FLA Araru debate ancestralidade e identidade em busca de uma educação mais inclusiva

 

                                                                                                                 foto: PREFEITURA DE ARARUAMA

FLA Araru debate ancestralidade e identidade em busca de uma educação mais inclusiva

 Bárbara Carine e Márcia Kambeba abriram o circuito de palestras com discussão sobre ciência, saberes originários, território e novas formas de pensar a educação.

           A relação entre ancestralidade, identidade e educação marcou a abertura do circuito de palestras da FLA Araru 2026, nesta sexta-feira (14), em Araruama. As escritoras Bárbara Carine e Márcia Kambeba participaram do encontro “Vida ancestral e identidade: ciência, ancestralidade e saberes originários por uma educação mais orgânica, inclusiva e decolonial”, que lotou o auditório da tenda principal. A conversa teve mediação de Vagner Amaro.

         Mais do que falar sobre literatura, as escritoras partiram de suas próprias trajetórias para discutir como diferentes formas de conhecimento podem contribuir para uma educação que reconheça identidades, territórios e saberes historicamente colocados à margem.

                                                                                                                    foto: PREFEITURA DE ARARUAMA

 

Ancestralidade como parte da identidade

 

Bárbara Carine, que influencia nas redes sociais com o perfil "Uma intelectual diferentona", é doutora e foi professora da Universidade Federal da Bahia. No currículo, ela traz com orgulho a criação da primeira escola afro-brasileira do país e 15 livros publicados.

         Ao falar sobre a construção da identidade e sua relação com território e ancestralidade, a escritora contou que sua própria história familiar está ligada à resistência da população negra e relatou como essa origem passou a ocupar um lugar importante em sua trajetória.

         “Nosso território vem de uma construção social. Minha mãe veio de um quilombo da Bahia. Mucambo dos negros. Eu me reintegro a eles. Sou mulher negra, nordestina, escritora e uma intelectual diferentona."

 

                                                                                                    foto: PREFEITURA  DE ARARUAMA

A escritora também compartilhou como o contato com obras de autores negros modificou sua maneira de compreender o mundo. Para Bárbara, essas referências foram fundamentais para questionar uma formação marcada por uma perspectiva colonial.

 

“Eu comecei a ter uma forma diferente de pensar o mundo. Eu buscava validação de brancura e algumas literaturas de pessoas negras foram obras importantes no processo de ruptura colonial, da narrativa europeia.”

 

A literatura apareceu, assim, como uma ferramenta para ampliar referências e permitir que outras experiências e perspectivas também ocupem espaços de conhecimento e formação.

 

                                                                                                    foto: PREFEITURA  DE ARARUAMA

“A ancestralidade está presente”

 

Márcia Kambeba trouxe para o debate a perspectiva dos povos originários e a relação entre memória, território, educação e identidade. Logo no início de sua participação, destacou que sua presença no encontro também carregava a memória de seus antepassados.

 

“Não estou sozinha aqui, a Ancestralidade está presente", disse a escritora, que também falou sobre a violência sofrida por mulheres indígenas, tema presente em sua obra "Índia, eu não sou", e citou escritoras que fazem parte de suas referências, como Cora Coralina e Conceição Evaristo.

 

Mas sua primeira referência literária, como contou, surgiu dentro da própria família. “Tenho muitas referências na literatura. Mas a minha avó foi minha primeira poeta, dona Assunta, me apresentou as letras e as músicas.”

 

                                                                                                    foto: PREFEITURA  DE ARARUAMA

Educação sem “caixinhas”

 

A discussão sobre educação esteve entre os principais pontos do encontro. Márcia Kambeba defendeu uma visão capaz de integrar diferentes saberes, experiências e formas de conhecimento, em vez de separá-los em estruturas rígidas.

 

“Educação não pode colocar tudo em caixinhas, educação é a que pensa o todo e que tudo está junto e interligado.”

 

A partir dessa perspectiva, o território também foi apresentado como espaço de aprendizagem. Para a escritora, ele não representa apenas uma localização geográfica, mas carrega memória, conhecimento, identidade e ensinamentos transmitidos entre gerações.

 

A discussão também colocou em evidência a importância dos saberes originários dentro dos processos educacionais e a necessidade de ampliar o olhar sobre quais conhecimentos são reconhecidos e valorizados na formação das novas gerações.

 

Literatura, ciência e saberes originários

 

                                                                                                   foto: PREFEITURA  DE ARARUAMA

Com o auditório lotado, Bárbara Carine e Márcia Kambeba transformaram suas experiências pessoais e literárias em uma discussão mais ampla sobre pertencimento, identidade e educação.

 

O encontro abriu o circuito de palestras da FLA Araru colocando no centro do debate a possibilidade de aproximar ciência, literatura e saberes ancestrais para construir uma educação mais inclusiva, conectada aos territórios e aberta a diferentes formas de conhecimento.

 

                                                                                                   foto: PREFEITURA  DE ARARUAMA


Nesse mesmo ambiente de valorização da leitura e de aproximação entre literatura e comunidade, a Kombiteca Samburá de Histórias também integra a FLA Araru, levando ao público a proposta de uma biblioteca itinerante que transforma o livro em instrumento de encontro, descoberta e circulação de saberes. A presença da Kombiteca dialoga de maneira especial com as reflexões apresentadas durante a palestra, ao defender uma literatura que ultrapassa os espaços tradicionais e chega às pessoas, aos territórios e às diferentes gerações.

 

                                                                                                                     foto: Gustavo Lucena

Com seu acervo e suas ações de incentivo à leitura, a Kombiteca soma-se às diversas experiências presentes na feira e reforça uma ideia que atravessou o encontro com Bárbara Carine e Márcia Kambeba: conhecimento, memória e literatura também se constroem a partir da troca, da escuta e do contato com diferentes histórias e formas de compreender o mundo.

         A programação da FLA Araru segue até segunda-feira (17), na Praça Antônio Raposo, no Centro de Araruama, com atividades gratuitas de literatura e cultura.

         A presença de projetos convidados, escritores, artistas e iniciativas de incentivo à leitura demonstra justamente a preocupação em fazer da feira um espaço plural, no qual diferentes experiências possam se encontrar.

              E a Kombiteca integra esse mosaico propondo uma literatura que se movimenta.

              Histórias que se transformam em música, brincadeira e arte

        Uma história nunca termina exatamente quando o contador pronuncia sua última palavra.

             Essa talvez seja uma das principais ideias presentes na metodologia do Samburá.

                                                                                                                                    foto: Gustavo Lucena

          Depois da narrativa, a experiência pode continuar em uma música. Pode se transformar em desenho. Pode provocar uma brincadeira. Pode despertar uma pergunta. Pode fazer uma criança procurar outro livro.

 

Por isso, a programação da Kombiteca na FLA Araru articula contação de histórias, música, atividades lúdicas e oficinas de arte.

 

O produtor cultural Gustavo Lucena destaca justamente a importância de feiras literárias criarem espaço para diferentes formas de mediação e formação de leitores.

 

“Uma feira literária desta dimensão movimenta muito mais do que livros. Ela aproxima famílias, escolas, escritores, educadores, artistas e projetos culturais. É uma grande rede sendo construída em torno da leitura. Para nós, participar desse processo é motivo de muita alegria. Agradecemos à Prefeitura de Araruama e à Secretaria de Educação pela iniciativa e pela estrutura da feira, e especialmente à professora Luciane Saraiva pela confiança na Kombiteca e pela sensibilidade em abrir espaço para propostas que dialogam diretamente com a infância.”

— Gustavo Lucena

 

 

FICHA TÉCNICA — KOMBITECA SAMBURÁ DE HISTÓRIAS

 

Realização e participação

Jornal e Editora Alecrim

Kombiteca Samburá de Histórias / Coletivo Samburá de Histórias

 

Coordenação, produção e contação de histórias

Cláudia Coelho — escritora, editora, professora, atriz e contadora de histórias

 

Contação de histórias e oficinas

Marlene Macedo — contadora de histórias e oficineira

 

Oficinas de arte e atividades criativas

Sandra Souza Dias — artesã e oficineira

 

Música

Álan Magalhães — músico e compositor

 

Produção

Gustavo Lucena

 

Apoio técnico à Kombiteca

Daniel Meneses

 

Projeto: Kombiteca Samburá de Histórias

Origem: Teresópolis – RJ

 

Atividades desenvolvidas na FLA Araru: contação de histórias, mediação literária, música, brincadeiras, atividades participativas e oficinas de arte para crianças.

 

FLA ARARU 2026

 

5ª Feira Literária de Araruama

Tema: A Construção do Ser: Um Mergulho no Oceano da Literatura

Data: 14 a 17 de agosto de 2026

Horário: 9h às 21h

Local: Praça Antônio Raposo – Araruama/RJ

Realização: Prefeitura de Araruama, por meio da Secretaria Municipal de Educação.



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