Paixão Antiga: Quando a Noite Ainda Sabia Nossos Nomes - por Clayton Zocarato

 


Paixão Antiga: Quando a Noite Ainda Sabia Nossos Nomes

Conto Baseado na canção Paixão Antiga de Tim Maia de 1989.

 

            Havia uma espécie de inocência escondida nos anos de 1998 e 1999. Não era uma inocência moral, nem política, nem sequer histórica. O mundo já carregava suas guerras, suas desigualdades, seus medos econômicos e suas pequenas tragédias particulares. Mas havia uma inocência nos gestos.

            As pessoas ainda escreviam bilhetes, esperavam telefonemas, combinavam encontros sem precisar confirmar três vezes por mensagens instantâneas. Para encontrar alguém, era preciso estar no lugar certo. E, quando não se estava, simplesmente não se encontrava.

            Antonio gostava de pensar que sua juventude tinha acontecido justamente nessa pequena distância entre as pessoas.

            Fernanda não pensava assim.

            Para ela, a juventude não havia acontecido. A juventude simplesmente passara.

            Talvez essa fosse a diferença fundamental entre os dois.

            Conheceram-se em uma noite de sábado, em algum momento entre o final de 1998 e o início de 1999, quando o século XX começava a envelhecer e ninguém sabia exatamente o que esperar do século seguinte.

            Falava-se muito do ano 2000, das máquinas que poderiam parar, dos computadores que talvez enlouquecessem com a mudança dos números, de uma possível pane mundial. Havia uma expectativa quase religiosa em torno da virada do milênio.

            Mas naquela noite ninguém queria pensar no futuro.

            O futuro era uma coisa distante demais para quem tinha vinte e poucos anos.

            O futuro podia esperar.

            A danceteria não.

            A danceteria tinha suas próprias leis. Entrava-se nela como quem atravessa uma fronteira. Do lado de fora havia ruas escuras, carros estacionados, postes lançando uma luz amarelada sobre o asfalto, vendedores improvisados, grupos de amigos, motocicletas, cigarros acesos e conversas intermináveis.

            Do lado de dentro havia fumaça, luzes coloridas, música alta e corpos tentando esquecer por algumas horas a existência da segunda-feira.

            Antonio chegou cedo.

            Fernanda chegou tarde.

            Foi assim que tudo começou.

            Ele estava encostado perto do balcão, segurando um refrigerante porque ainda não sabia exatamente o que pedir e não queria parecer deslocado. Vestia uma camisa escura, calça jeans e tinha aquela expressão dos rapazes que desejavam parecer indiferentes justamente porque estavam profundamente interessados em tudo.

            Fernanda entrou acompanhada de duas amigas.

            Ela usava uma blusa simples, calça jeans e os cabelos soltos. Não havia nada extraordinário em sua aparência, e talvez justamente por isso Antonio tenha ficado impressionado. Ela não parecia ter entrado ali para ser observada. Parecia ter entrado para viver.

            A música atravessava o ambiente como uma segunda atmosfera.

            Haviam mesas espalhadas pelos cantos, bancos próximos ao balcão, uma pista iluminada por flashes intermitentes e um espaço mais escuro nos fundos, onde os casais conversavam quase encostando os rostos uns nos outros para conseguir ouvir alguma coisa.

            Naquela época, uma danceteria era mais do que um lugar para dançar.

            Era uma espécie de praça pública noturna.

            Ali se negociavam amizades, paixões, ciúmes, aparências, pequenas rivalidades e grandes promessas que ninguém pretendia cumprir.

            Antonio viu Fernanda antes que ela o visse.

            E, durante alguns minutos, fez aquilo que os apaixonados sempre fizeram antes da invenção da coragem: observou de longe.

            Fernanda dançava.

            Não dançava para alguém.

            Dançava para a música.

            Antonio percebeu que existia alguma coisa profundamente triste naquele movimento.

            Talvez fosse apenas impressão.

            Talvez a tristeza estivesse nele.

            A música mudou.

            As luzes diminuíram.

            E, quando os primeiros acordes de uma canção conhecida começaram a atravessar a pista, Fernanda parou por alguns segundos.

            Antonio não sabia ainda, mas aquela música ficaria para sempre ligada àquela noite.

            Àquela época.

            Àquela mulher.



            A uma vida que jamais voltaria a existir exatamente daquele jeito.

            Mais tarde, muito mais tarde, quando já tivesse envelhecido o suficiente para compreender que algumas lembranças não envelhecem conosco, Antonio ouviria novamente “Paixão Antiga”, de Tim Maia, e entenderia que determinadas músicas não são simplesmente músicas.

            São quartos fechados.

            Basta uma melodia para abrir a porta.

            E, de repente, estamos novamente diante de quem fomos.

            Naquela noite, porém, Antonio apenas tomou coragem.

            Aproximou-se.

            — Você gosta dessa música?

            Fernanda olhou para ele.

            Sorriu.

            — Gosto.

            — Eu também.

            Ela riu.

            — Então já temos alguma coisa em comum.

            Foi uma frase simples.

            Mas Antonio passou anos acreditando que havia sido ali que se apaixonara.

            Talvez estivesse errado.

            Talvez o amor nunca aconteça exatamente no momento em que acreditamos que aconteceu.

            Talvez ele comece muito antes, silenciosamente, em pequenas concessões da memória.

            Uma maneira de olhar.

            Uma frase esquecida.

            Um gesto banal.

            Uma pessoa que, sem perceber, passa a ocupar um espaço dentro de nós que ninguém mais consegue preencher.

            Antonio e Fernanda dançaram naquela noite.

            Não falaram sobre grandes coisas.

            Falaram sobre músicas, amigos, escola, trabalho, filmes, planos para o futuro e sobre a possibilidade de o ano 2000 realmente representar o começo de alguma coisa.

            Fernanda acreditava que sim.

            Antonio fingia acreditar.

            Na verdade, os dois tinham medo do futuro.

            O Brasil de 1998 era um país atravessado por contradições. A estabilidade do Plano Real havia transformado a relação das pessoas com o dinheiro, mas a desigualdade permanecia. A televisão ocupava um espaço enorme na formação do imaginário coletivo. O futebol ainda era uma espécie de religião civil. A internet começava a aparecer nas casas, mas ainda era lenta, estranha e quase misteriosa. Os telefones celulares começavam a se tornar símbolos de status, enquanto a maioria das pessoas ainda dependia do telefone fixo.

            Era um mundo intermediário.

            Não era mais exatamente o passado.

            Ainda não era o futuro.

            E talvez Antonio tenha amado Fernanda porque ela parecia pertencer exatamente àquele intervalo.

            Ela era como aqueles anos.

            Transitória.

            Imperfeita.

            Impossível de recuperar.

            Depois daquela primeira noite, começaram os encontros.

            Sempre aos sábados.

            Às vezes também às sextas-feiras.

            Antonio passou a chegar mais cedo.

            Fernanda continuava chegando tarde.

            Ele dizia que era coincidência.

            Ela sabia que não era.

            A danceteria tornou-se o território dos dois.

            Havia uma mesa próxima à parede onde costumavam sentar quando queriam conversar. Havia um canto perto da pista onde Fernanda gostava de dançar. Havia o corredor que levava aos banheiros, onde os amigos se encontravam para trocar confidências. Havia o balcão, onde Antonio comprava refrigerante para ela porque ainda não sabia se ela gostava de bebidas alcoólicas.



            Havia também a área externa.

            Ali, entre um cigarro e outro, as pessoas respiravam o ar da madrugada.

Era onde os apaixonados confessavam aquilo que não conseguiam dizer sob as luzes da pista.

            Foi ali que Fernanda perguntou:

            — Você acredita em amor para sempre?

            Antonio respondeu sem pensar:

            — Acredito.

            Ela ficou olhando para ele.

            — Mesmo?

            — Mesmo.

            Fernanda sorriu.

            — Você ainda é muito jovem.

            Antonio não entendeu.

            Hoje entenderia.

            O amor eterno parecia mais fácil quando o futuro ainda era grande.

            Na juventude, para sempre parece uma duração possível.

            Depois, descobrimos que para sempre é apenas a maneira como a memória chama aquilo que não conseguiu esquecer.

            O ano de 1999 chegou.

            O mundo se preparava para o novo milênio.

            Na televisão, as notícias falavam do futuro. A tecnologia parecia anunciar uma nova humanidade. Os computadores ocupavam cada vez mais espaço. As pessoas falavam sobre internet, globalização, novos tempos.

            Mas na danceteria tudo continuava igual.

            A mesma pista.

            As mesmas luzes.

            Os mesmos copos sobre as mesas.

            Os mesmos casais se formando e desaparecendo.

            Os mesmos jovens acreditando que aquela noite seria diferente das outras.

            Antonio e Fernanda também acreditavam.

            Havia uma espécie de felicidade possível entre os dois.

            Não era perfeita.

            Era melhor do que perfeita.

            Era verdadeira.

            Eles brigavam por coisas pequenas.

            Fernanda tinha ciúmes.

            Antonio fingia não ter.

            Ele queria que ela ficasse.

            Ela gostava de ir embora antes.

            Ele queria conversar.

            Ela queria dançar.

            Ele queria promessas.

            Ela tinha medo delas.

            Ainda assim, havia amor.

            Um amor sem fotografias digitais, sem mensagens instantâneas, sem localização compartilhada.

            Quando se separavam, havia apenas a memória do último olhar.

            E isso tornava tudo mais perigoso.

            Porque não havia como voltar imediatamente.

            Não havia uma tela para conferir se a pessoa estava online.

            Havia apenas a espera.

            E a espera, naquela época, era uma das formas mais profundas de amar.

            Antonio esperava o telefone tocar.

            Fernanda esperava que ele ligasse.

            Às vezes os dois esperavam ao mesmo tempo.

            E ninguém ligava.

            Orgulho também era uma tecnologia.

            Uma tecnologia antiga.

            Uma noite, depois de uma discussão, Fernanda saiu da danceteria sem se despedir.

            Antonio permaneceu sentado.

            A pista continuava cheia.

            A música continuava tocando.

            As pessoas continuavam dançando.

            O mundo não havia percebido que alguma coisa acabara.

            Essa foi talvez a primeira grande lição que Antonio recebeu sobre a existência: o mundo não interrompe seu movimento porque você está sofrendo.

            A música continua.

            As pessoas riem.

            Os carros passam.

            As luzes permanecem acesas.

            E, dentro de você, alguma coisa desaba sem testemunhas.

            Ele saiu depois de alguns minutos.

            Encontrou Fernanda do outro lado da rua.

            Ela estava esperando.

            — Você não veio atrás de mim.

            Antonio respondeu:

            — Você não pediu.

            Ela baixou os olhos.

            — Algumas coisas a gente não deveria precisar pedir.

            Ele se aproximou.

            — Então fica.

            Fernanda não respondeu.

            Em vez disso, segurou a mão dele.

            Voltaram juntos.

            Naquela noite, dançaram como se estivessem tentando impedir o tempo.

            Talvez estivessem.

            Mas ninguém consegue impedir o tempo.

            O tempo é a única coisa que não aceita negociação.

            Chegou o final de 1999.

            A cidade parecia esperar alguma coisa.

            As pessoas falavam sobre festas de réveillon, sobre o ano 2000, sobre computadores, sobre o futuro.

            Antonio e Fernanda estavam juntos.

            Pelo menos naquela noite.

            A danceteria preparou uma festa especial.

            Havia decoração diferente, mais luzes, mais gente, mais expectativa.

            Na entrada, as pessoas comentavam que aquela seria a última grande noite do século.

            Antonio achava aquilo exagerado.

            Fernanda achava bonito.

            — Você já pensou que nunca mais vai existir 1999? — perguntou ela.

            — Ainda bem.

            — Por quê?

            — Porque quero que exista 2000.

            Ela sorriu.

            — E você acha que vai ser melhor?

            Antonio olhou para ela.

            — Se você estiver comigo, vai.

            Fernanda não respondeu.

            A música começou.

            As pessoas foram para a pista.

            A contagem regressiva ainda estava distante.

            Antonio e Fernanda ficaram juntos.

            Em determinado momento, começou a tocar “Paixão Antiga”.

            Foi como se a noite tivesse parado.

            Fernanda aproximou o rosto do dele.

            Antonio segurou sua cintura.

            E os dois dançaram.

            Não havia futuro naquele instante.

            Não havia passado.

            Havia somente aquele corpo próximo, aquela música, aquela luz e aquela sensação absurda de que o mundo poderia permanecer eternamente daquele jeito.

            Fernanda encostou a cabeça no ombro dele.

            — Promete que nunca vai esquecer?

            Antonio respondeu:

            — Nunca.

            Era uma promessa impossível.

            Mas as promessas de amor nunca foram feitas para obedecer à realidade.

            Foram feitas para desafiar a realidade.

            Poucos minutos depois, começou a contagem regressiva.

            Dez.

            Nove.

            Oito...

            As pessoas gritavam.

            Sete.

            Seis.

            Cinco.

            Antonio apertou a mão de Fernanda.

            Quatro.

            Três.

            Dois.

            Um.

            O ano 2000 chegou.

            Fogos explodiram no céu.

            A música aumentou.

            As pessoas se abraçaram.

            Algumas choraram.

            Outras beijaram desconhecidos.

            Antonio beijou Fernanda.

            E, durante alguns segundos, acreditou que aquela era a eternidade.

            Não era.

            O século mudou.

            As pessoas continuaram.

            Os dias seguintes chegaram.

            Janeiro.

            Fevereiro.

            Março.

            A vida começou a exigir outras coisas.

            Trabalho.

            Estudo.

            Família.

            Dinheiro.

            Responsabilidades.

            Os sonhos foram ficando mais caros.

            Os encontros, mais difíceis.

            As conversas, mais curtas.

            Fernanda começou a falar em ir embora.

            Antonio queria ficar.

            Ela dizia que precisava mudar.

            Ele perguntava:

            — E nós?

            Ela respondia:

            — Talvez nós também precisemos mudar.

            Foi assim que começou o fim.

            Não houve uma grande tragédia.

            Não houve traição cinematográfica.

            Não houve vilão.

            Apenas a vida.

            E talvez essa seja a forma mais cruel de perder alguém.

            Quando não existe culpado.

            Quando ninguém pode ser condenado.

            Quando o amor simplesmente não consegue vencer o calendário.

            A última noite na danceteria aconteceu alguns meses depois.

            Antonio chegou cedo.

            Fernanda chegou no horário.

            Ela estava diferente.

            Ou talvez fosse ele que tivesse mudado.

            Sentaram-se na mesa de sempre.

            Falaram pouco.

            A música tocava.

            A pista estava cheia.

            Mas Antonio sentia que tudo estava distante.

            Fernanda segurou a mão dele.

            — Eu vou embora.

            Ele já sabia.

            — Para onde?

            — Para longe.

            — Quanto tempo?

            Ela não respondeu.

            Antonio olhou para a pista.

            Casais dançavam.

            Alguns riam.

            Outros se beijavam.

            Um rapaz passava carregando dois copos.

            Uma garçonete recolhia garrafas vazias.

            O DJ anunciava outra música.

            Tudo continuava.

            Como sempre.

            Fernanda começou a chorar.

            Antonio também.

            Mas nenhum dos dois sabia o que dizer.

            Então ela o abraçou.

            Foi um abraço demorado.

            Um abraço de quem percebe que certas coisas acabam antes de terminarem oficialmente.

            Depois, ela saiu.

            Antonio permaneceu sentado.

            Não foi atrás.

            Talvez por orgulho.

            Talvez por medo.

            Talvez porque, naquele instante, compreendeu que correr atrás dela não impediria sua partida.

            A porta se fechou.

            A música continuou.

            E Antonio descobriu que uma danceteria pode ser o lugar mais solitário do mundo quando a pessoa que você ama acabou de atravessar sua porta pela última vez.

            Os anos passaram.

            A danceteria fechou.

            O prédio mudou.

            As paredes foram pintadas.

            A pista desapareceu.

            O balcão foi retirado.

            As mesas foram vendidas.

            A música acabou.

            A cidade também mudou.

            Os telefones se transformaram.

            A internet entrou nas casas.

            Depois entrou nos bolsos.

            As pessoas passaram a carregar fotografias de milhares de momentos, mas começaram a viver cada vez menos dentro deles.

            Os encontros ganharam confirmação.

            As despedidas ganharam mensagens.

            O amor ganhou aplicativos.

            A saudade ganhou arquivos.

            Antonio envelheceu.

            Fernanda também.

            Não sabiam disso um do outro.

            Durante muitos anos, ele evitou procurá-la.

            Não porque tivesse deixado de amá-la.

            Mas porque algumas pessoas são mais bonitas quando permanecem como lembrança.

            Encontrá-las novamente poderia destruir aquilo que a memória havia preservado.

            Até que, muitos anos depois, Antonio passou diante do antigo endereço da danceteria.

            Parou.

            Não havia mais nada.

            A fachada havia desaparecido.

            No lugar existia outro estabelecimento.

            Ele ficou alguns minutos observando.

            E então ouviu, dentro de sua memória, os primeiros acordes daquela música.

“Paixão Antiga.”



            A lembrança veio inteira.

            Fernanda dançando.

            A mesa.

            As luzes.

            O cheiro de fumaça.

            Os copos.

            A rua.

            O telefone que demorava a tocar.

            O medo do ano 2000.

            O beijo da virada.

            A última noite.

            A promessa.

            Nunca esquecer.

            Antonio sorriu.

            Não porque estivesse feliz.

            Mas porque finalmente compreendia.

            Não era Fernanda que ele havia perdido.

            Era uma época.

            Uma forma de amar.

            Uma juventude.

            Um mundo que desaparecera sem pedir licença.

            Talvez por isso a saudade doesse tanto.

            Ela não queria devolver uma pessoa.

            Queria devolver um tempo.

            E o tempo não volta.

            A filosofia sempre soube disso, embora os apaixonados insistam em ignorá-la.             Heráclito havia compreendido que ninguém atravessa duas vezes o mesmo rio. Santo Agostinho transformaria o tempo em uma experiência interior, mostrando que passado e futuro existem sobretudo dentro da consciência. Bergson falaria da duração, desse tempo vivido que não pode ser reduzido aos relógios. Proust encontraria na memória involuntária uma espécie de máquina capaz de ressuscitar aquilo que parecia morto.

            Antonio não precisava mais dos filósofos para compreender.

            Bastava uma música.

            Bastava uma noite silenciosa.

            Bastava lembrar de Fernanda.

            Porque algumas paixões não desaparecem.

            Elas mudam de lugar.

            Deixam de morar na presença e passam a morar na memória.

            Tornam-se antigas.

            E justamente por serem antigas continuam perigosamente vivas.

            Antonio compreendeu que havia amado Fernanda de duas maneiras.

            Primeiro, quando ela estava ao seu lado.

            Depois, quando já não estava.

            A primeira forma de amor era física.

            A segunda era temporal.

            A primeira dependia da presença.

            A segunda dependia da ausência.

            E talvez a ausência seja a forma mais resistente de presença que existe.

            Naquela noite, diante do lugar onde a danceteria havia existido, Antonio ficou imaginando se Fernanda também se lembrava.

            Talvez sim.

            Talvez não.

            Talvez tivesse esquecido completamente.

            Talvez estivesse vivendo outra história, outra família, outra cidade, outro amor.

            E isso não diminuía o que haviam vivido.

            Porque uma história não deixa de ser verdadeira apenas porque termina.

            Algumas coisas são verdadeiras justamente porque terminam.

            Antonio caminhou lentamente pela calçada.

            O trânsito passava.

            As pessoas olhavam para seus celulares.

            Ninguém sabia que naquele homem havia uma danceteria inteira.

            Uma pista iluminada.

            Uma música.

            Uma mulher dançando.

            Um beijo no começo de um novo século.

            Uma despedida.

            E uma promessa que o tempo não conseguiu cumprir.

            Ele colocou os fones de ouvido.

            Procurou a música.

            Quando começou a tocar “Paixão Antiga”, fechou os olhos.

            Por alguns segundos, voltou a ter vinte e poucos anos.

            Voltou para 1998.

            Voltou para 1999.

            Voltou para aquela noite.

            Fernanda estava ali.

            A pista estava cheia.

            As luzes giravam.

            O mundo ainda não havia terminado.

            O futuro ainda parecia possível.

            Antonio sorriu.

            E, pela primeira vez, não tentou voltar.

            Apenas ficou.

            Ficou dentro da lembrança.

            Porque talvez a maturidade seja isso: descobrir que não podemos recuperar o passado, mas podemos aprender a habitá-lo sem desejar destruí-lo com a presença do presente.

            A música terminou.

            Antonio retirou os fones.

            A rua continuava.

            O mundo continuava.

            Ele também.

            Mas alguma coisa permanecera naquela antiga danceteria invisível que carregava dentro de si.

            Fernanda.

            A noite.

            A juventude.

            O ano 2000.

            E aquela velha paixão que, apesar de antiga, nunca aprendera a morrer.

            Talvez porque algumas paixões não desejem o futuro.

            Desejem apenas uma última dança.

            E, naquela noite, Antonio finalmente entendeu que a saudade não é o desejo de voltar.

            É a consciência dolorosa de que existiu um lugar onde fomos felizes e que, mesmo que retornemos ao endereço, jamais encontraremos o mesmo mundo.

            Fernanda havia partido.

            A danceteria havia desaparecido.

            Os anos haviam passado.

            Mas a música continuava.

            E enquanto a música continuasse, haveria sempre uma noite em que Antonio poderia fechar os olhos e reencontrá-la.

            Não como ela era agora.

            Não como ele era agora.

            Mas como ambos haviam sido quando ainda acreditavam que o amor podia vencer o tempo.

            Talvez essa fosse a verdadeira eternidade.

            Não permanecer.

            Ser lembrado.

            E, naquela última noite imaginária, Antonio voltou a dançar com Fernanda.

            Sem palavras.

            Sem promessas.

            Sem futuro.

            Apenas os dois.

            A música.

            As luzes.

            A pista.

            E o século XX desaparecendo lentamente atrás deles.



Clayton Alexandre Zocarato

Possui graduação em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista (2005) - Unicep - São Carlos - SP, graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (2016) - Ceuclar - Campus de São José do Rio Preto – SP, Técnico em Comércio Exterior pelas Faculdades Eficaz, e atualmente cursa Serviços Jurídicos e Notoriais na Unimar. Escrevo regularmente para o site www.recantodasletras.com.br usando o pseudônimo ZACCAZ, mesclando poesia surrealista, com haikais e aldravias..Formado Especialista em Medina y Arte com ênfase em Gilles Deleuze e Equizoanálise   onde é também  pesquisador do Centro de Medicina y Arte  de Rosário – Argentina, sendo o primeiro brasileiro a atuas nesse centro de pesquisa. Especialista em Ensino pela Ufscar, especialista em Psicopedagogia Institucional pela Fundepe – Unesp, Especialista em História da África pela Faculdade de Minas Gerais.

·                  Email: claytonalexandrezocarato@yahoo.com.br

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