A Nova Terra exige escolhas que a velha humanidade ainda não sabe fazer, PARTE 2 - Por Renata Gaia

 


A Nova Terra exige escolhas que a velha humanidade ainda não sabe fazer, PARTE 2

Por Renata Gaia

Há mais de 25 anos, dedico meus estudos à psicanálise e, há aproximadamente 15, à neuropsicanálise. Meu principal interesse é compreender como o funcionamento mental se relaciona com o comportamento, como nossas emoções participam desse processo e como tudo isso se manifesta naquilo que fazemos de mais determinante: nossas escolhas.

Por isso, quando falamos em uma Nova Terra, acredito que precisamos começar por uma pergunta pouco confortável: se estamos colhendo resultados que nos fazem sofrer, será que precisamos rever as escolhas que nos trouxeram até aqui? Será que precisamos aprender a esperar, exercitar a paciência, abandonar a necessidade de controlar tudo e compreender que nem sempre a vida acontece no tempo que desejamos?

O novo ser humano — ou super-humano, como gosto de provocar — não será aquele que dominará o mundo, mas aquele que aprenderá a governar a si mesmo.

Vamos começar com algo simples. Hoje é o dia. Não importa se é segunda-feira, domingo ou terça-feira. Não precisamos esperar uma data especial para mudar.



Não vou cuidar da minha alimentação apenas porque quero emagrecer. Vou começar a pensar no que ofereço ao meu corpo porque desejo nutrir minha existência, aprimorar meus sentidos, minha percepção, minha capacidade de pensar, sentir e agir. Quero desenvolver em mim um ser humano mais consciente, capaz de viver melhor e contribuir para que os outros também vivam.

Hoje, vou experimentar deixar de controlar aquilo que não me pertence. Vou aceitar que somos diferentes e respeitar a diversidade. Vou olhar para o coletivo, sem ignorar o individual, e compreender que não posso mudar tudo, mas sou responsável por fazer aquilo que está ao meu alcance.

Não vou responsabilizar o outro por todas as minhas dificuldades, nem adiar indefinidamente as mudanças que dependem de mim. Afinal, uma terra na qual nada plantamos não poderá produzir frutos.

E aqui existe um paradoxo fundamental: abrir mão do controle pode ser a maneira mais verdadeira de conquistar autonomia. Não autonomia sobre a vida do outro, mas sobre a minha própria vida, sobre a maneira como escolho viver esse intervalo precioso entre nascer e morrer.

Vou aprender a evitar conflitos desnecessários, observar antes de reagir e respeitar o tempo das coisas. Vou deixar de ser refém da impulsividade para compreender melhor o momento de agir. Assim, talvez eu faça escolhas mais conscientes e perceba, antes de falar, o poder que minhas palavras têm de ferir.

Também vou olhar para a procrastinação de outra maneira. Não apenas como aquilo que me faz perder oportunidades materiais, mas como aquilo que me rouba segundos irrecuperáveis da minha existência. Cada minuto gasto em conflitos inúteis, ressentimentos cultivados e disputas sem sentido é um fragmento da vida que não retorna.

Imagine milhões de pessoas fazendo esse movimento ao mesmo tempo. Pessoas que, independentemente de suas crenças, nacionalidades ou posições políticas, decidem rever seus comportamentos, assumir suas responsabilidades e contribuir para uma humanidade mais generosa.

A política muda, a economia muda, as sociedades se transformam. Mas nenhuma mudança coletiva se sustenta plenamente se continuarmos reproduzindo, em nossas relações cotidianas, a mesma intolerância, a mesma ganância e a mesma indiferença que condenamos no mundo.

Não se trata de dispensar governos, políticas públicas ou responsabilidades institucionais. Trata-se de compreender que a transformação também depende de cada um de nós. A fome precisa ser combatida por ações concretas, mas também precisamos construir uma consciência coletiva que não aceite a indiferença diante da fome alheia.

Talvez alguns já estejam construindo essa Nova Terra em suas escolhas, enquanto tantos outros permanecem distraídos, consumindo energia e tempo com aquilo que não acrescenta vida à vida.

Por isso, quero deixar uma pergunta para hoje: o que existe na sua vida que já não tem valor, mas continua ocupando seus pensamentos, roubando sua paz e fazendo você sofrer?

Uma disputa? Um ressentimento? A necessidade de ter razão? Uma relação com o controle? A expectativa de que alguém se transforme para que você finalmente possa viver bem?

Se não produz crescimento, se não contribui para a vida e se apenas alimenta sofrimento, talvez seja hora de rever o espaço que isso ocupa em você.



Não precisamos esperar uma catástrofe, uma profecia ou uma transformação planetária para começar. Precisamos decidir o que vamos cultivar dentro de nós e o que já não merece continuar sendo alimentado.

A Nova Terra não será construída apenas por aquilo que conquistarmos, mas, sobretudo, por aquilo que tivermos coragem de deixar de reproduzir.

Comece hoje. Observe. Escolha. Mude.

E aquilo que já não tem valor para a vida que você deseja construir, tenha coragem de deixar para trás. Afinal, não basta desejar uma Terra que emane leite e mel. Precisamos nos tornar humanos capazes de cuidar dela e de compartilhar sua abundância.

Renata Gaia

Youtube: Renata Gaia

          Instagram:  @vivagaiadeluz



Renata Gaia - Responsável pelo espaço Gaia de Luz em Nova Friburgo -  Psicanalista - Especialista em comportamento humano - Estudiosa da Neurociência do dia-a-dia 



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