimas pessoas saindo da igreja.

            Então Helena segurou a mão dele.

            Não foi um gesto escandaloso.

            Nem cinematográfico.

            Foi pequeno.

            Humano.

            Tremendo.

            E justamente por isso pareceu eterno.

            Augusto sentiu vontade de chorar.

            Porque, pela primeira vez, percebeu que talvez amadurecer não fosse abandonar a fé para viver o amor.

            Talvez fosse aprender que Deus permanecia ali também: na confusão, na descoberta, na dúvida, no desejo de ser abraçado sem precisar pedir perdão por existir.

            Na saída da igreja, a noite do interior já tinha começado.

            As luzes amarelas dos postes iluminavam as ruas vazias enquanto o vento trazia cheiro de terra molhada.

            Helena caminhava ao lado dele em silêncio.

            E Augusto entendeu que certos amores juvenis não começam com coragem.

            Começam com medo.

            Mas continuam mesmo assim.

            Naquela noite, depois de caminharem lado a lado até a praça da matriz, Helena soltou devagar a mão de Augusto antes que alguém os visse.

            O gesto pareceu simples, mas deixou um vazio estranho no peito dele, como se o calor daquela pequena coragem tivesse ido embora rápido demais.

            A cidade do interior era assim.

            Todo mundo observava tudo.

            A dona da pastelaria sabia quem brigava em casa.

            O sacristão sabia quais casais terminavam.

            As catequistas percebiam olhares antes mesmo que os próprios jovens entendessem o que sentiam.

            Por isso Augusto e Helena passaram semanas vivendo um amor silencioso.

            Um amor de olhares durante o evangelho.

            De dedos se encostando rapidamente ao dividir o mesmo folheto da missa.

            E talvez justamente por ser proibido, tudo parecesse mais intenso.

            Augusto começou a reparar que muitos dos amigos do grupo de jovens também carregavam conflitos parecidos.

            Durante as rodas de conversa, os coordenadores falavam sobre santidade como se fosse ausência de desejo, como se amadurecer fosse simplesmente aprender a negar o próprio corpo.

            Mas ninguém ali era feito de pedra.

            Mateus namorava escondido uma menina da cidade vizinha.

            Luciana chorava porque queria fazer faculdade em Campinas e a família dizia que “mulher direita não precisava sair de casa”.

            João se sentia culpado por beijar a namorada depois da novena.

            E Augusto… Augusto só queria entender por que amar Helena parecia ao mesmo tempo tão bonito e tão errado.

            Nas noites quentes de novembro, ele ficava sentado na varanda ouvindo música no velho display.

             As canções românticas dos anos 2000 viravam abrigo para sentimentos que ele não sabia nomear.

            “Here Without You”.

            “Por Enquanto”.

            “Velha Infância”.

            “Só Você”.

            “Pra Rua Me Levar”.

            Tudo parecia falar daquela adolescência confusa do interior: a vontade de fugir, o medo de decepcionar os pais, a culpa misturada com desejo, a sensação de que a vida verdadeira começaria em outro lugar.

            Mas Helena era o motivo que fazia Augusto desejar permanecer.

            O fim do ano trouxe a preparação para o retiro de verão da diocese.

             Jovens de várias cidades pequenas se reuniriam em um colégio católico antigo, cercado por árvores enormes e corredores de azulejos frios.

            Helena estava animada.

            Augusto, nervoso.

            Porque sabia que passar quatro dias ao lado dela poderia mudar tudo.

            Na viagem de ônibus, os jovens cantavam músicas antigas da igreja, batiam palmas e dividiam salgadinhos.

            O coordenador Vinícius tentava manter a ordem, embora ninguém realmente prestasse atenção.

            Helena sentou ao lado de Augusto.

            Os braços dos dois se tocavam a cada curva da estrada.

            E aquilo bastava para fazê-lo perder completamente a concentração.

            — Você tá estranho hoje — ela cochichou.

            — Tô normal.

            — Mentira. Você faz essa cara quando tá escondendo alguma coisa.

            Ele olhou pela janela.

            Os campos passavam rápidos, dourados pelo sol da tarde.

            — Helena… você já teve vontade de ir embora daqui?

            Ela demorou para responder.

            — Todo dia.

            A sinceridade dela o atingiu fundo.

            Porque Augusto também carregava aquele sentimento.

            O interior paulista podia ser bonito, acolhedor, cheio de memória… mas também apertava os sonhos das pessoas como roupas pequenas demais.

            No retiro, os jovens dormiam separados em alas masculinas e femininas.

            Havia horários rígidos, momentos de oração, palestras sobre vocação e namoro cristão.

            Durante uma das pregações, um padre falou longamente sobre pureza.

            Disse que os jovens precisavam fugir das tentações do mundo moderno.

            Que o amor verdadeiro exigia sacrifício.

            Que os desejos da carne afastavam as pessoas de Deus.

            Augusto ouviu tudo em silêncio.

            Mas algo dentro dele começava a cansar.

            Porque, enquanto o padre falava, ele só conseguia lembrar da delicadeza da mão de Helena segurando a dele naquela noite da igreja.

            Aquilo realmente podia ser algo impuro?

            Mais tarde, depois da adoração ao Santíssimo, Augusto saiu sozinho para o jardim do colégio.

            A noite estava fria e silenciosa. Algumas janelas ainda tinham luz acesa, mas quase todos já dormiam.

            Foi quando ouviu passos.

            Helena.

            Ela sentou ao lado dele no banco de concreto.

            Por alguns segundos, ficaram apenas olhando o céu.

            — Você ficou mal depois da palestra, né? — ela perguntou.

            Augusto suspirou.

            — Às vezes eu acho que a gente cresce aprendendo a ter medo de sentir.

            Helena abaixou os olhos.

            — Minha mãe diz que mulher direita precisa se guardar.

            — E você acredita nisso?

            Ela demorou.

            — Eu acredito em Deus… mas não sei se acredito em tudo que colocam na boca Dele.

            O vento atravessou as árvores.

            Augusto sentiu o coração acelerar.

            Porque aquela conversa parecia perigosa.

            Profunda.

            Sem volta.

            — Helena…

            Ela virou devagar.

            — O quê?

            Ele queria dizer: “eu penso em você o tempo inteiro.”“eu tenho medo de te perder.” “eu nunca gostei de alguém assim.”

            Mas as palavras travaram.

            O medo sempre chegava antes da coragem.

            Então Helena aproximou a cabeça do ombro dele.

            E ficou ali.

            Em silêncio.

            Os dois ouvindo apenas os grilos e o som distante de alguém tocando violão em outro bloco do retiro.

            Era uma proximidade inocente.

            Mas intensa o suficiente para mudar tudo.

            Depois daquele retiro, a relação dos dois ficou impossível de esconder.

            Os amigos começaram a perceber.

            As brincadeiras aumentaram.

            Os olhares também.

            Mas junto com o encanto veio a culpa.

            Certa tarde, uma coordenadora chamou Helena para conversar. Disse que ela precisava “dar bom exemplo” no ministério de música. Comentou que os dois estavam “próximos demais”.



            Helena saiu chorando.

            Quando contou isso para Augusto, ele sentiu uma raiva nova.

            Não contra a fé.

            Mas contra a forma como transformavam juventude em vigilância.

            — Parece que amar virou crime — ele disse.

            — Às vezes eu acho que eles esquecem que a gente também é humano.

            Naquela noite, pela primeira vez, Augusto segurou o rosto dela.

            Devagar.

            Como quem segura algo precioso demais para quebrar.

            E então a beijou.

            Foi um beijo curto.

            Tímido.

            Cheio de medo.

            Mas também cheio de verdade.

            O mundo não acabou.

            Nenhum raio caiu do céu.

            Nenhum pecado destruiu a cidade.

            Só existiam dois adolescentes tremendo de emoção atrás do salão paroquial enquanto a quermesse acontecia do outro lado da praça.

            E Augusto nunca esqueceria a forma como Helena sorriu depois.

            Como se também tivesse entendido que Deus talvez não estivesse distante daquele momento.

            Talvez estivesse exatamente ali.

            Os meses passaram rápidos.

            O último ano escolar terminou.

            As festas de formatura chegaram.

            As dúvidas sobre faculdade começaram a invadir a vida de todos.

            Helena queria estudar Letras.

            Augusto sonhava cursar História.

            Mas havia um problema: as universidades ficavam longe dali.

            E o amor deles parecia pequeno demais diante da distância que a vida adulta começava a impor.

            Numa madrugada de fevereiro, sentados na calçada depois da missa de cinzas,             Helena perguntou:

            — E se a gente não conseguir continuar?

            Augusto olhou para ela sem saber responder.

            Porque crescer também significava descobrir que amar alguém nem sempre impedia o tempo de mudar tudo.

            Ao longe, alguém passava de carro ouvindo música alta.

            Uma canção romântica antiga ecoou pela rua vazia.

            E Augusto sentiu uma tristeza bonita atravessar o peito.

            Daquelas que aparecem quando percebemos que certos momentos já estão virando lembrança enquanto ainda acontecem.

            Helena encostou a cabeça nele.

            — Promete que não vai esquecer de mim?

            Ele sorriu fraco.

            — Acho que algumas pessoas viram parte da nossa oração.

            Ela chorou em silêncio.

            E naquele instante Augusto entendeu: o primeiro amor quase nunca termina de verdade.

            Ele continua existindo nas músicas antigas.

            Nos bancos da igreja.

            Nas noites quentes do interior.

            Nas saudades que voltam sem avisar.

            Principalmente quando alguma canção da Vida Reluz toca baixinho em algum lugar distante:

            "Se a saudade ainda aperta o teu coração..."

            E então tudo retorna.

            A juventude.

            A fé.

            O medo.

            O desejo.

            O amor.

            Como uma estrada deserta que nunca parece ter fim.



Clayton Alexandre Zocarato

Possui graduação em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista (2005) - Unicep - São Carlos - SP, graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (2016) - Ceuclar - Campus de São José do Rio Preto – SP, Técnico em Comércio Exterior pelas Faculdades Eficaz, e atualmente cursa Serviços Jurídicos e Notoriais na Unimar. Escrevo regularmente para o site www.recantodasletras.com.br usando o pseudônimo ZACCAZ, mesclando poesia surrealista, com haikais e aldravias..Formado Especialista em Medina y Arte com ênfase em Gilles Deleuze e Equizoanálise   onde é também  pesquisador do Centro de Medicina y Arte  de Rosário – Argentina, sendo o primeiro brasileiro a atuas nesse centro de pesquisa. Especialista em Ensino pela Ufscar, especialista em Psicopedagogia Institucional pela Fundepe – Unesp, Especialista em História da África pela Faculdade de Minas Gerais.

·                  Email: claytonalexandrezocarato@yahoo.com.br

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