O diagnóstico não pode substituir a responsabilidade pela própria vida! - por Renata Gaia

 

O diagnóstico não pode substituir a responsabilidade pela própria vida!

Por que será que tantas pessoas parecem estar à procura de um CID, de um diagnóstico para chamar de seu? Será que estamos perdendo a capacidade de reconhecer nossos hábitos, rever nossos comportamentos e assumir a responsabilidade pelas mudanças que precisamos realizar?

Será que ficou tão difícil admitir que procrastinamos? Reconhecer que, muitas vezes, somos nós mesmos que adiamos decisões, abandonamos projetos e desistimos antes de terminar aquilo que começamos? Será que é mais fácil atribuir nossa falta de concentração a um diagnóstico do que reconhecer o quanto o telefone, o Instagram e as redes sociais estão consumindo nossa atenção?

Hoje, parece que encontramos explicações para tudo: não termino o curso por causa disso; não consigo cumprir minhas tarefas por causa daquilo; sou distraído, angustiado ou desmotivado por causa de determinada condição. E, assim, multiplicamos os motivos pelos quais não conseguimos fazer, concluir ou realizar.

Mas precisamos fazer uma pergunta fundamental: em que momento a explicação para uma dificuldade passou a ocupar o lugar da responsabilidade de enfrentá-la?

Um diagnóstico clínico, quando realizado de maneira criteriosa por um profissional habilitado, pode ser essencial para compreender o sofrimento, orientar o tratamento e possibilitar melhores condições de vida. Transtornos mentais e condições do neurodesenvolvimento não são escolhas, nem devem ser tratados como falhas de caráter.

O problema começa quando transformamos qualquer explicação em uma sentença definitiva sobre quem somos. Quando passamos a acreditar que, porque existe uma condição que nos afeta, nada mais pode ser feito. Quando o diagnóstico deixa de ser um instrumento de compreensão e cuidado e passa a funcionar como uma justificativa para abandonar a própria capacidade de agir.



Ter uma dificuldade não significa estar condenado a ela. Compreender as próprias limitações não elimina a possibilidade de desenvolver habilidades, construir estratégias e buscar superação. Pelo contrário: quanto melhor compreendemos o que nos acontece, maiores são as possibilidades de encontrar caminhos adequados para lidar com nossas dificuldades.

Precisamos também olhar para a educação das crianças e dos adolescentes. Será que estamos preparados para educar ou estamos procurando explicações que nos poupem do trabalho de educar?

Crianças agitadas, impulsivas ou desafiadoras sempre existiram. Algumas apresentam condições clínicas que exigem avaliação e acompanhamento; outras precisam de limites consistentes, orientação, presença e oportunidades para aprender a lidar com as próprias emoções. Uma coisa não exclui a outra.

O diagnóstico não substitui a educação, assim como a educação não substitui o tratamento quando ele é necessário.

Educar exige disponibilidade para dizer não quando o não é necessário, dizer sim quando o sim faz sentido e sustentar limites mesmo quando isso provoca desconforto. Exige também que os adultos reconheçam os próprios erros. Ter maturidade para olhar para um filho e dizer “Eu errei. Fui grosseiro com você, agi de maneira egoísta e sinto muito. Você me perdoa?” não diminui a autoridade de um pai ou de uma mãe. Ao contrário, ensina responsabilidade, respeito e reparação.

Que tipo de amadurecimento estamos construindo quando exigimos compreensão para os nossos comportamentos, mas não estamos dispostos a compreender as consequências que eles produzem na vida dos outros?

O que está acontecendo conosco quando acumulamos justificativas, mas adiamos as mudanças? Quando confundimos saber sobre nós mesmos com transformar a nós mesmos? Quando acreditamos que estamos crescendo simplesmente porque conseguimos explicar por que agimos de determinada maneira?

Autoconhecimento sem mudança pode se transformar em mais uma forma de permanecer no mesmo lugar.

Não basta compreender por que procrastinamos. Precisamos aprender a agir apesar da resistência, respeitando nossos limites e desenvolvendo estratégias possíveis. Não basta reconhecer que as redes sociais prejudicam nossa concentração. Precisamos estabelecer limites para o uso da tecnologia. Não basta identificar nossas dificuldades emocionais. Precisamos buscar os recursos necessários para enfrentá-las.

E isso não significa negar o sofrimento, desconsiderar transtornos ou exigir que alguém supere sozinho aquilo que necessita de tratamento. Significa compreender que o cuidado e a responsabilidade podem caminhar juntos.

É hora de amadurecer emocionalmente. A idade cronológica avança independentemente da nossa disposição para crescer. O amadurecimento emocional, porém, exige consciência, escolhas, reparação de erros e compromisso com as consequências dos próprios atos.

Talvez a pergunta que devêssemos fazer não seja apenas “Qual é o meu diagnóstico?”, mas também: “O que posso fazer, dentro das minhas possibilidades, para viver melhor a partir do que hoje compreendo sobre mim?”.



Você pode ter um diagnóstico e precisar de acompanhamento. Pode enfrentar dificuldades reais e necessitar de ajuda. E, ainda assim, pode participar ativamente da construção da própria vida.

O diagnóstico pode ajudar a explicar uma dificuldade, mas não precisa definir toda a sua existência.

Chega de confundir explicação com destino. Chega de acreditar que compreender uma limitação significa aceitar que nada pode mudar.

É hora de crescer. É hora de transformar o conhecimento em ação, a consciência em escolha e a intenção em movimento.

Porque amadurecer não é deixar de ter dificuldades. É aprender a lidar com elas, buscar ajuda quando necessário e assumir a responsabilidade possível por aquilo que fazemos com a vida que temos.

Você não precisa negar suas dificuldades para superá-las. Precisa parar de acreditar que elas contam toda a sua história.

Renata Gaia

Youtube: Renata Gaia

          Instagram:  @vivagaiadeluz



Renata Gaia - Responsável pelo espaço Gaia de Luz em Nova Friburgo -  Psicanalista - Especialista em comportamento humano - Estudiosa da Neurociência do dia-a-dia 



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