Neon, Saudade e Juventude – Ensaio baseado na canção de Billy Idol, Eyes Without a Face, lançada em 1984 no álbum Rebel Yell - por Clayton Zocarato
Neon, Saudade e Juventude
– Ensaio baseado na canção de Billy Idol, Eyes Without a Face, lançada em 1984
no álbum Rebel Yell
Havia algo de mágico nas noites dos
anos oitenta. Talvez fosse a ilusão coletiva de que o futuro ainda possuía
promessas.
Talvez fossem as luzes coloridas
refletidas nas bolas espelhadas dos salões de baile. Talvez fosse apenas a
juventude, essa estranha embriaguez que transforma qualquer instante em
eternidade.
A cidade não era grande. Também não
era pequena.
Era apenas uma dessas cidades onde
os sonhos precisavam aprender a caber dentro dos limites do horizonte.
Durante a semana, os jovens trabalhavam,
estudavam, obedeciam aos relógios, aos pais, aos professores e às exigências
silenciosas da vida. Mas, quando chegava o sábado à noite, algo mudava.
Os salões se enchiam.
As luzes diminuíam.
Os corpos começavam a falar uma
linguagem que as palavras desconheciam.
Naquela época, antes das telas
ocuparem todos os espaços da existência, as pessoas ainda se olhavam. Havia uma
coragem necessária para atravessar um salão lotado e convidar alguém para
dançar.
Havia o risco da rejeição. Havia o
mistério da aproximação. Havia humanidade.
Foi numa dessas noites que dois
desconhecidos dividiram o mesmo instante.
Nenhum dos dois procurava amor.
Talvez porque os amores mais
profundos quase nunca sejam encontrados por quem os procura.
Ela usava um vestido escuro que
parecia absorver a luz ao redor. Seus cabelos acompanhavam os movimentos da
música como se também dançassem. Havia em seu olhar algo melancólico, uma
espécie de saudade de algo que ainda não tinha acontecido.
Ele a observou de longe durante
algum tempo.
Não pela beleza.
Havia outras pessoas bonitas.
Mas porque ela parecia ausente.
Como alguém que estivesse presente
apenas pela metade.
Como alguém que dançasse com
fantasmas.
A música mudava.
As pessoas riam.
As luzes giravam lentamente sobre a
multidão.
Então os primeiros acordes de "Eyes Without a Face"
preencheram o ambiente.
O salão inteiro pareceu desacelerar.
Era uma música diferente.
Não possuía a explosão das faixas
mais dançantes da época. Havia nela uma tristeza elegante, um romantismo
sombrio, uma sensação de perda impossível de explicar.
Ela fechou os olhos.
Por um instante pareceu
completamente sozinha no meio da multidão.
Foi então que ele atravessou o
salão.
Não disse nada extraordinário.
Nenhuma frase memorável.
Nenhuma declaração cinematográfica.
Apenas estendeu a mão.
E ela aceitou.
Às vezes a vida inteira muda através
dos gestos mais simples.
Os dois começaram a dançar.
Lentamente.
Sem pressa.
Sem coreografia.
Como se estivessem descobrindo um
idioma antigo que ambos já conheciam.
Os corpos encontraram uma distância
confortável.
Nem próximos demais.
Nem distantes demais.
A distância exata onde o desejo
começa a nascer.
Ao redor deles, o mundo continuava.
Mas algo havia sido suspenso.
A música parecia existir apenas para
aqueles poucos minutos.
Ele sentia o perfume dela
misturar-se ao ar carregado de fumaça, perfume barato, bebidas e sonhos
juvenis.
Ela sentia a firmeza tranquila da
mão que a conduzia.
Nenhum dos dois falava.
Porque certas conversas acontecem em
outra frequência.
O filósofo talvez diria que todo
encontro humano é uma tentativa de vencer a solidão fundamental da existência.
Mas a dança parecia sugerir algo
diferente.
Talvez não estivéssemos destinados a
vencer a solidão.
Talvez estivéssemos destinados
apenas a compartilhá-la por alguns instantes.
A juventude dos anos oitenta
carregava suas próprias contradições.
Falava-se de liberdade.
Falava-se de modernidade.
Falava-se de progresso.
Mas havia também inseguranças.
Medos.
Crises econômicas.
Desigualdades.
Famílias tentando sobreviver.
Pais que trabalhavam demais.
Filhos tentando descobrir quem eram.
Os salões de baile funcionavam como
pequenas repúblicas temporárias da esperança.
Ali todos podiam reinventar-se.
O tímido tornava-se corajoso.
O sonhador tornava-se protagonista.
A garota invisível tornava-se rainha
da noite.
A música democratizava milagres.
Eles continuaram dançando.
A canção seguia seu curso
melancólico.
E algo estranho acontecia.
Quanto mais se aproximavam, mais
percebiam o quanto desconheciam um ao outro.
Talvez o amor verdadeiro comece
exatamente assim.
Não quando encontramos respostas.
Mas quando descobrimos a
profundidade das perguntas.
Quem era aquela pessoa?
Quais tristezas carregava?
Quais sonhos haviam sobrevivido?
Quais haviam morrido?
Quais medos escondia atrás daquele
olhar?
A música terminou.
Mas eles permaneceram próximos por
alguns segundos.
Como se o silêncio tivesse se
tornado uma continuação da melodia.
Conversaram.
Primeiro sobre banalidades.
Depois sobre livros.
Depois sobre a vida.
Depois sobre coisas que normalmente
não se contam a desconhecidos.
A noite avançou.
As horas tornaram-se leves.
E o salão começou a esvaziar.
Lá fora, a cidade permanecia a
mesma.
As ruas.
Os postes.
Os muros.
As promessas.
Mas para eles tudo parecia
diferente.
Porque o amor possui essa capacidade
estranha de reorganizar a percepção do mundo.
Os meses passaram.
Novos bailes aconteceram.
Novas músicas surgiram.
Novas danças preencheram os finais
de semana.
E eles continuaram se encontrando.
Nem sempre haviam declarações
apaixonadas.
Nem sempre haviam grandes
acontecimentos.
Na maior parte do tempo haviam apenas companhia.
E talvez seja justamente isso que
torna um amor duradouro tão raro.
A capacidade de transformar a
presença em abrigo.
Enquanto o mundo corria atrás do
sucesso, do dinheiro, da aparência ou das certezas ideológicas, eles construíam
algo mais discreto.
Uma intimidade.
Uma amizade amorosa.
Uma cumplicidade.
Os anos oitenta avançavam
velozmente.
As modas mudavam.
Os penteados mudavam.
As músicas mudavam.
Os discursos políticos mudavam.
Mas toda geração descobre cedo ou tarde
uma verdade desconfortável: o tempo é o único revolucionário que jamais perde
uma eleição.
E ele continuou passando.
Levando consigo juventudes, ilusões
e calendários.
Certa noite, muitos anos depois, uma
velha canção voltou a tocar inesperadamente.
Os primeiros acordes surgiram de um
rádio distante.
A mesma música.
Aquela música.
Por um instante, tudo regressou.
O salão.
As luzes coloridas.
Os amigos desaparecidos.
As roupas da época.
Os sonhos que pareciam infinitos.
A primeira dança.
A primeira aproximação.
O primeiro toque.
Perceberam então que o amor talvez
não seja aquilo que permanece imutável.
Talvez seja justamente aquilo que
consegue atravessar as mudanças.
Porque amar alguém não significa
congelá-lo no tempo.
Significa acompanhá-lo através dele.
A música continuava tocando.
A voz distante parecia atravessar
décadas.
E eles compreenderam algo que a
juventude ainda não podia compreender naquela primeira noite.
Os olhos nunca enxergam
completamente quem amamos.
Existe sempre uma parte inacessível.
Uma região secreta.
Um território que pertence apenas ao
outro.
Talvez seja esse mistério que mantém
o amor vivo.
Talvez amar seja dançar para sempre
ao redor de um enigma.
A canção terminou.
Como todas as canções terminam.
Mas algumas permanecem ecoando
dentro da memória.
E algumas danças continuam
acontecendo muito depois que os corpos param de se mover.
Porque existem noites que não acabam
quando amanhecem.
Existem músicas que não terminam
quando silenciam.
E existem amores que continuam
dançando dentro da alma muito depois de terem atravessado o tempo.
Talvez a juventude tenha sido apenas
isso: uma longa pista iluminada por luzes
coloridas.
Uma sucessão de canções.
Uma coleção de sonhos.
E, entre todos os rostos que
passaram pela multidão, a descoberta rara de alguém capaz de transformar uma
simples dança em eternidade.
E a eternidade, descobriram mais
tarde, não era uma questão de duração.
Era uma questão de intensidade.
Porque existem pessoas que
permanecem ao nosso lado durante décadas sem deixar marcas profundas, enquanto
outras conseguem habitar para sempre uma única noite da memória.
Os anos continuaram avançando.
Vieram outras músicas.
Outras modas.
Outras tecnologias.
Vieram os telefones que cabiam nos
bolsos, as mensagens instantâneas, os encontros mediados por telas luminosas.
O mundo tornou-se mais rápido, mais
conectado e, de algum modo difícil de explicar, mais distante.
Os antigos bailes começaram a
desaparecer.
Os salões fecharam as portas.
As bolas espelhadas deixaram de
girar.
As luzes coloridas foram
desmontadas.
Os DJs envelheceram.
As bandas silenciaram.
As fotografias amarelavam lentamente
dentro das gavetas.
Parecia que uma época inteira estava
sendo recolhida pelo tempo.
Mas a memória possui seus próprios
mecanismos de resistência.
Ela não obedece aos calendários.
Não respeita a cronologia.
Às vezes uma simples melodia é capaz
de derrubar quarenta anos de distância.
Às vezes um perfume esquecido
atravessa décadas.
Às vezes um feixe de luz entrando
pela janela numa tarde comum possui a mesma cor de uma noite distante, e então
tudo retorna.
As vozes.
Os risos.
Os abraços.
Os corredores do salão.
As expectativas.
As inseguranças.
Os sonhos que ainda não sabiam que
seriam sonhos.
Porque existe uma diferença profunda
entre os sonhos da juventude e as lembranças da maturidade.
Na juventude acreditamos que o
melhor está à nossa frente.
Na maturidade descobrimos que parte
do melhor já ficou para trás.
E essa descoberta carrega uma beleza
triste.
Uma beleza semelhante àquela das
estações ferroviárias abandonadas.
Dos cinemas antigos.
Das cartas escritas à mão.
Das canções que continuam tocando em
algum lugar da alma mesmo quando o rádio foi desligado há muito tempo.
Haviam noites em que permaneciam
acordados relembrando.
Não os grandes acontecimentos.
Não as datas importantes.
Mas os detalhes.
Sempre os detalhes.
A forma como as luzes refletiam nos
cabelos.
O jeito tímido de sorrir.
A sensação de atravessar um salão
lotado.
O toque inicial das mãos.
O nervosismo escondido.
Os silêncios.
Principalmente os silêncios.
Porque os anos ensinaram que a
intimidade não nasce das palavras.
Nasce daquilo que não precisa ser
dito.
E então compreendiam que talvez a
verdadeira saudade não seja sentir falta de uma pessoa.
Talvez seja sentir falta de quem
éramos ao lado dela.
Sentir falta daquela versão de nós
mesmos que existia apenas naquela época.
A juventude não desaparece porque
envelhecemos.
Ela desaparece porque os lugares
onde ela habitava deixam de existir.
E, pouco a pouco, vamos nos tornando
estrangeiros dos próprios cenários que nos formaram.
Às vezes caminhavam por ruas
antigas.
Tentavam reconhecer fachadas.
Esquinas.
Praças.
Mas a cidade parecia ter trocado de
pele.
Onde havia uma loja existia outra.
Onde havia um cinema existia um
estacionamento.
Onde havia encontros existia pressa.
Onde havia espera existia
velocidade.
Tudo parecia mais eficiente.
E tudo parecia menos humano.
Talvez toda geração carregue a
impressão de que perdeu alguma coisa preciosa.
Mas para aqueles que viveram as
noites dos antigos bailes, a perda possuía uma textura especial.
Porque não se tratava apenas de um
lugar.
Tratava-se de uma forma de viver o
tempo.
Naquela época, para encontrar alguém
era preciso sair de casa.
Era preciso caminhar.
Esperar.
Olhar.
Arriscar.
Hoje bastam alguns toques numa tela.
Mas será que a facilidade aproximou
as pessoas?
Ou apenas eliminou o encanto da
procura?
Ninguém sabia responder.
Apenas sabiam que havia algo
irrecuperável na lentidão daqueles encontros.
Algo que nenhuma tecnologia
conseguia reproduzir.
Então, certa tarde, encontraram uma
velha caixa esquecida no fundo de um armário.
Dentro dela repousavam fotografias.
Ingressos.
Bilhetes.
Recortes.
Pequenos fragmentos de uma vida.
Ao tocar aqueles objetos, sentiram
algo semelhante ao que os arqueólogos talvez sintam diante de civilizações
desaparecidas.
Porque toda juventude, quando
observada à distância, parece uma civilização perdida.
As fotografias mostravam rostos
sorridentes.
Olhares cheios de futuro.
Corpos que ainda não conheciam o
peso dos anos.
E havia uma fotografia em
particular.
Uma pista de dança.
Luzes difusas.
Uma música que parecia quase
visível.
E dois jovens dançando.
Nada extraordinário.
Nada histórico.
Nenhum acontecimento destinado aos
livros.
Apenas uma dança.
Mas talvez a verdadeira história
humana seja feita exatamente dessas coisas.
Não das guerras.
Não dos governos.
Não dos discursos.
Mas dos instantes silenciosos em que
duas pessoas descobrem que não estão sozinhas no mundo.
O sol começava a se pôr.
A luz dourada atravessava a janela.
As fotografias voltavam lentamente
para a caixa.
E a vida seguia seu caminho
inevitável.
Contudo, antes de guardar a última
lembrança, compreenderam algo.
A saudade não é apenas tristeza.
A saudade também é gratidão.
Porque ninguém sente saudade daquilo
que não foi importante.
A saudade é o amor que encontrou
outra forma de permanecer.
É a maneira que o coração inventou
para continuar conversando com o tempo.
Lá fora, a tarde transformava-se em
noite.
E em algum lugar distante, talvez em
um rádio antigo, talvez apenas dentro da memória, uma voz voltava a cantar.
A mesma melodia.
O mesmo eco.
A mesma juventude preservada em
notas musicais.
E por um instante quase impossível,
parecia que o velho salão ainda existia.
As luzes ainda giravam.
Os amigos ainda estavam presentes.
Os sonhos ainda eram maiores que os
medos.
E dois jovens continuavam dançando
devagar no centro do mundo.
Não como eram.
Mas como permaneceriam para sempre
dentro da lembrança.
Porque existem amores que
envelhecem.
E existem amores que se transformam
em memória.
Mas os mais raros conseguem realizar
as duas coisas ao mesmo tempo.
Envelhecem com a vida.
E permanecem eternamente jovens
dentro da saudade.
Possui graduação em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista (2005) - Unicep - São Carlos - SP, graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (2016) - Ceuclar - Campus de São José do Rio Preto – SP, Técnico em Comércio Exterior pelas Faculdades Eficaz, e atualmente cursa Serviços Jurídicos e Notoriais na Unimar. Escrevo regularmente para o site www.recantodasletras.com.br usando o pseudônimo ZACCAZ, mesclando poesia surrealista, com haikais e aldravias..Formado Especialista em Medina y Arte com ênfase em Gilles Deleuze e Equizoanálise onde é também pesquisador do Centro de Medicina y Arte de Rosário – Argentina, sendo o primeiro brasileiro a atuas nesse centro de pesquisa. Especialista em Ensino pela Ufscar, especialista em Psicopedagogia Institucional pela Fundepe – Unesp, Especialista em História da África pela Faculdade de Minas Gerais.
· Email: claytonalexandrezocarato@yahoo.com.br
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