Entre o direito à saúde e a força da cultura: Mottas pede atenção, mas também revela seus talentos - VOZES DE MOTTAS Nº 10



VOZES DE MOTTAS | Nº 10

15 de outubro de 2026

 


 

Entre o direito à saúde e a força da cultura: Mottas pede atenção, mas também revela seus talentos

 

Nesta edição, Vozes de Mottas olha para dois aspectos fundamentais da vida de uma comunidade: o direito a uma saúde pública próxima e permanente e a importância de reconhecer escritores e artistas que ajudam a construir e preservar a identidade da região.

Mottas é uma das comunidades que integram a extensa área rural de Teresópolis. Região de produção agrícola, de famílias trabalhadoras e de histórias que atravessam gerações, também enfrenta desafios próprios de quem vive distante do centro urbano.

Nesta edição, vamos falar de um desses desafios: o acesso à saúde. Mas também queremos mostrar que Mottas e seu entorno não devem aparecer nas notícias apenas quando existem problemas. Aqui também existem escritores, educadores, artistas e iniciativas culturais que merecem ser conhecidos e valorizados.



Saúde no campo também sustenta a economia

Falar de saúde pública nas regiões rurais é falar também de trabalho, produção, renda e desenvolvimento econômico. Em comunidades agrícolas, o acesso aos serviços básicos de saúde ganha uma dimensão ainda maior porque muitas famílias dependem diretamente da capacidade física de seus trabalhadores para garantir o sustento e manter em funcionamento uma cadeia produtiva que beneficia toda a cidade.

O agricultor não produz apenas para si. É do campo que saem alimentos que chegam às feiras, mercados, restaurantes, hotéis, pousadas e às mesas das famílias. Por trás de cada caixa de hortaliças, legumes e frutas existem pessoas que acordam cedo, enfrentam jornadas fisicamente exigentes e estão sujeitas às condições próprias da atividade rural.

Quando esse trabalhador adoece e não encontra atendimento próximo, o problema deixa de ser apenas individual.

Uma consulta adiada pode significar uma doença que se agrava. Um acompanhamento que não acontece pode resultar em afastamento do trabalho. Uma condição que poderia ser identificada e tratada pela Atenção Primária pode acabar exigindo atendimento de maior complexidade.

Para quem vive distante da região central, procurar assistência médica pode significar ainda deslocamento, despesas e horas — às vezes praticamente um dia — longe da atividade profissional.



E não estamos falando apenas do agricultor.

Sua família também precisa ser cuidada.

Crianças precisam de acompanhamento e vacinação. Mulheres necessitam de consultas preventivas e acompanhamento regular. Idosos precisam controlar doenças crônicas, medicamentos e exames. Todos precisam ter acesso a ações de prevenção.

Por isso, manter uma estrutura eficiente de Atenção Primária nas áreas agrícolas não deve ser encarado simplesmente como despesa pública.

É investimento social e também econômico.

Uma população rural saudável significa melhores condições de trabalho, famílias protegidas, prevenção de doenças e menor necessidade de atendimentos emergenciais. Significa também proteger uma atividade econômica importante para Teresópolis.

É justamente nesse contexto que precisamos olhar para uma questão que acompanha a comunidade há anos.



Afinal, o que aconteceu com o posto de saúde de Mottas?

A história não começou agora.

Documentos públicos mostram que Mottas já contou oficialmente com uma unidade de saúde. A Lei Municipal nº 2.757, de 19 de dezembro de 2008, deu ao equipamento existente na localidade o nome de Posto de Saúde Familiar Julieta da Silva Branco, identificando expressamente sua localização em Mottas, no 3º Distrito de Teresópolis.

Lei Municipal nº 2.757/2008 — Câmara Municipal de Teresópolis

Anos depois, a necessidade de atendimento permanente na comunidade voltou a aparecer no planejamento público. No Plano Municipal de Saúde 2022–2025, consta como meta a implantação da eAP de Mottas, uma Equipe de Atenção Primária.

Plano Municipal de Saúde 2022–2025

Em 2023, surgiram novas informações capazes de aumentar a expectativa dos moradores. Foi divulgado que aproximadamente R$ 1,3 milhão provenientes de emenda parlamentar seriam destinados à UBS de Bonsucesso e à construção da futura UBS de Mottas.

Posteriormente, a própria Prefeitura divulgou material sobre os investimentos realizados na saúde e informou que havia unidades em construção em Bonsucesso e Mottas.

Prefeitura de Teresópolis — informações sobre UBS e investimentos em saúde

A expectativa da população, portanto, era compreensível: Mottas teria uma estrutura fixa para atendimento de Atenção Primária.

O tempo passou.

E chegamos a 2026 com perguntas que precisam ser respondidas.

Em 2026, Mottas continua recebendo a Unidade Móvel

Nas relações atuais de unidades de saúde disponibilizadas pela Prefeitura de Teresópolis, aparecem equipamentos localizados em diferentes regiões do município, inclusive na zona rural. Entretanto, Mottas não aparece entre as unidades fixas relacionadas pelo município.

Relação de Unidades de Saúde — Prefeitura de Teresópolis

Enquanto isso, a comunidade continua fazendo parte dos roteiros da Unidade Móvel de Saúde.

Em setembro de 2026, Mottas recebeu o serviço em datas programadas. Neste mês de outubro, a localidade voltou a integrar o calendário de atendimento médico e odontológico itinerante.

Programação da Unidade Móvel de Saúde na área rural



É preciso deixar algo muito claro: a Unidade Móvel de Saúde é importante. Levar médicos, dentistas e outros serviços para localidades afastadas amplia o acesso da população e merece ser reconhecido.

A questão levantada por esta coluna não é contra a existência desse serviço.

A pergunta é outra:

Se Mottas possuía um posto de saúde, se posteriormente houve previsão de implantação de uma equipe de Atenção Primária, se foram anunciados recursos para uma nova UBS e se a Prefeitura chegou a informar publicamente que havia uma unidade em construção, qual é, afinal, a situação atual da UBS de Mottas?

Não estamos fazendo uma acusação.

Estamos pedindo respostas.

Vozes de Mottas quer saber

Qual é a situação atual da UBS de Mottas? Qual foi o valor efetivamente destinado à sua construção? Quanto desse recurso já foi utilizado? Existe contrato para execução da obra? Qual empresa foi ou é responsável? Qual o percentual já executado? Existe alguma pendência impedindo sua conclusão? E, principalmente, qual é a previsão oficial para que a unidade seja entregue e passe a atender a população?

São perguntas legítimas de uma comunidade que precisa saber o que aconteceu com um equipamento público anunciado para seu território.

A coluna Vozes de Mottas, espaço do Jornal Alecrim dedicado às questões da região, buscará esses esclarecimentos junto ao poder público e manterá aberto o espaço para que a Prefeitura e a Secretaria Municipal de Saúde apresentem as informações e esclarecimentos necessários.

Porque saúde no campo não é favor.

É direito.

E cuidar de quem produz no campo é também cuidar de Teresópolis.





Mottas também cultiva histórias

 

Escritores da região mostram que a zona rural também é lugar de literatura, memória e criação

Depois de falar sobre uma necessidade fundamental da comunidade, queremos voltar nossos olhos para outra riqueza de Mottas e de seu entorno.

Nem só de lavouras vive esta região.

Em Mottas também brotam histórias.

Entre plantações, estradas rurais, escolas, casas e pequenas comunidades existem pessoas transformando experiências em livros, poesia, arte e memória.

Se a saúde é indispensável para que uma comunidade viva com dignidade, a cultura é fundamental para que ela reconheça sua identidade, preserve sua história e consiga transmiti-la às próximas gerações.

E alguns nomes ajudam a mostrar que a produção cultural também está presente deste lado de Teresópolis.

 


Alfredo Laufer: quando Mottas entra para a literatura

Um dos exemplos mais recentes é o escritor Alfredo Laufer, autor de Motim de Mottas — O homem que precisava ser visto.

O próprio autor conta que o livro nasceu de seu encontro com Mottas e com as pessoas que encontrou por aqui.

Entre lavouras, estradas, conversas e encontros, Laufer percebeu algo que acabaria se tornando parte da essência de sua obra: algumas das grandes lições da vida não estão necessariamente nos livros, mas nas pessoas.

Seu personagem principal, Theobaldo, chega procurando um lugar onde possa ser visto. Aos poucos, porém, descobre que talvez exista algo ainda mais importante: aprender a olhar e reconhecer o outro.

Mottas, portanto, não aparece apenas no título.

A comunidade, suas paisagens, seus encontros e sua gente ajudam a alimentar a narrativa. É uma forma de transformar o cotidiano de uma região rural em literatura e levar o nome de Mottas para leitores que talvez nunca tenham passado por nossas estradas.

Isso tem valor.

Quando o nome de uma comunidade aparece na capa de um livro, parte de sua identidade atravessa fronteiras.

 



Jeniffer Cereja Ferran: livros, educação e infância

Outro nome ligado à região é o da escritora e educadora Jeniffer Cereja Ferran.

Formada em Língua Portuguesa/Literatura e atuante na educação, Jeniffer vem construindo uma trajetória que aproxima especialmente a literatura do universo infantil.

Entre suas obras estão A Escola, Tons de Pele e Apelido só é bom quando a gente gosta (os dois últimos publicados pela Editora Alecrim).

Em A Escola, existe uma ligação especialmente importante com Mottas: a obra recupera a história da Escola Municipal Sizenando Adolpho Tayt-Sohn, instituição que faz parte da vida e da memória da comunidade.

Sua atuação mostra também que o livro não precisa terminar quando fechamos a última página. A literatura pode virar encontro, conversa, contação de histórias e atividade entre crianças e famílias.

É justamente essa proposta que Jeniffer levará, no próximo dia 24 de outubro, às 14h, à Tarde de Oficina no Trufados da San, em Teresópolis.

A atividade terá como inspiração Adivinha o quanto eu te amo, de Sam McBratney, propondo um momento entre pais e filhos com literatura, afetividade e contação de histórias.

São ações que podem parecer pequenas diante de grandes festivais ou eventos culturais.

Mas são justamente esses encontros que ajudam a formar leitores.


Uma criança que encontra um escritor, ouve uma história e percebe que os livros também podem fazer parte de seu cotidiano talvez esteja dando ali seus primeiros passos para uma relação que poderá acompanhá-la pela vida inteira.

 




De Santa Rosa vêm outras mãos talentosas

E basta avançarmos um pouco pelo território para encontrarmos outro exemplo.

No bairro vizinho de Santa Rosa, está a escritora Patrícia da Silva Clemente, autora do livro Mãos Talentosas publicado pela Editora Alecrim.

Professora, agricultora, artesã, formada em Pedagogia, escritora de poesias e também ligada à pintura, Patrícia reúne em sua própria trajetória diferentes formas de produzir e criar.

Seu trabalho ajuda a quebrar uma imagem que ainda persiste quando se fala das regiões rurais.

O campo não produz apenas alimentos.

Produz conhecimento. Produz arte. Produz literatura. Produz cultura.

Quem trabalha na terra também escreve.

Quem planta também pinta.

Quem ensina também pode fazer poesia.

E quantos outros talentos ainda existem em Mottas, Santa Rosa, Independente de Mottas e comunidades próximas esperando apenas uma oportunidade para serem conhecidos?

Precisamos aprender a valorizar quem é daqui



Talvez um dos maiores desafios culturais de uma comunidade seja reconhecer seus próprios talentos antes que seja necessário alguém de fora dizer que eles têm valor.

Conhecemos escritores famosos, músicos nacionais, atores e artistas que vivem a centenas ou milhares de quilômetros de distância. Isso faz parte do acesso à cultura e é positivo.

Mas muitas vezes não sabemos que, na estrada ao lado, na escola da comunidade, em um sítio próximo ou na casa de um vizinho, existe alguém escrevendo um livro, compondo uma música, pintando um quadro, produzindo artesanato ou preservando uma história que também é nossa.

Valorizar o artista local não significa apenas dizer que seu trabalho é bonito.

Significa comprar seus livros, comparecer aos lançamentos, participar das atividades, convidá-lo para as escolas, divulgar suas obras, acompanhar suas apresentações e criar oportunidades para que outras pessoas conheçam aquilo que ele produz.

Também significa cobrar políticas públicas que façam a cultura chegar às regiões rurais e que reconheçam os artistas que vivem e produzem nesses territórios.

Cultura também movimenta a economia. Um evento cultural movimenta alimentação, transporte, comércio e serviços. Um escritor divulgado pode levar o nome de sua comunidade para outras cidades e estados. Um livro chamado Motim de Mottas pode fazer alguém perguntar:

Onde fica Mottas?

E talvez essa pessoa queira conhecer nossa região, sua paisagem, sua produção e sua gente.

Mas existe algo que vai além da economia.

A cultura preserva aquilo que o tempo costuma apagar.

Estradas mudam. Casas desaparecem. Pessoas partem. Costumes se transformam. Mas aquilo que foi registrado em um livro, fotografia, música, pintura ou história contada às novas gerações pode permanecer.

Por isso, obras como Motim de Mottas, A Escola e Mãos Talentosas representam mais do que conquistas individuais de seus autores.

Cada uma, à sua maneira, ajuda a dizer:

Nós existimos. Temos histórias. Produzimos cultura. E nossas histórias também merecem ser contadas.

Uma comunidade precisa de boas estradas, saúde, educação, transporte e serviços públicos.

Mas também precisa de memória, cultura e oportunidades.

Mottas é terra de agricultores e trabalhadores que ajudam a alimentar Teresópolis.

É terra de famílias que construíram e continuam construindo parte da história do município.

E é também terra de escritores, leitores, artistas e histórias.

Cuidar de Mottas é cuidar de quem vive e trabalha aqui. Valorizar Mottas é também dar voz a quem cria aqui.

Vozes de Mottas continua ouvindo a comunidade

O Vozes de Mottas é uma coluna quinzenal do Jornal Alecrim, desenvolvida em parceria com a APA-MR, e continuará nos próximos meses trazendo notícias, histórias, personagens e questões relacionadas à região.



A iniciativa de comunicação integra as ações do projeto “Educação Ambiental e Cultura do Cuidado – Cuidai do Lixo Nosso de Cada Dia”, que trabalha educação ambiental, cultura, mobilização e fortalecimento do sentimento de pertencimento nas comunidades de Mottas, Santa Rosa e Independente de Mottas.

Este projeto foi beneficiado com recursos do Fundo Social da Cresol Vale Europeu.



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