Não existe Nova Terra enquanto estivermos presos ao medo de perder, Parte 3 - Por Renata Gaia
Não existe Nova Terra enquanto
estivermos presos ao medo de perder, Parte 3
Por Renata
Gaia
Como
neuropsicanalista, há décadas, estudo o comportamento humano e suas
manifestações nos relacionamentos, sejam eles familiares, amorosos ou
corporativos. E uma das constatações que mais me mobilizam é que o
relacionamento talvez seja um dos maiores desafios da existência humana. Até
mesmo quem conquistou estabilidade, sucesso e segurança pode encontrar
dificuldades para se relacionar consigo mesmo.
Por isso,
nesta terceira reflexão sobre a Nova Terra, proponho uma pergunta: será que
aprender a nos relacionar é uma das mudanças fundamentais para que possamos
habitar, desde agora, essa nova realidade que tanto desejamos?
Grande parte
dos nossos conflitos está relacionada ao medo. Medo de perder um parceiro, de
envelhecer, de perder a juventude, o dinheiro, a posição social ou até mesmo a
vida. E, enquanto estamos ocupados tentando impedir que algo nos escape,
deixamos de perceber aquilo que ainda está diante de nós.
É aqui que
entra o desapego.
Hoje, a
palavra está até na moda. Existem plataformas dedicadas ao desapego, nas quais
vendemos aquilo que já não usamos. Mas será que já investigamos aquilo que
usamos demais dentro de nós e que, na verdade, não precisamos continuar
alimentando? O medo de perder, a necessidade de controlar, a teimosia, o desejo
de ter razão e o apego às nossas próprias certezas também ocupam espaço. E,
muitas vezes, custam muito mais caro do que qualquer objeto acumulado.
Desapegar
não significa deixar de amar, abandonar pessoas ou viver sem vínculos.
Significa aprender a estar presente sem transformar o outro em propriedade, sem
exigir que a vida obedeça aos nossos planos e sem fazer do medo de perder a
razão de viver.
É apegar-se
ao que tem valor, sem se tornar prisioneiro desse apego.
Quando
conseguimos compreender isso, abrimos espaço para o entusiasmo: a capacidade de
receber o novo, acolher as surpresas e reconhecer possibilidades que nossas
certezas rígidas não nos permitiam enxergar. A vida deixa de ser uma tentativa
permanente de controlar resultados e passa a ser uma experiência de presença,
escolha e descoberta.
Mas existe
uma questão ainda mais profunda. Podemos estar bem, ter saúde, conforto, uma
família amorosa e uma vida aparentemente perfeita. Entretanto, se ignoramos o
sofrimento de quem está ao nosso lado, nossa abundância permanece incompleta.
A Nova Terra
não pode ser apenas o paraíso particular de alguns. Não basta que a minha
família esteja bem se outras famílias não têm o que comer. Não basta que eu
encontre paz se minhas atitudes contribuem para a inquietação, a exclusão ou o
sofrimento alheio.
Habitamos o mesmo barco. Independentemente do sobrenome, da cultura, do país ou da condição econômica, compartilhamos uma mesma condição humana. A qualidade dos nossos vínculos e a maneira como tratamos uns aos outros também determinam o mundo que estamos construindo.
Por isso,
proponho um exercício simples para hoje: procure alguém que possa precisar de
você. Ofereça ajuda, escute sem interromper, faça algo generoso sem esperar
reconhecimento. Depois, observe o que acontece dentro de você. Perceba como se
sente ao sair, ainda que por alguns instantes, do centro das próprias
preocupações.
Talvez
descubra que a felicidade não diminui quando é compartilhada. Talvez perceba
que a comunicação verdadeira aproxima, que a generosidade cria vínculos e que a
vida ganha outro sentido quando deixamos de existir apenas para nós mesmos.
A Nova Terra
exige que abandonemos o apego ao fútil, ao inútil e àquilo que alimenta nosso
ego, mas nos distancia da vida. Exige que tenhamos coragem de rever certezas,
reconhecer diferenças e aceitar que nem toda surpresa representa uma ameaça.
Não
precisamos esperar que o mundo inteiro mude para começar. Precisamos parar de
esperar que o outro dê o primeiro passo.
Se queremos
uma Terra de abundância, precisamos deixar de viver como se a felicidade fosse
um bem particular.
Então,
pense: a que você está tão apegado que já não consegue viver plenamente? O que
tem tanto medo de perder que está deixando de aproveitar o que ainda possui? E
quem, perto de você, poderia ter uma vida um pouco melhor se você estivesse
disposto a compartilhar algo de si?
Talvez a
Nova Terra comece exatamente aí: quando deixamos de perguntar apenas o que a
vida pode nos oferecer e começamos a perguntar o que podemos oferecer à vida.
Desapegue
das certezas que o aprisionam. Saia da teimosia. Permita-se a surpresa.
Porque uma
humanidade que aprende a compartilhar deixa de disputar incessantemente os
pedaços do mundo e começa, finalmente, a construir um mundo em que todos possam
viver.
Youtube: Renata Gaia
| Renata Gaia - Responsável pelo espaço Gaia de Luz em Nova Friburgo - Psicanalista - Especialista em comportamento humano - Estudiosa da Neurociência do dia-a-dia Acesse nossa loja de Livros e colabore adquirindo um dos livros dos nossos autores! Vamos apoiar a leitura !!! - Compre livros! - Assine a revista! 👉 CLIQUE AQUI E CONHEÇA MAIS: EDITORA ALECRIM |






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