A Nova Terra não nascerá enquanto o velho ser humano continuar vivo em nós, PARTE 1 - Por Renata Gaia


 

A Nova Terra não nascerá enquanto o velho ser humano continuar vivo em nós, PARTE 1

Por Renata Gaia

A Nova Terra é um tema que atravessa gerações e ganha força em momentos de incerteza. Diante das mudanças climáticas e das ameaças ao equilíbrio do planeta, ressurgem profecias sobre o apocalipse, meteoros, três dias de escuridão e uma grande regeneração da humanidade. Promete-se uma Terra de paz, livre da competição, da violência e do sofrimento. Uma nova Canaã, a terra que emana leite e mel.

Desde os tempos mais antigos, o ser humano alimenta o sonho de um paraíso. Algumas tradições o situam no céu; outras o apresentam como uma promessa para depois da morte. Há quem espere por uma intervenção divina, por um acontecimento extraordinário ou por uma transformação planetária que finalmente nos conduza a um mundo melhor.

Mas existe uma pergunta que raramente fazemos: por que esperamos que a Terra se transforme se ainda não estamos dispostos a transformar a nós mesmos?

A Terra já é extraordinária. Sua capacidade de gerar vida não depende das nossas profecias. Ela não precisa de uma nova arquitetura, de um novo design ou de uma aparência diferente. Precisa que deixemos de explorá-la como se fôssemos seus proprietários absolutos. Precisamos aprender a habitar, preservar e compartilhar, em vez de dominar e consumir sem limites.

Entretanto, a transformação mais profunda não é ambiental, tecnológica ou arquitetônica. É humana.



Queremos paz, mas alimentamos a ira. Queremos justiça, mas justificamos nossas próprias conveniências. Exigimos respeito, mas nem sempre respeitamos. Condenamos a manipulação, mas manipulamos quando nos convém. Reclamamos da ganância do mundo enquanto protegemos, com argumentos sofisticados, as nossas pequenas ganâncias. E, quando somos confrontados com nossas contradições, frequentemente preferimos ocupar o lugar da vítima a assumir a responsabilidade pelo que precisamos mudar.

É confortável acreditar que o problema está sempre do lado de fora. Assim, podemos esperar que os governos mudem, que as religiões despertem, que a sociedade evolua, que as próximas gerações sejam melhores. Podemos até esperar por um sinal dos céus. O que nem sempre queremos é acender a luz dentro de nós e enxergar aquilo que essa luz revela.

Não existe regeneração verdadeira sem o reconhecimento daquilo que precisa deixar de existir em nossa maneira de ser.

Isso não significa destruir quem somos, mas abandonar os padrões que nos afastam da nossa essência. Significa reconhecer o mal que podemos causar sem transformar esse reconhecimento em culpa paralisante. Significa arrepender-se, reparar quando possível, rever escolhas e assumir o compromisso de não continuar reproduzindo aquilo que tanto criticamos no mundo.

Não são os golfinhos, as baleias, as vacas, os alfaces ou os brócolis que precisam se tornar melhores para que a humanidade encontre outro caminho. Somos nós que precisamos rever nossa relação com a vida. Não precisamos nos tornar super-heróis, superiores aos outros seres humanos. Precisamos recuperar a capacidade de sermos verdadeiramente humanos: generosos, responsáveis, altruístas e conscientes da consequência de nossas ações.

Talvez a Nova Terra não seja um lugar para o qual seremos transportados, mas uma realidade que começamos a construir quando mudamos a raiz das nossas escolhas. Não basta desejar um mundo sem violência se continuamos violentos nas palavras. Não basta pedir amor enquanto condicionamos o cuidado às nossas expectativas. Não basta falar de luz se nos recusamos a reconhecer as sombras que alimentamos.

A mudança interior não substitui a ação coletiva, a responsabilidade política ou o cuidado ambiental. Ela é parte indispensável de tudo isso. Uma sociedade diferente exige pessoas dispostas a agir de maneira diferente.

Por isso, nestas matérias dedicadas à reflexão sobre a Nova Terra, o convite não é para que esperemos pelo fim do mundo antigo, mas para que deixemos de reproduzi-lo dentro de nós.

Comecemos agora. Na próxima conversa em que sentirmos vontade de ferir. Na próxima oportunidade em que pudermos manipular e escolhermos ser honestos. No momento em que percebermos nossa arrogância e tivermos coragem de reconhecê-la. Na decisão de reparar um dano, pedir perdão, compartilhar o que temos ou simplesmente deixar de causar uma dor desnecessária.

Não esperemos que todos mudem para começarmos. Não condicionemos nossa transformação à transformação do outro. Cada pessoa que interrompe conscientemente a repetição da violência, da ganância e da indiferença abre espaço para uma realidade diferente.

A Nova Terra precisa deixar de ser apenas uma profecia sobre o futuro e se tornar uma decisão no presente.



Que não sejamos apenas aqueles que sonharam com um mundo melhor, mas aqueles que tiveram coragem de se transformar para torná-lo possível. Que nossos filhos e as próximas gerações não herdem somente nossas palavras sobre paz, amor e regeneração, mas encontrem em nossas atitudes a prova de que escolhemos viver esses valores.

A pergunta, portanto, não é apenas quando chegará a Nova Terra.

A pergunta é: o que, dentro de cada um de nós, precisa mudar hoje para que ela comece a existir?

E a resposta não está no céu, em uma profecia ou em uma data futura. Está na próxima escolha que fizermos.

Renata Gaia

Youtube: Renata Gaia

          Instagram:  @vivagaiadeluz



Renata Gaia - Responsável pelo espaço Gaia de Luz em Nova Friburgo -  Psicanalista - Especialista em comportamento humano - Estudiosa da Neurociência do dia-a-dia 



Acesse nossa loja de Livros e colabore adquirindo um dos livros dos nossos autores! Vamos apoiar a leitura !!! 

- Compre livros!

- Assine a revista!

👉 CLIQUE AQUI E CONHEÇA MAIS:  EDITORA ALECRIM


Comentários

Postagens mais visitadas