MIL QUILÔMETROS DE NÓS - por Clayton Zocarato


            MIL QUILÔMETROS DE NÓS

            (Conto saudosista baseado na música A Thousand Miles de Vanessa Carlton lançado no álbum Be Not Nobody de 2002)

           

            Naquela sexta-feira de outubro de 2002, Maria Rita passou quase quarenta minutos diante do espelho tentando decidir se deveria trocar de blusa. A primeira parecia simples demais; a segunda, exagerada.

            A terceira era a mesma que usara no aniversário de uma amiga, mas ninguém precisava saber disso. No rádio do quarto, uma música internacional tocava baixinho, interrompida de vez em quando pela voz do locutor anunciando a programação do fim de semana.

            Sobre a cama, havia uma bolsa pequena, um gloss, algumas moedas e o celular que ela ganhara de presente meses antes. O aparelho era pesado, tinha uma tela minúscula e uma bateria que já não durava tanto quanto no começo, mas, para Maria Rita, representava uma liberdade quase extraordinária: agora podia receber uma mensagem de alguém especial sem precisar esperar chegar em casa.

            Ela ainda não sabia quem seria esse alguém.

            Tinha dezenove anos, estudava, trabalhava durante o dia e passava boa parte do tempo imaginando como seria sua vida quando finalmente pudesse escolher tudo por conta própria. Não queria grandes riquezas. Queria conhecer lugares, ter um emprego de que gostasse, sair com os amigos sem precisar dar tantas explicações e, principalmente, encontrar alguém com quem pudesse conversar até tarde sem sentir que precisava fingir ser mais interessante do que realmente era.

            Naquela noite, iria à danceteria com duas amigas. A cidade não oferecia muitas opções de diversão, mas aquele lugar tinha luzes coloridas, um salão amplo e um DJ que conseguia transformar qualquer sábado comum em acontecimento.

             Na entrada, os rapazes ajeitavam as camisas e as garotas conferiam o cabelo nos espelhos dos celulares. Havia perfume demais no ar, filas desorganizadas e uma agitação que parecia esconder o medo de que a juventude passasse depressa.

            Wesley chegou pouco depois das dez. Tinha vinte e dois anos, trabalhava numa oficina e usava uma camisa escura que sua irmã considerara elegante, embora ele suspeitasse que ela estivesse apenas tentando convencê-lo a parar de sair sempre com as mesmas roupas. Veio acompanhado de três amigos, todos determinados a encontrar alguém interessante, embora nenhum deles admitisse isso em voz alta.

            — Hoje você desencalha — anunciou Marcelo, dando-lhe um tapa no ombro.

            — Cuida da sua vida.

            — Estou cuidando. A sua está precisando de manutenção.

            Wesley riu e entrou.

            A primeira meia hora passou sem novidades. Ele cumprimentou conhecidos, comprou um refrigerante e ficou perto do balcão observando a pista. Foi então que viu Maria Rita discutindo com uma amiga porque não conseguia decidir se uma música era de uma banda inglesa ou americana.

            — É americana — disse a amiga.

            — Tenho certeza de que é inglesa.

            — Você tem certeza de tudo.

            — Não de tudo. Só das coisas importantes.

            Wesley riu antes de perceber que estava rindo sozinho.

            Maria Rita notou.

            — Está rindo de quê?

            Ele poderia ter inventado alguma desculpa, mas respondeu:

            — Da discussão. Vocês parecem estar decidindo o destino do mundo.

            — E você entende de música?

            — Entendo o suficiente para saber quando estou passando vergonha.

            Ela sorriu.

            — Pelo menos é sincero.

            — Só quando não tenho tempo para inventar uma mentira melhor.

            A conversa continuou. Falaram sobre música, trabalho, filmes e sobre o fato de que o DJ parecia ter uma preferência pessoal por canções que ninguém conseguia dançar direito. Wesley não tentou impressioná-la com histórias exageradas. Maria Rita não fingiu achar graça de tudo o que ele dizia. A conversa funcionou justamente porque os dois puderam ser um pouco desajeitados.

            Quando começou uma música mais lenta, Wesley olhou para a pista e depois para ela.

            — Você dança?

            — Depende.

            — De quê?

            — Da pessoa que convida.

            Ele estendeu a mão.

            — Então vou tentar melhorar minhas chances.

 

            Maria Rita aceitou.

            No início, dançaram com a cautela de quem ainda não sabe se pode se aproximar. Wesley mantinha uma das mãos na cintura dela, enquanto Maria Rita apoiava a outra em seu ombro.

            A pista estava cheia, e os casais se moviam sem muita preocupação com os passos. Um rapaz esbarrou em Wesley, pediu desculpas e desapareceu entre as pessoas.

            — Está vendo? — Maria Rita disse. — Você nem precisa dançar bem. Basta sobreviver.

            — É uma filosofia interessante.

            — É a única que funciona numa danceteria.

            Wesley riu e a puxou um pouco mais para perto.

            Quando a música terminou, os dois continuaram conversando. Trocaram telefones, despediram-se sem prometer nada e foram embora com os respectivos grupos.            Maria Rita passou o caminho de volta tentando lembrar o sobrenome dele.    Wesley chegou em casa e contou aos amigos, por mensagem, que havia conhecido uma garota interessante. Não disse que, antes de dormir, ficou imaginando se ela também estaria pensando nele.

            Na segunda-feira, Maria Rita recebeu uma mensagem.

            “Oi. É o Wesley, o sobrevivente da pista de dança.”

            Ela respondeu quase imediatamente.

            “Pensei que você tivesse morrido depois daquele último passo.”

            A conversa seguiu pela tarde, entre compromissos e pequenas interrupções. À noite, voltaram a conversar. Na terça-feira, também. Na quarta, Wesley ligou, mas ficou tão nervoso quando ela atendeu que esqueceu o que pretendia dizer.

            — Você me ligou para ficar em silêncio? — Maria Rita perguntou.

            — Estou organizando meus pensamentos.

            — Organize mais rápido. Estou pagando a ligação.

            Ele começou a rir. Ela também.

            Nos dias seguintes, a aproximação aconteceu sem que nenhum dos dois precisasse anunciar que estava acontecendo. Wesley passou a esperar o fim do expediente para telefonar. Maria Rita começou a olhar para o celular durante as aulas e a inventar motivos para sair mais cedo do trabalho quando sabia que ele a esperaria na praça.

            Encontravam-se numa lanchonete pequena, perto do centro. Dividiam uma porção de batatas fritas, discutiam sobre filmes e caminhavam pelas ruas até que as lojas fechassem.

            Wesley tinha o hábito de chutar pedrinhas pelo caminho; Maria Rita, de interromper a conversa para olhar vitrines. Quando ela parava diante de uma loja de roupas, ele fingia analisar os preços com seriedade.

            — Essa aqui ficaria bem em você — disse certa vez, apontando para uma blusa na vitrine.

            — Você entende de roupa?

            — Não. Mas entendo de você olhando para roupa.

            Ela o beijou na calçada.

            Wesley ficou tão surpreso que quase deixou cair o refrigerante.

            — Isso foi um teste? — perguntou.

            — Foi.

            — E passei?

            Maria Rita voltou a caminhar.

            — Ainda estou avaliando.

            Naquela época, as coisas demoravam a acontecer, e talvez por isso parecessem maiores. Um beijo não vinha acompanhado de fotografias publicadas para centenas de pessoas.

            Uma declaração não precisava ser registrada para se tornar real. Bastava que duas pessoas se lembrassem dela. Os encontros dependiam de horários, dinheiro para o ônibus e combinações feitas com antecedência. A espera fazia parte do romance, embora nem sempre fosse agradável.

            Wesley começou a levar CDs gravados para Maria Rita. Escrevia os nomes das músicas na capa com uma caneta azul, às vezes errando a grafia dos artistas. Ela guardava os discos numa gaveta e os ouvia enquanto estudava. Em troca, preparava pequenas listas de canções que acreditava combinarem com o humor dele.

            Numa tarde de domingo, entregou-lhe um CD.

            — Escute a terceira faixa.

            — Por que não a primeira?

            — Porque eu mandei.

            — Você é autoritária.

            — E você faz perguntas demais.

            Na terceira faixa estava “A Thousand Miles”, de Vanessa Carlton.


            
Wesley ouviu a música no carro, voltando do trabalho. O piano chamou sua atenção, e a melodia o fez pensar imediatamente em Maria Rita. Não compreendeu inteiramente a letra, mas reconheceu a sensação de alguém que deseja atravessar uma distância para alcançar outra pessoa. Naquela noite, ligou para ela.

            — Ouvi a música.

            — E então?

            — Acho que entendi por que você gosta dela.

            — Por quê?

            — Porque parece que alguém está tentando chegar a algum lugar e não consegue parar de pensar na pessoa que deixou para trás.

            Maria Rita ficou em silêncio.

            — Era isso que você queria dizer? — ele perguntou.

            — Era.

            — Você podia ter explicado.

            — E perder a graça de ver se você entenderia sozinho?

            Wesley sorriu.

            A música tornou-se uma espécie de segredo entre eles. Não era necessário tocá-la em todos os encontros. Bastava que um dos dois mencionasse o título para que o outro soubesse do que se tratava.

             Algumas vezes, Maria Rita cantarolava a melodia enquanto caminhavam. Wesley fingia não reconhecer, mas acabava acompanhando o ritmo com os dedos sobre a mesa.

            Na danceteria, a canção começou a tocar numa noite de sábado, algumas semanas depois. As luzes se tornaram azuis, o salão diminuiu o ritmo e os casais se aproximaram.

            Wesley estava conversando com Marcelo quando ouviu o piano. Virou-se imediatamente para procurar Maria Rita.

            Ela já o observava do outro lado da pista.

            Ele atravessou o salão, estendeu a mão e fez uma reverência exagerada.

            — Senhorita, aceita esta dança?

            — Depende. Você melhorou?

— Não muito.

— Então vou aceitar por pena.

            Foram para o centro da pista.

            Maria Rita colocou os braços ao redor do pescoço dele. Wesley segurou sua cintura, e os dois começaram a se mover sem tentar acompanhar perfeitamente a música. Ao redor, algumas pessoas conversavam, outras dançavam e outras apenas esperavam que a canção terminasse para voltar às músicas agitadas.

            Wesley encostou a testa na dela.

            — Um dia vou levar você para conhecer o mar.

            — Você fala isso como se fosse comprar pão.

            — É só organizar as coisas.

            — E se não der certo?

            — A gente tenta de outro jeito.

            Maria Rita ergueu o rosto.

            — Você sempre acha que existe outro jeito.

            — E você sempre acha que alguma coisa vai dar errado.

            Ela riu, mas a frase ficou com ela. Talvez porque ambos estivessem certos.             Talvez porque a diferença entre eles fosse justamente essa: Wesley acreditava que o futuro podia ser conquistado; Maria Rita suspeitava que ele também pudesse ser perdido.

            A música terminou, mas permaneceram abraçados por alguns segundos.             Nenhum dos dois sabia que, anos depois, aquela dança seria lembrada como um dos instantes mais felizes de suas vidas. Naquele momento, só queriam ficar juntos. O passado ainda não existia, e o futuro era uma promessa sem data.

            O relacionamento cresceu ao longo dos meses. Wesley conheceu a família de Maria Rita, ajudou a consertar uma torneira na casa dela e passou uma tarde inteira tentando montar uma estante que terminou ligeiramente torta.

             Maria Rita visitou a oficina onde ele trabalhava, levou-lhe um lanche e ouviu as reclamações sobre um cliente que não queria pagar pelo serviço.

            Aos poucos, conheceram as partes menos encantadoras um do outro. Wesley ficava impaciente quando estava preocupado com dinheiro.

            Maria Rita se fechava quando sentia que não estava sendo compreendida. Ele queria resolver os problemas imediatamente; ela precisava conversar antes de decidir o que fazer. Às vezes, discutiam por motivos pequenos e passavam horas sem se falar.

            Na primeira briga séria, Wesley apareceu na praça com o rosto fechado. Maria Rita havia cancelado um encontro para estudar, e ele interpretara a decisão como falta de interesse.

            — Você podia ter avisado antes — disse ele.

            — Eu avisei ontem.

            — Achei que você estivesse brincando.

            — Por que eu brincaria com isso?

            Ele não respondeu.

            Maria Rita respirou fundo.

            — Wesley, eu gosto de estar com você. Mas não posso abandonar tudo o que preciso fazer para provar isso.

            — Eu não pedi que abandonasse nada.

            — Não com essas palavras.

            Ele desviou o olhar. Pela primeira vez, percebeu que seu medo de perder Maria Rita podia levá-lo a agir como se ela lhe devesse uma garantia permanente. Não era isso que desejava, mas o sentimento nem sempre produzia atitudes coerentes com as melhores intenções.

            — Desculpa — disse, finalmente. — Acho que estou com medo.

            — De quê?

            — De não ser suficiente.

            Maria Rita segurou sua mão.

            — Você não precisa ser suficiente para tudo. Precisa ser honesto comigo.

            A conversa não resolveu todos os problemas, mas mudou alguma coisa. Wesley começou a entender que amar não significava exigir disponibilidade absoluta. Maria Rita percebeu que independência não precisava ser demonstrada pela recusa de qualquer compromisso.

            Os dois continuaram errando, porém passaram a reconhecer alguns dos próprios erros antes que se transformassem em feridas maiores.

            O problema surgiu quando Maria Rita recebeu a oportunidade de estudar em outra cidade.

            A notícia chegou numa manhã de terça-feira. Ela releu a mensagem da instituição várias vezes, conferiu as informações e telefonou para a mãe.

            Depois ficou sentada na cama, olhando para o celular. Estava feliz, mas a felicidade vinha acompanhada de uma pergunta que não conseguia afastar: como contaria a Wesley?

            Encontraram-se naquela noite, na mesma lanchonete onde haviam passado tantas horas conversando. Maria Rita falou sobre a oportunidade, os estudos e a possibilidade de conseguir um trabalho melhor no futuro. Wesley ouviu sem interromper.

            — Você quer ir? — perguntou.

            — Quero.

            Ele mexeu no canudo do refrigerante.

            — Então vai.

            Maria Rita esperava apoio, mas não esperava que fosse tão simples. A resposta dele parecia esconder alguma coisa.

            — Você está bravo?

            — Não.

            — Está, sim.

            — Estou tentando não ser egoísta.

            Ela estendeu a mão por cima da mesa.

            — Você pode ficar triste.

            Wesley olhou para ela.

            — Eu sei. Só não quero que você desista por minha causa e depois me culpe por isso.

            Maria Rita sentiu os olhos arderem.

            — E eu não quero que você fique aqui fingindo que está tudo bem.

            Ele apertou sua mão.

            — Então vamos descobrir como fazer dar certo.

            Durante os meses seguintes, fizeram planos. Consultaram horários de ônibus, calcularam gastos e combinaram visitas. Wesley prometeu que procuraria um emprego melhor.

            Maria Rita disse que tentaria voltar sempre que pudesse. Os dois acreditavam que a distância seria difícil, mas administrável.

            Na despedida, na rodoviária, Wesley carregou as malas dela até a plataforma. O ônibus já estava ligado, e algumas pessoas se acomodavam nos assentos. Maria Rita o abraçou com força.

            — Não esquece de mim.

            — Como se eu fosse conseguir.

            Ela tentou sorrir.

            — Eu vou ligar quando chegar.

            — Eu sei.

            — E você vai me visitar.

            — Vou.

            O motorista avisou que era hora de embarcar. Maria Rita subiu os degraus, mas voltou para abraçá-lo uma última vez. Wesley beijou sua testa, depois a boca, tentando guardar na memória o rosto dela.

            Quando o ônibus partiu, ele permaneceu na plataforma. Não correu atrás do veículo, não gritou seu nome, não fez nenhuma promessa extraordinária. Apenas ficou ali, observando a estrada até que o ônibus desaparecesse.

            Naquela noite, ligou para Maria Rita assim que ela avisou que havia chegado.             Conversaram durante quase uma hora. Falaram sobre o quarto, a cidade, a viagem e as dificuldades que ainda teriam de enfrentar. Antes de desligar, ela pediu que ele colocasse a música que havia gravado no CD.

            Wesley procurou o disco, colocou-o no aparelho e apertou o botão.

            O piano começou a tocar.

            — Está ouvindo? — ela perguntou.

            — Estou.

            — Parece que você está aqui.

            Ele olhou para o quarto vazio.

            — Quase.

            Nos primeiros meses, a distância parecia suportável. Mandavam mensagens durante o dia e conversavam à noite. Maria Rita contava sobre as aulas e os novos amigos. Wesley falava do trabalho e das pequenas mudanças na cidade.

            Quando podiam, encontravam-se nos fins de semana. Os reencontros eram intensos, como se precisassem recuperar em poucas horas tudo aquilo que a distância havia retirado.

            Mas a rotina não se deixava vencer facilmente. Algumas viagens custavam mais do que podiam pagar. Os horários não coincidiam.

            As ligações eram interrompidas por problemas de sinal, e as mensagens, às vezes, chegavam tarde demais. Maria Rita começou a construir uma vida própria na cidade nova. Wesley também encontrou outras responsabilidades.

            Aos poucos, passaram a contar menos detalhes.

            Não por falta de amor, mas porque as experiências já não eram compartilhadas da mesma maneira.

            Maria Rita mencionava colegas que Wesley nunca conheceria. Wesley falava de problemas que ela não poderia ajudar a resolver. As conversas, antes cheias de novidades, começaram a girar em torno das mesmas perguntas: como foi o dia, o que você fez, quando vamos nos ver?

            Uma noite, discutiram por causa de uma ligação perdida. Maria Rita estava numa reunião de estudos e não percebeu o celular vibrar. Wesley ligou novamente, mas ela não atendeu. Quando conseguiu falar com ele, encontrou uma voz fria.

            — Você podia ter avisado.

            — Eu estava ocupada.

            — Você sempre está ocupada.

            — Porque eu estou estudando, Wesley. Foi para isso que vim.

            Ele se arrependeu assim que ouviu a própria frase, mas já era tarde.

            — Eu sei por que você foi — respondeu. — Só não sei mais onde eu fico nessa história.

            Maria Rita fechou os olhos.

            — Você não pode pedir que eu pare de viver para que você se sinta seguro.

            — Não estou pedindo isso.

            — Então não me faça sentir culpada por estar aqui.

            A conversa terminou sem despedida.

            Naquela noite, Maria Rita não conseguiu estudar. Wesley saiu de casa e dirigiu sem destino pelas ruas da cidade. Os dois estavam com saudade, mas a saudade havia adquirido uma forma desagradável: em vez de aproximá-los, fazia com que cobrassem um do outro aquilo que nenhum poderia oferecer por inteiro.

            A distância física era mensurável. Havia ônibus, horários e quilômetros. A outra distância era mais difícil. Surgia quando Maria Rita deixava de contar uma coisa porque não queria iniciar uma discussão, ou quando Wesley fingia não se importar com algo que o magoava.

            Crescia nos silêncios e nos assuntos adiados. E, quando finalmente percebiam sua presença, já não sabiam exatamente como atravessá-la.

            No fim daquele ano, Maria Rita voltou para a cidade durante as férias. Wesley foi buscá-la, e os dois se abraçaram como se o corpo pudesse resolver aquilo que as palavras haviam complicado. Durante alguns dias, tudo pareceu melhor. Caminharam pela praça, visitaram amigos e foram à danceteria onde se conheceram.

            O lugar continuava quase igual, mas eles não.

            Quando o DJ anunciou uma sequência de músicas românticas, Wesley olhou para Maria Rita. Ela já sabia qual seria a próxima canção. Os primeiros acordes de “A Thousand Miles” começaram a tocar.

            Ele estendeu a mão.

            Ela aceitou.

            Dançaram no centro do salão. Wesley a segurava com a mesma delicadeza da primeira noite, mas agora havia algo de urgente no abraço.

             Maria Rita encostou o rosto no ombro dele e tentou afastar a ideia de que aquela poderia ser a última vez.

            — Lembra do que você me disse? — ela perguntou.

            — Muita coisa. Vai ter que ajudar.

            — Que ia me levar para conhecer o mar.

            Wesley sorriu, triste.

            — Eu ainda quero.

            — Eu também.

            A música continuava. Ele acariciou os cabelos dela.

            — Você acha que a gente vai conseguir?

            Maria Rita não respondeu imediatamente. Olhou para os casais ao redor, para as luzes que giravam no teto e para um grupo de jovens que ria perto do bar. Pensou em como tudo parecia simples antes de precisarem decidir o que fazer com a própria vida.

            — Eu não sei — disse, finalmente.

            Wesley baixou os olhos.

            — Eu queria que você soubesse.

            — Eu também queria.

            Continuaram dançando até o fim da música. Nenhum dos dois chorou. Quando a canção terminou, Maria Rita beijou o rosto dele e foi buscar água.

            Wesley ficou na pista, observando os casais que começavam outra dança.

            Na semana seguinte, sentaram-se na praça para conversar. Não havia briga.             Talvez isso tenha tornado tudo mais difícil. Maria Rita contou que precisava continuar os estudos e que talvez conseguisse uma oportunidade de trabalho na cidade onde morava. Wesley disse que estava tentando mudar de emprego e que não sabia quando poderia acompanhá-la.

            — Eu te amo — ela disse.

            — Eu também te amo.

            — Mas estou cansada de sentir que preciso escolher entre você e a minha vida.

            Wesley ficou olhando para as próprias mãos.

            — Eu nunca quis que fosse assim.

            — Eu sei.

            Ele respirou fundo.

            — Se eu pedir para você ficar, você fica?

            Maria Rita sentiu vontade de dizer sim. A resposta estava pronta, escondida atrás do medo, da saudade e da lembrança da primeira dança. Mas sabia que, se aceitasse, talvez passasse anos perguntando a si mesma o que teria acontecido caso tivesse seguido outro caminho.

            — Eu não sei — respondeu.

            Wesley assentiu devagar.

            — Acho que entendi.

            Não tinham deixado de se amar. Tinham chegado ao ponto em que o amor, sozinho, não conseguia decidir por eles.

            A separação aconteceu sem uma cena grandiosa. Houve lágrimas, abraços e uma conversa que demorou muito mais do que ambos esperavam.

            Maria Rita voltou para a outra cidade alguns dias depois. Wesley não foi à rodoviária. Não porque estivesse com raiva, mas porque sabia que, se a visse partir novamente, talvez tentasse convencê-la a ficar.

            Durante semanas, nenhum dos dois procurou o outro.

            Depois vieram mensagens breves, aniversários lembrados, felicitações enviadas com atraso e perguntas sobre o trabalho. Com o tempo, as conversas se tornaram raras.             A vida foi ocupando os espaços que antes pertenciam ao relacionamento.

            Maria Rita se formou, conseguiu emprego e mudou de endereço. Wesley trocou de trabalho, comprou um carro usado e ajudou a família.

             Ambos tiveram outros relacionamentos. Aprenderam coisas novas, cometeram outros erros e descobriram que a vida adulta não oferece uma conclusão definitiva para os sentimentos. Às vezes, a gente simplesmente aprende a conviver com aquilo que não conseguiu resolver.

            A música permaneceu.

            Certa tarde, muitos anos depois, Maria Rita encontrou uma caixa de CDs enquanto organizava o armário. Sentou-se no chão e começou a olhar as capas.             Algumas estavam riscadas; outras tinham anotações feitas com caneta azul. No fundo da caixa, encontrou o disco que Wesley lhe dera.

            Colocou-o no aparelho antigo que ainda guardava e procurou a terceira faixa.

            Quando o piano começou, ela ficou imóvel.

            Lembrou-se da danceteria, das luzes azuis, do rosto de Wesley quando estendeu a mão. Lembrou-se das mensagens, das caminhadas, das brigas e da rodoviária.

            Por alguns segundos, teve a impressão de que bastaria fechar os olhos para ouvir a voz dele perguntando se ela queria dançar.

            Mas não fechou.

            Continuou olhando para a caixa, sorrindo discretamente. A lembrança ainda doía, mas já não exigia uma resposta.

             Maria Rita havia compreendido que nem todo amor precisa voltar para continuar fazendo parte da nossa vida.

            Na mesma semana, Wesley ouviu a canção no rádio do carro. O trânsito estava lento, e uma garoa cobria o para-brisa. Por um instante, pensou em mudar de estação.             Depois deixou a música tocar.

            Lembrou-se de Maria Rita dançando com os olhos fechados, da maneira como ela ria quando ele errava os passos e do último abraço antes da separação.

            Não sentiu vontade de telefonar. Quis apenas que ela estivesse bem.

            Quando o sinal abriu, continuou dirigindo.

            Os anos haviam passado, e nenhum dos dois permanecera congelado na fotografia da danceteria. Maria Rita já não era a garota que temia escolher o próprio caminho. Wesley já não era o rapaz que acreditava precisar resolver tudo para merecer amor.

             Ambos haviam mudado, e talvez essa fosse a parte mais difícil de aceitar: as pessoas que se apaixonam nem sempre são as mesmas que precisam decidir como continuar juntas.

            A danceteria fechou alguns anos depois. No lugar, abriram uma loja. O letreiro desapareceu, o salão foi dividido e as paredes receberam outra pintura.

             Os jovens que frequentavam o lugar também envelheceram. Alguns se mudaram, outros tiveram filhos, outros ainda se encontravam ocasionalmente para conversar sobre os velhos tempos.

            O mundo mudou de ritmo. Os celulares passaram registrar cada instante, as mensagens chegaram mais depressa e as redes sociais aproximaram pessoas que viviam em cidades diferentes. Mesmo assim, continuaram existindo despedidas, desencontros e palavras que ninguém sabia como dizer.

            A tecnologia podia encurtar a distância entre duas telas, mas não conseguia garantir que duas pessoas soubessem o que fazer quando finalmente estivessem diante uma da outra.

            Maria Rita compreendeu isso numa noite de outubro, quando dançou sozinha na sala ao ouvir a música de Vanessa Carlton. Não havia vestido especial, danceteria ou alguém esperando por ela. Estava de roupa confortável, com os cabelos presos de qualquer jeito, e errou os passos duas vezes antes de começar a rir.

            Dançou até o fim da canção.

            Depois sentou-se no sofá e ficou olhando para a janela. A rua estava molhada, e as luzes dos postes se refletiam no asfalto. Pensou em Wesley sem desejar voltar ao passado.

            Lembrou-se dele como se lembra de uma cidade em que se viveu por algum tempo: com carinho, com certa curiosidade e com a consciência de que já não se pertence inteiramente àquele lugar.

            Talvez, em algum canto da cidade onde vivia, Wesley também estivesse ouvindo uma música antiga. Talvez estivesse dirigindo, preparando o jantar ou conversando com alguém. Maria Rita não sabia, e já não precisava saber.

            O que viveram não havia sido uma promessa fracassada. Fora uma história real, feita de alegrias, erros, escolhas e despedidas. Não se tornara eterna na forma que imaginaram, mas havia deixado marcas que nenhuma separação poderia apagar.

            Maria Rita levantou-se, desligou o aparelho e foi preparar o jantar. No dia seguinte, teria compromissos, contas para pagar e problemas comuns para resolver. A vida continuaria sem pedir licença, como sempre fizera.

            E, ainda assim, alguma coisa daquela noite de 2002 permaneceria com ela: a mão de Wesley estendida no meio da pista, o piano começando a tocar e a certeza, tão breve quanto verdadeira, de que estava exatamente onde queria estar.

            Talvez o amor não seja a capacidade de impedir que alguém vá embora. Talvez seja também a coragem de reconhecer o que existiu sem exigir que o passado continue obedecendo aos nossos desejos.

            Maria Rita e Wesley não venceram os quilômetros. Não conseguiram transformar a juventude numa promessa de permanência.

            Mas dançaram juntos, riram, fizeram planos e aprenderam, cada um à sua maneira, que uma história pode terminar sem perder o valor.

            E, se um dia alguém perguntasse a Maria Rita sobre Wesley, ela talvez sorrisse antes de responder:

            — Ele dançava muito mal.

            Depois acrescentaria, como quem revela um segredo:

            — Mas foi com ele que eu aprendi a gostar de dançar.

            Porque certas pessoas não ficam para sempre ao nosso lado. Ficam no jeito como passamos a ouvir uma música, na lembrança de uma rua, na coragem de seguir em frente e na descoberta de que o passado não precisa voltar para continuar sendo importante.



            Às vezes, mil quilômetros não são suficientes para apagar uma lembrança.

            E às vezes uma única dança basta para que duas pessoas levem uma parte uma da outra pelo resto da vida.



Clayton Alexandre Zocarato

Possui graduação em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista (2005) - Unicep - São Carlos - SP, graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (2016) - Ceuclar - Campus de São José do Rio Preto – SP, Técnico em Comércio Exterior pelas Faculdades Eficaz, e atualmente cursa Serviços Jurídicos e Notoriais na Unimar. Escrevo regularmente para o site www.recantodasletras.com.br usando o pseudônimo ZACCAZ, mesclando poesia surrealista, com haikais e aldravias..Formado Especialista em Medina y Arte com ênfase em Gilles Deleuze e Equizoanálise   onde é também  pesquisador do Centro de Medicina y Arte  de Rosário – Argentina, sendo o primeiro brasileiro a atuas nesse centro de pesquisa. Especialista em Ensino pela Ufscar, especialista em Psicopedagogia Institucional pela Fundepe – Unesp, Especialista em História da África pela Faculdade de Minas Gerais.

·                  Email: claytonalexandrezocarato@yahoo.com.br

·                  Instagram: Clayton.Zocarato

·                  Facebook: https://www.facebook.com/clayton.zocarato/


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