SÓ VOCÊ PODERIA ME FAZER FELIZ - por Clayton Zocarato
SÓ VOCÊ PODERIA ME FAZER FELIZ
Conto Romântico –
Social baseado na canção de Julio Iglesias Só Você Vai me Fazer Feliz 1990.
Havia músicas que não terminavam
quando o rádio era desligado. Continuavam vivendo dentro das pessoas,
escondidas em algum lugar entre a lembrança e a saudade, esperando que uma
tarde qualquer, muitos anos depois, devolvesse ao coração aquilo que a vida
havia levado.
Foi
assim com Catarina. Bastaram alguns acordes antigos vindos de uma loja de discos
no centro da cidade para que ela parasse diante da vitrine, imóvel, como se
tivesse escutado não uma canção, mas uma voz chamando por seu nome através de
quase três décadas.
Era uma tarde de setembro de 2026,
mas Catarina não estava mais ali. Seu corpo permanecia diante da vitrine, os
cabelos agora atravessados por fios brancos, os olhos marcados pelo cansaço
delicado de quem aprendeu a conviver com aquilo que não pode ser reparado.
Entretanto, sua memória havia regressado
aos anos 1990, quando o mundo parecia mais lento e o amor ainda precisava
enfrentar distâncias que hoje seriam vencidas com uma mensagem instantânea.
Naquele tempo, ninguém dizia
simplesmente “estou com saudade” apertando
uma tela.
Era preciso esperar. Esperar o
telefone tocar. Esperar uma carta. Esperar o próximo encontro. Esperar que a
pessoa amada aparecesse na esquina.
E talvez fosse justamente essa espera que
tornasse o amor tão intenso.
A ausência tinha duração. A saudade
possuía calendário.
Catarina conheceu Adriano em 1995,
numa noite de sábado, em uma pequena danceteria situada numa rua movimentada da
cidade. A década ainda estava descobrindo uma nova maneira de ser moderna. A
televisão ocupava lugar central nas casas, a música atravessava gerações, os
jovens dançavam ao som de diferentes estilos, e os aparelhos de som pareciam
objetos quase sagrados.
Havia CDs começando a substituir as
fitas cassete, mas ainda era comum gravar uma música do rádio e torcer para que
o locutor não interrompesse a gravação.
Catarina tinha dezenove anos.
Adriano, vinte e dois.
Ela usava um vestido azul-escuro,
simples, e tinha os cabelos compridos. Ele vestia uma camisa clara, calça
escura e carregava no rosto aquele tipo de timidez que não combina com os
homens que pretendem conquistar alguém, mas que frequentemente os torna mais
verdadeiros.
Adriano a viu antes que ela o
percebesse.
Não houve nada extraordinário
naquele primeiro instante. Nenhum raio atravessou o salão, nenhuma profecia foi
pronunciada, nenhum destino anunciou seu acontecimento.
Havia
apenas uma jovem encostada perto da parede, conversando com uma amiga, e um
rapaz tentando descobrir uma maneira de se aproximar.
Talvez
seja assim que os grandes amores começam: sem saberem que são grandes.
Adriano esperou alguns minutos.
Depois mais alguns.
Quando finalmente tomou coragem,
aproximou-se e perguntou se ela queria dançar.
Catarina sorriu.
— Eu nem sei se você dança.
— Eu também não.
Ela riu.
E foi suficiente.
Dançaram.
Naquela noite, a música parecia
ocupar todo o espaço entre os dois. As luzes coloridas da danceteria percorriam
seus rostos, enquanto as pessoas conversavam, riam e desapareciam umas nas
outras. O mundo exterior parecia distante. Não havia celulares iluminando rostos.
Não havia notificações. Não havia a ansiedade de fotografar o instante para
provar depois que ele existiu.
Havia apenas o instante.
E eles.
Quando saíram da danceteria, já
passava da meia-noite. A rua estava quase vazia. Adriano ofereceu-se para
acompanhá-la até em casa.
Catarina aceitou.
Caminharam devagar.
Era estranho como dois desconhecidos
podiam conversar durante horas depois de terem passado tão pouco tempo juntos.
Falaram sobre família, música, cinema, planos para o futuro. Catarina queria conhecer
outros lugares. Adriano dizia que gostaria de construir uma vida tranquila, ter
uma casa, uma família e alguém para envelhecer ao lado.
Ela perguntou:
— Você acredita que duas pessoas
podem ficar juntas para sempre?
Adriano pensou antes de responder.
— Não sei.
— Então por que falou em envelhecer
com alguém?
— Porque talvez seja justamente isso
que a gente precise descobrir.
Catarina ficou em silêncio.
Anos depois, ela lembraria daquela
frase como quem reencontra uma fotografia perdida.
Naquele tempo, o futuro ainda
parecia comprido.
Os anos 1990 tinham essa
característica contraditória: eram uma época de esperança e incerteza.
O país carregava marcas profundas
das décadas anteriores, mas também experimentava novas expectativas. A
democracia brasileira se consolidava, a juventude desejava consumir, viajar,
estudar e construir uma vida diferente daquela vivida pelos pais.
A televisão apresentava novos
comportamentos, novas músicas, novos padrões de beleza e novas formas de
relacionamento.
O mundo estava mudando rapidamente.
Mas o coração humano continuava
atrasado.
Continuava precisando de presença.
Na segunda-feira, Adriano telefonou
para Catarina.
O telefone tocou três vezes antes
que ela atendesse.
— Alô?
Ele ficou alguns segundos em
silêncio.
— É o Adriano.
Ela reconheceu a voz.
— Eu sei.
Ele sorriu do outro lado.
— Como você sabe?
— Porque eu estava esperando.
Aquela frase o acompanhou por anos.
“Eu
estava esperando.”
Talvez o amor seja exatamente isso:
descobrir que alguém estava esperando por nós sem que tivéssemos certeza de que
seríamos procurados.
Começaram a se encontrar aos
sábados. Às vezes iam ao cinema. Outras vezes caminhavam pela praça.
Quando não tinham dinheiro,
simplesmente sentavam em algum banco e conversavam. Havia uma economia
involuntária naquela relação. Eles não precisavam comprar felicidade porque
ainda acreditavam que felicidade pudesse ser encontrada gratuitamente.
Adriano gravou uma fita cassete para
Catarina.
Na capa escreveu apenas;
“Para quando sentir saudade.”
Ela guardou a fita.
Durante muito tempo, aquela pequena
fita foi um objeto sem importância para qualquer pessoa que a encontrasse. Para
Catarina, entretanto, era quase uma relíquia. Ali estavam músicas que Adriano
havia escolhido cuidadosamente. Cada uma dizia algo que ele não sabia dizer
pessoalmente.
Uma delas era de Júlio Iglesias.
Catarina não esqueceu.
Não porque a música dissesse
exatamente aquilo que ela sentia, mas porque carregava a atmosfera daquele
amor.
A ideia de que uma pessoa pudesse
ocupar dentro de nós um lugar que nenhuma outra conseguiria preencher.
Adriano acreditava que certas
músicas eram como fotografias.
— Você escuta uma música dez anos
depois e volta para o lugar onde estava quando ouviu pela primeira vez.
Catarina respondeu:
— Então algumas músicas são
perigosas.
— Por quê?
— Porque podem fazer a gente voltar
para lugares onde não pode mais entrar.
Ele ficou olhando para ela.
— Talvez algumas portas nunca fechem
completamente.
Ela não respondeu.
Naquela época, ainda acreditava
nisso.
O relacionamento cresceu lentamente.
Não havia pressa.
O amor deles era construído com
pequenos acontecimentos. Um telefonema no domingo.
Uma flor comprada numa banca. Uma
fotografia tirada em uma máquina automática. Um beijo na saída do cinema. Uma
carta dobrada cuidadosamente dentro de um envelope. Um aniversário. Um passeio
de ônibus. Um abraço demorado antes de cada despedida.
Hoje, tudo isso parece pequeno.
Mas a felicidade quase sempre é
feita de coisas pequenas que só reconhecemos quando já se tornaram passado.
Em 1996, começaram a falar em
casamento.
Não tinham muito dinheiro.
Adriano trabalhava durante o dia e
estudava à noite. Catarina também enfrentava suas próprias dificuldades. A
década avançava e o país atravessava mudanças econômicas importantes. O Plano
Real havia estabilizado a moeda e produzido uma sensação de segurança que
muitos brasileiros ainda estavam aprendendo a experimentar. Os preços já não mudavam diante dos
olhos com a mesma velocidade de antes. Comprar
alguma coisa parecia novamente possível.
Eles economizavam.
Cada pequena quantia guardada
parecia aproximá-los de uma casa.
E uma casa, para eles, não era
apenas paredes.
Era a promessa de permanência.
Catarina escolhia mentalmente os
móveis.
Adriano imaginava onde colocaria uma
estante.
Planejavam uma vida que ainda não
existia.
Talvez esse seja um dos gestos mais
corajosos do ser humano: fazer planos sabendo que o futuro não assinou nenhum
contrato conosco.
Em 1997, algo começou a mudar.
Não entre eles.
No mundo.
A década se aproximava do fim e uma
espécie de ansiedade histórica começava a atravessar as pessoas. O novo milênio
era assunto frequente. Computadores começavam a transformar os ambientes de
trabalho. A internet surgia como promessa de um mundo novo, embora ainda
estivesse distante da vida cotidiana da maioria das pessoas.
Adriano comprou seu primeiro
computador usado.
Catarina olhou para a máquina e
perguntou:
— Para que serve isso?
— Para muita coisa.
— E você sabe usar?
— Ainda não.
Ela riu.
— Então é realmente para muita
coisa.
Eles riram juntos.
Não sabiam que estavam testemunhando
o começo de uma transformação que mudaria para sempre a maneira como as pessoas
se relacionariam.
Naquele momento, porém, o amor deles
ainda pertencia ao mundo das cartas.
Um dia, Catarina escreveu uma para
Adriano.
Falou sobre o medo de perdê-lo.
Não sabia exatamente de onde vinha
aquele medo. Talvez todo amor carregue dentro de si uma espécie de
pressentimento de perda. Amar é aceitar, mesmo sem querer, que aquilo que nos
faz felizes também pode nos fazer sofrer.
Adriano respondeu:
“Não
pense na perda antes que ela aconteça.”
Catarina guardou a carta.
Mas a vida raramente respeita os
conselhos que damos uns aos outros.
No final de 1998, Adriano recebeu
uma proposta de trabalho em outra cidade.
Era uma oportunidade importante.
Salário melhor.
Possibilidade de crescimento.
Mas significava distância.
Quando contou a Catarina, ela
permaneceu em silêncio.
— Você quer ir?
— Quero.
— Então vá.
— Você está triste.
— Estou.
— E nós?
Ela respirou fundo.
— Nós vamos continuar.
Era uma promessa.
Talvez uma promessa impossível.
Adriano partiu em janeiro de 1999.
No começo, telefonavam quase todos
os dias.
Depois, três vezes por semana.
Depois, duas.
A distância possui uma maneira
silenciosa de alterar as relações. Primeiro, ela é apenas geográfica.
Depois, transforma-se em emocional.
Finalmente, torna-se psicológica.
O que antes era ausência passa a ser
hábito.
Catarina começou a sentir falta de
coisas que nunca havia percebido.
Do modo como Adriano mexia no cabelo
quando estava nervoso.
Do jeito como segurava sua mão.
Da maneira como pronunciava seu
nome.
Do silêncio entre uma frase e outra.
Foi então que compreendeu uma
verdade que nenhum filósofo havia conseguido explicar-lhe: sentimos falta não
apenas das pessoas, mas das versões de nós mesmos que existiam quando estávamos
com elas.
Sem Adriano, Catarina era outra.
Sem Catarina, Adriano também.
O amor, talvez, não seja somente
encontro.
É transformação.
E toda transformação contém uma
pequena morte.
No início de 2000, eles ainda
estavam juntos.
Mas já não eram os mesmos.
O novo século chegou cercado de
expectativas. Televisões falavam sobre o futuro, computadores, internet,
globalização. O mundo parecia acelerar. A comunicação tornava-se mais rápida.
Os telefones celulares começavam a se popularizar. As pessoas podiam ser
encontradas com mais facilidade.
Paradoxalmente, começaram a se
perder com mais facilidade também.
Catarina e Adriano terminaram
naquele ano.
Não houve traição.
Não houve escândalo.
Não houve uma grande tragédia.
Houve apenas cansaço.
E talvez as relações mais dolorosas
sejam aquelas que terminam sem culpados.
— Você ainda me ama? — Catarina
perguntou.
Adriano demorou a responder.
— Amo.
— Então por que estamos terminando?
Ele baixou os olhos.
— Porque às vezes amar não é
suficiente.
Ela sentiu que alguma coisa dentro
dela havia quebrado.
— Então o que é suficiente?
Adriano não respondeu.
Talvez ninguém saiba.
Eles se abraçaram pela última vez.
Catarina chorou.
Adriano também.
Depois ele foi embora.
A porta fechou.
E a vida continuou.
Essa é a crueldade mais banal do
tempo: ele não interrompe seus movimentos para acompanhar nossas perdas.
Os anos passaram.
Catarina construiu uma vida.
Adriano também.
Tiveram
outros relacionamentos, outros trabalhos, outras cidades, outros aniversários,
outras fotografias. O mundo mudou diante deles.
As
fitas cassete desapareceram.
Os CDs perderam espaço.
Vieram os arquivos digitais.
Vieram as redes sociais.
Vieram as mensagens instantâneas.
Vieram as chamadas de vídeo.
Vieram relações que podiam começar e
terminar sem que duas pessoas sequer se encontrassem.
Mas Catarina continuou guardando
aquela velha fita.
Durante muitos anos, ela não
conseguiu ouvi-la.
Tinha medo.
Não da música.
Da mulher que encontraria dentro
dela.
Porque a memória não preserva apenas
o passado. Ela também preserva aquilo que fomos antes de aprender a perder.
Em 2010, encontrou a fita dentro de
uma caixa.
Segurou-a.
Pensou em jogar fora.
Não conseguiu.
Guardou novamente.
Em 2020, durante uma mudança,
encontrou-a outra vez.
Sorriu.
Já não sentia a mesma dor.
Ou talvez tivesse aprendido a
carregar a dor de outra maneira.
Foi somente em 2026 que ouviu
novamente aquela canção.
O som vinha de uma loja antiga.
Catarina parou diante da vitrine.
Os acordes atravessaram o ar.
E então tudo voltou.
A danceteria.
O vestido azul.
A caminhada depois da meia-noite.
O telefone.
A fita.
As cartas.
A promessa.
A despedida.
Adriano.
Ela fechou os olhos.
Durante alguns segundos, não era uma
mulher madura diante de uma loja.
Era Catarina aos dezenove anos.
A jovem que acreditava que o amor
poderia vencer o tempo.
A jovem que não sabia que algumas
pessoas não permanecem em nossa vida, mas permanecem em nossa história.
Quando abriu os olhos, havia
lágrimas em seu rosto.
Não eram lágrimas de desespero.
Eram lágrimas de reconhecimento.
Ela finalmente compreendia.
Adriano não tinha sido apenas o
homem que amara.
Tinha sido o lugar onde uma parte
dela havia aprendido a existir.
Talvez por isso a música ainda
doesse.
Porque algumas canções não falam
sobre quem perdemos.
Falam sobre quem fomos.
Catarina entrou na loja.
Perguntou ao vendedor sobre a
música.
Ele sorriu e disse que aquela
geração ainda procurava aquelas canções.
— Algumas músicas nunca envelhecem.
Ela respondeu:
— As músicas não. Nós envelhecemos.
Saiu da loja.
A cidade continuava movimentada.
Carros passavam.
Pessoas caminhavam olhando para seus
celulares.
Alguém falava ao telefone.
Uma criança corria pela calçada.
O mundo havia se tornado
infinitamente mais rápido.
Catarina caminhou devagar.
Pensou em Adriano.
Perguntou-se onde ele estaria.
Se teria se lembrado dela.
Se alguma música ainda o faria
parar.
Talvez sim.
Talvez não.
Ela percebeu que já não precisava
saber.
Durante anos, acreditara que o amor
precisava terminar com reencontro para ter sentido.
Agora sabia que não.
Alguns amores terminam.
Outros permanecem.
Não como presença.
Como ausência.
E há ausências tão profundas que
acabam se transformando em uma espécie de companhia.
Catarina compreendeu, naquela tarde,
que felicidade não é necessariamente possuir para sempre aquilo que amamos.
Às vezes, felicidade é ter vivido
algo que mereceu ser lembrado.
Ela voltou para casa.
Abriu uma gaveta.
Retirou a fita cassete.
Ficou olhando para ela durante
alguns minutos.
Depois encontrou um velho aparelho
de som que ainda funcionava.
Colocou a fita.
A música começou.
Catarina sentou-se.
E, pela primeira vez em muitos anos,
não chorou.
Sorriu.
Porque percebeu que o passado não
estava pedindo para voltar.
Estava apenas pedindo para ser
reconhecido.
Ela fechou os olhos.
E viu Adriano novamente.
Não o homem que poderia ter sido.
Não o homem que perdeu.
Mas o rapaz de vinte e dois anos que
um dia a chamou para dançar sem saber que, naquele instante aparentemente
insignificante, estava entrando para sempre na memória de alguém.
Talvez fosse isso o amor.
Não a promessa de eternidade.
Mas a capacidade de tornar eterno um
instante.
A noite avançou.
A música terminou.
O aparelho ficou em silêncio.
Catarina permaneceu sentada.
Lá fora, o mundo continuava.
Dentro dela, entretanto, havia uma
velha danceteria, uma luz colorida, uma rua quase vazia e dois jovens
caminhando sem saber que a juventude desapareceria.
Ela pensou na pergunta que havia
feito tantos anos antes:
“Você acredita que duas pessoas podem ficar juntas para
sempre?”
Agora sabia a resposta.
Não.
As pessoas não ficam.
O tempo não permite.
As cidades mudam.
Os corpos envelhecem.
As fotografias amarelam.
As cartas perdem o cheiro.
As músicas passam a ser chamadas de
antigas.
As casas são demolidas.
As ruas recebem outros nomes.
Os telefones deixam de tocar.
As mãos que um dia seguraram as
nossas tornam-se lembranças.
Mas alguma coisa permanece.
Não exatamente o amor.
Talvez algo mais estranho.
A marca do amor.
A cicatriz luminosa de ter sido
feliz.
Catarina levantou-se e guardou
novamente a fita.
Dessa vez, porém, não a escondeu.
Colocou-a sobre a estante.
Como quem coloca diante dos olhos
uma pequena prova de que havia existido.
Adriano havia partido há muitos
anos.
Talvez nunca voltasse.
Talvez nunca soubesse que ela ainda
guardava aquela música.
Mas isso já não importava.
Porque havia coisas que não
precisavam ser devolvidas para serem verdadeiras.
Catarina apagou a luz.
Antes de dormir, pensou que talvez o
amor seja justamente aquilo que nos ensina que a felicidade não está em possuir
o outro, mas em reconhecer a transformação que o outro produziu em nós.
E naquela noite, muitos anos depois,
enquanto a cidade dormia sob o ruído distante dos automóveis, Catarina
finalmente conseguiu dizer, sem tristeza, aquilo que durante décadas havia sido
incapaz de confessar:
Adriano não fora apenas alguém que a
fizera feliz.
Ele havia sido a prova de que, por
algum breve momento, ela conhecera uma felicidade que não precisava durar para
ser verdadeira.
E talvez fosse essa a mais dolorosa
e mais bonita lição que o tempo havia lhe deixado.
Alguns amores não foram feitos para
permanecer.
Foram feitos para nos acompanhar
pela memória.
E, quando uma antiga música toca,
quando uma fotografia reaparece, quando uma rua nos devolve um cheiro perdido
ou quando a noite parece exatamente igual àquela de tantos anos atrás,
percebemos que certas pessoas continuam vivendo em nós não porque o passado
tenha vencido o tempo, mas porque o tempo, apesar de toda a sua crueldade, não
consegue apagar aquilo que um dia foi profundamente amado.
Catarina dormiu.
E, naquela noite, sonhou que ainda
tinha dezenove anos.
Adriano estava esperando por ela na
porta da danceteria.
Ele sorriu.
Ela se aproximou.
— Vamos dançar?
Ele estendeu a mão.
E, por alguns minutos, o tempo
desistiu de existir.
Talvez o amor verdadeiro seja isso:
um lugar secreto onde o passado continua acontecendo quando fechamos os olhos.
E enquanto a música permanecesse
viva, Catarina sabia que, em algum ponto invisível entre a memória e a
eternidade, ela e Adriano ainda dançariam.
Não porque haviam conseguido ficar
juntos para sempre.
Mas porque, durante algum tempo,
foram tudo aquilo que dois seres humanos podem ser quando acreditam, mesmo que
ingenuamente, que a felicidade pode durar.
Possui graduação em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista (2005) - Unicep - São Carlos - SP, graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (2016) - Ceuclar - Campus de São José do Rio Preto – SP, Técnico em Comércio Exterior pelas Faculdades Eficaz, e atualmente cursa Serviços Jurídicos e Notoriais na Unimar. Escrevo regularmente para o site www.recantodasletras.com.br usando o pseudônimo ZACCAZ, mesclando poesia surrealista, com haikais e aldravias..Formado Especialista em Medina y Arte com ênfase em Gilles Deleuze e Equizoanálise onde é também pesquisador do Centro de Medicina y Arte de Rosário – Argentina, sendo o primeiro brasileiro a atuas nesse centro de pesquisa. Especialista em Ensino pela Ufscar, especialista em Psicopedagogia Institucional pela Fundepe – Unesp, Especialista em História da África pela Faculdade de Minas Gerais.
· Email: claytonalexandrezocarato@yahoo.com.br
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