VOZES DE MOTTAS | Nº 02 Notícias, histórias e acontecimentos de Mottas e região
VOZES
DE MOTTAS | Nº 02
Notícias,
histórias e acontecimentos de Mottas e região
Mottas:
entre lavouras, histórias e gente que faz o interior de Teresópolis acontecer
No
3º Distrito, região reúne agricultura familiar, tradição, cultura e mobilização
comunitária; na segunda edição do Vozes de Mottas, apresentamos aos leitores do
Jornal Alecrim um pouco desse território
Nesta
segunda edição do Vozes de Mottas, a proposta é justamente esta: apresentar
Mottas aos leitores do Jornal Alecrim e começar a revelar um pouco das pessoas,
do trabalho, da cultura e das histórias existentes nesse território rural.
Mottas
— também encontrada em registros públicos com a grafia Motas — integra a região
rural do 3º Distrito de Teresópolis, atualmente denominado Vale de Bonsucesso.
O próprio IBGE identifica setores rurais nessa área e registra referências
geográficas como o Córrego Mottas e a estrada Mottas–Soledade.
Localizada
no eixo da RJ-130, rodovia Teresópolis–Nova Friburgo, a região mantém uma
relação histórica com a produção rural e com outras localidades do interior do
município. Dados locais utilizados pela comunidade apontam uma população de
aproximadamente 3 mil habitantes na região ampliada de Mottas e seu entorno.
Como não encontramos, nesta pesquisa, dado censitário oficial recente que
corresponda exatamente a esse mesmo recorte territorial, o número deve ser
entendido como uma estimativa local, e não como população oficial de um bairro
isolado.
Uma
região que ajuda a colocar alimento na mesa
Falar de Mottas significa necessariamente falar de agricultura.
A
produção de hortaliças faz parte da identidade econômica e social da região,
inserida em um município no qual a agricultura familiar possui enorme
relevância. Pesquisa acadêmica do UNIFESO, utilizando dados municipais e da
EMATER-Rio, registra 4.879 produtores rurais e 3.492 estabelecimentos rurais em
Teresópolis, além de mencionar Mottas entre as localidades abrangidas por
levantamento realizado com produtores do município.
Alface,
rúcula, agrião, couve e diversas outras hortaliças fazem parte desse universo
produtivo, com cultivos convencionais e também hidropônicos. Em reportagem
sobre a Festa dos Produtores, a região de influência do evento foi apresentada
como integrante de uma extensa área produtiva do município, evidenciando a
força do trabalho rural que movimenta a economia local e conecta o campo à
cidade.
É
importante fazer essa distinção: os milhares de produtores mencionados em
reportagens não estão todos concentrados exclusivamente em Mottas. Eles
integram uma região rural produtiva mais ampla. Mottas, porém, ocupa lugar
relevante dentro dessa cadeia e carrega na paisagem e no cotidiano as marcas
dessa vocação agrícola.
A
própria Prefeitura define como missão de sua Secretaria de Agricultura fomentar
a agricultura familiar e promover o desenvolvimento econômico e social dos
moradores dos 2º e 3º Distritos, com atenção à geração de trabalho e renda e ao
desenvolvimento sustentável.
Agricultura,
mas também cultura
Quem
pensa que a vida rural se resume ao trabalho nas lavouras conhece apenas uma
parte dessa história.
Mottas
também possui manifestações culturais, artesanato, festas, encontros
comunitários e iniciativas que procuram preservar as características do
interior.
Um
exemplo é a Festa dos Produtores de Mottas. Em sua segunda edição, realizada em
2023, a programação reuniu desfile de tratores agrícolas, leilão de animais,
concurso de alface, Folia de Reis, quadrilha e apresentações de artistas
locais. A proposta declarada pelos organizadores era resgatar as origens
culturais da região rural e, ao mesmo tempo, valorizar a agricultura familiar e
criar oportunidades de renda.
O
próprio Jornal Alecrim acompanhou aquela edição e registrou a forte
participação da comunidade, os expositores, produtores e atividades culturais,
além da presença de ações ambientais que já utilizavam o nome “Cuidai do Lixo
Nosso de Cada Dia”.
Há
registros anteriores dessa combinação entre campo, formação e cultura. Em 2017,
Mottas recebeu atividades de um projeto envolvendo turismo rural, saúde,
educação, geração de renda, hidroponia e capacitação da comunidade. Naquele
mesmo ano, o Festival Internacional de Produtores Rurais de Mottas reuniu
produtos orgânicos, comidas típicas, música, teatro, dança, poesia, artesanato,
oficinas e palestras.
Tudo
isso ajuda a revelar uma característica importante do território: em Mottas,
produção rural, vida comunitária e cultura frequentemente caminham juntas.
Uma
comunidade que aprendeu a se organizar
Parte
dessa capacidade de articulação também pode ser percebida na trajetória da
Associação dos Produtores e Artesãos de Mottas e Regiões Adjacentes (APA-MR).
A
associação foi fundada em 29 de agosto de 2018 como Organização da Sociedade
Civil, com o propósito de contribuir para a organização dos trabalhadores e da
comunidade de Mottas e regiões adjacentes. Entre seus objetivos estão promover
o bem-estar da comunidade, melhorar o escoamento da produção, difundir técnicas
produtivas sustentáveis e desenvolver ações nas áreas de saúde, educação,
cultura, esporte e lazer.
Seu
portfólio registra ações de capacitação e educação continuada, parcerias para
prestação de serviços comunitários, atividades culturais e iniciativas
ambientais. Também documenta a participação da associação em projetos
envolvendo produtores rurais e instituições como EMATER-Rio e Fundação Banco do
Brasil.
Um
registro particularmente simbólico aparece em 2022: moradores participaram, em
regime de mutirão, da construção de uma lixeira comunitária na localidade de Pé
da Serra, na estrada Teresópolis–Soledade.
A
mobilização comunitária também apareceu na busca por melhorias na saúde. Em
2022, a Prefeitura anunciou a desapropriação de um imóvel para implantação de
uma Unidade Básica de Saúde em Motas, após mobilização envolvendo comunidade e
representantes locais. Na ocasião, foi destacado que moradores também haviam se
mobilizado para arrecadar parte dos recursos necessários à aquisição do
terreno.
São
exemplos que ajudam a explicar uma característica que esta coluna certamente
encontrará muitas vezes pelo caminho: a força da organização comunitária.
Campo,
turismo e novas possibilidades
A
vocação agrícola não impede Mottas de olhar para outras possibilidades de
desenvolvimento.
O
turismo rural, a gastronomia, o artesanato, as experiências ligadas à produção
agrícola e os eventos culturais podem aproximar ainda mais campo e cidade. Já
em 2017, iniciativas desenvolvidas na localidade apontavam justamente para essa
combinação entre produção, conhecimento, saúde, geração de renda e turismo.
É
um potencial que merece ser observado não apenas pelo visitante, mas também
pelo próprio morador. Valorizar o território significa reconhecer que uma
lavoura, uma receita de família, uma técnica agrícola, uma história contada
pelos mais antigos, uma festa tradicional ou o trabalho de um artesão também
podem integrar o patrimônio cultural de uma comunidade.
Muito
mais do que um ponto no mapa
Talvez
essa seja a melhor maneira de apresentar Mottas.
Não
apenas como uma localidade no caminho entre Teresópolis e Nova Friburgo.
Não
apenas como uma região produtora de hortaliças.
Mas
como um território formado por pessoas, no qual trabalho, agricultura, memória,
educação, cultura e participação comunitária se encontram.
E
há muitas histórias escondidas entre essas estradas e lavouras.
Quem
foram as famílias que ajudaram a formar a região? Como era Mottas décadas
atrás? De onde vieram os nomes de suas localidades? Como mudou a agricultura?
Quais tradições sobreviveram? Quem são os produtores, artesãos, professores,
comerciantes e moradores que fazem parte dessa história? Quais são hoje as
necessidades e os sonhos de quem vive ali?
É
justamente para ajudar a responder essas perguntas que nasceu o Vozes de
Mottas.
A
cada quinze dias, o Jornal Alecrim abrirá esta janela para conhecer um pouco
mais da região — não somente por meio dos grandes acontecimentos, mas
principalmente pelas histórias de quem vive, trabalha, produz e constrói
diariamente esse pedaço do interior de Teresópolis.
Porque
antes de dar voz a um território, é preciso conhecê-lo.
E
esta é apenas a nossa segunda conversa. Mottas ainda tem muita história para
contar.











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